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São Paulo: convertido por Cristo e missionário do Evangelho

São Paulo: convertido por Cristo e missionário do Evangelho

Poucas figuras marcaram de modo tão decisivo a história do Cristianismo quanto o apóstolo São Paulo. Judeu zeloso, cidadão romano e homem profundamente moldado pela cultura helenista, ele se tornou o grande anunciador de Cristo entre os povos não judeus e uma das colunas da Igreja nascente. Sua trajetória, narrada sobretudo nos Atos dos Apóstolos e em suas cartas, é marcada por contrastes, deslocamentos geográficos e uma radical transformação interior, que continua a inspirar a fé cristã ao longo dos séculos.

Saulo nasceu entre os anos 5 e 10 da era cristã, em Tarso, importante cidade da Cilícia Oriental, atual Turquia, conhecida por seu dinamismo cultural e comercial. Judeu da diáspora, falava grego com naturalidade, trazia um nome de origem latina e possuía cidadania romana, condição rara e valiosa naquele tempo, que mais tarde lhe garantiria proteção jurídica e liberdade de circulação pelo Império. Ainda jovem, por volta dos 12 ou 13 anos, deixou sua cidade natal e foi para Jerusalém, onde recebeu sólida formação religiosa aos pés do mestre Gamaliel, segundo as rigorosas normas do farisaísmo. Esse período moldou seu profundo zelo pela Lei mosaica e sua identidade religiosa.

Após concluir os estudos, Saulo retornou a Tarso, onde conciliava o trabalho manual — como fabricante de tendas — com atividades ligadas à sinagoga. Alguns anos depois, já de volta a Jerusalém, deparou-se com o crescimento do movimento dos seguidores de Jesus de Nazaré. Convencido de que aquela fé ameaçava a tradição judaica e a pureza da Lei, tornou-se um perseguidor ativo dos cristãos. Os textos bíblicos indicam que ele consentiu no apedrejamento de Santo Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, episódio que marcou profundamente a memória da comunidade cristã primitiva.

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CONVERSÃO

A vida de Saulo sofreu uma reviravolta quando, a caminho de Damasco, onde pretendia prender cristãos, foi envolvido por uma luz intensa que o fez cair por terra. Cego, ouviu uma voz que identificou como sendo do próprio Cristo: “Saulo, por que me persegues