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Projeto Solicitude: mais do que fazer casas, reconstruir lares

Iniciativa dos Missionários da Redenção busca assegurar condições dignas de vida a famílias carentes do distrito de São Mateus, na zona Leste de São Paulo

Projeto Solicitude: mais do que fazer casas, reconstruir lares - Jornal O São Paulo
Lorenna e Emerson Pirolo com participantes do Projeto Solicitude (fotos: Missionários da Redenção/Arquivo)

O Natal se aproximava e um grupo de leigos católicos foi a uma casa entre­gar doações de alimentos. Diante das precárias condições do barraco em que vivia a moradora – uma viúva e seus seis filhos – todos viram que seria preciso fa­zer mais: “A gente se olhou e falou: ‘Não vai adiantar apenas dar o alimento. A questão é um pouco mais profunda’. En­tão, começamos a mobilizar as pessoas da comunidade e outras de boa vontade para pedir doações e reformar aquela casa”.

Assim relata Lorenna Pirolo sobre o começo do Projeto Solicitude, idealizado em 2012 pelos Missionários da Reden­ção na Paróquia Jesus Ressuscitado, na Região Episcopal Belém. Hoje parte da Rede Amparo Pela Vida, que também administra a Associação Amparo Mater­nal, o projeto atua no desenvolvimento humano, social e econômico das famí­lias atendidas; no combate à fome por meio da distribuição de cestas básicas; e na promoção de moradia digna, o que inclui a reforma parcial ou completa de moradias precárias no distrito de São Mateus, na zona Leste da capital paulista.

‘NÃO É SÓ UMA CONSTRUÇÃO DE TIJOLOS’

Os Missionários da Redenção já construíram ou reformaram 11 casas, e o processo para a 12ª já está em curso. Tudo se inicia com as visitas domiciliares para diagnosticar as necessidades das famílias, e há também visitas missionárias de evan­gelização. Após a seleção daquela que será contemplada, são feitas visitas técnicas para listar todos os materiais necessários e averiguar o que será preciso para que as obras ocorram em segurança.

De acordo com Lorenna, ao longo des­ta jornada de acompanhamento se busca, por primeiro, reconstruir a dignidade da família, o que inclui, muitas das vezes, ensinar hábitos de limpeza e organização do lar, ajudar que as pessoas regularizem sua situação de documentos, encontrem emprego, cuidem da própria saúde e da situação educacional dos filhos.

“Nas comunidades de alta vulnera­bilidade, há muitas pessoas em situação de dependência química, por exemplo, e tentamos fazer com que elas se restau­rem primeiro, pois do contrário corre­-se o risco de construirmos a moradia, a entregarmos, mas alguém da família vender a casa para manter um vício. Por isso, fazemos todo esse caminho, pois a família também precisa querer avançar”, detalha Lorenna.

Também participante da iniciativa, o Diácono Nilson Amâncio explica que o Projeto Solicitude está alicerçado nos ei­xos saúde, educação, segurança, vida em família e espiritualidade, sendo que este último também se atenta às condições sacramentais das pessoas da casa: “Nós trabalhamos para edificar a família. Não é só uma construção de tijolos, é ajudar a construir um lar sólido, cristão e ver­dadeiro. Queremos que essa família se desenvolva e volte a ter esperança”.

‘SEM O PROJETO, A GENTE AINDA ESTARIA VIVENDO NO BARRACO’

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Cícera Bezerra em sua antiga casa; na foto abaixo, na casa reformada em 2019

As obras em uma casa podem durar até oito meses, caso seja preciso sua re­construção completa. O custo estimado, neste caso, é de R$ 120 mil. Voluntários colaboram em todas as etapas, bem como os membros da família beneficia­da, e há a contratação de profissionais especializados para serviços específi­cos, como nas partes elétrica e hidráu­lica. Atualmente, o Solicitude conta com cerca de 60 voluntários, entre os quais um engenheiro e duas arquitetas. Com tudo erguido, ocorrem mais mutirões para a pintura da casa, limpeza e mon­tagem do mobiliário, tudo sem qualquer custo para a família.

Em 2019, Cícera Bezerra da Silva, moradora da Vila Bela, em São Mateus, foi a escolhida para ter uma nova casa em lugar do barraco de madeira, no qual morava havia seis anos: “Agora temos dois quartos, uma cozinha e um banhei­ro. Sem o projeto, a gente ainda estaria vivendo no barraco”.

“E não foi só a casa. Com a ajuda do Solicitude, o meu marido também con­seguiu fazer os documentos dele e come­çou a trabalhar. Hoje ele atua como aju­dante geral”, recorda Cícera. Alexsandro, o esposo, participou ativamente da cons­trução da própria casa, na qual também moram os filhos Igor e Heloísa.

Segundo Gislene Madrid, voluntá­ria do Redenção Kids e professora em uma escola pública na Vila Bela, a falta de moradia digna impacta a aprendiza­gem das crianças. “Tivemos um aluno que quando chovia, a casa dele alagava e as goteiras danificavam o seu material escolar. Ele trazia a lição de casa todo envergonhado. Muitas crianças quando o tempo fecha me falam: ‘dona Gisle­ne, hoje eu não sei o que vai acontecer com a minha casa. Minha mãe está lá, meu irmão está lá’. Isso nos dói muito”, relatou.

TUDO REQUER PLANEJAMENTO

“Promover ou apoiar processos au­togestionários para a construção de mo­radias para quem não tem casa ou mora precariamente” é uma das ações comu­nitárias sugeridas pela Campanha da Fraternidade de 2026, cujo tema é “Fra­ternidade e Moradia”.

Segundo Emerson Pirolo, também idealizador do Projeto Solicitude, a ideia de que paróquias realizem ou apoiem a construção de casas é possível, desde que se tenha de uma metodologia detalhada, a partir do mapeamento da realidade de vida das pessoas na área de abrangência da paróquia.

“O Solicitude vai muito além de construir moradia. Ele também trabalha para trazer dignidade à família. Não se resume a cimento, tijolo, areia, ferro e blocos. Estamos falando da construção de um lar e há muitas outras coisas en­volvidas. Não basta o padre falar ‘vamos fazer uma casa’. É a paróquia como um todo que precisa se conscientizar sobre as urgências do território paroquial e abraçar a causa, porque será um grande esforço”, destaca Emerson.

Lorenna lembra que além do mapea­mento da realidade, é preciso pensar um plano de ação e de comunicação do pro­jeto, bem como organizar as lideranças voluntárias: “A construção de cada casa traz um desafio próprio, e sem se enten­der os riscos no meio desse processo, a gente pode até perder a fé ou reduzir o projeto à construção com tijolos. O que eu diria a uma paróquia que pretende construir uma casa para uma família? Olha, é doído, mas é possível! É preciso ter pessoas com vontade, planejar bem, pois há muitos custos, e o padre tem de ter disposição para mobilizar pessoas e dar suporte às famílias”.

POR AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO

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Lorenna e Emerson conversaram com a reportagem do O SÃO PAULO na companhia de alguns dos voluntários do Projeto Solicitude. Questionados so­bre o que lhes motiva a esta iniciativa, “o amor ao próximo”, “o amor a Deus”, a dis­posição em colocar os próprios dons em uma boa causa e a alegria em ver sonhos realizados foram aspectos comuns nas respostas de Sérgio Santiago, Francisca Deusimar, Márcio Nascimento e do casal de idosos Ednalvo e Rosani Barbosa.

A idealizadora do Projeto Solicitude lembrou, por fim, que a iniciativa tem nome e propósitos inspirados na encíclica Sollicitudo Rei Socialis, na qual São João Paulo II aponta que a solicitude social da Igreja tem como fim o desenvolvimento autêntico do homem e da sociedade: “O que fazemos é pautado no Evangelho. O trabalho social está na ponta, mas tudo na dimensão caritativa da evangelização da Igreja. Eu sempre digo que este pro­jeto é uma forma que Deus nos deu para santificarmos nossas vidas”.

PROJETO SOLICITUDE – MISSIONÁRIOS DA REDENÇÃO
Instagram: @missionariosdaredencao
Central Redenção: (11) 95148-0875
Site: Redencao.org
Doações: [email protected] (chave PIX)

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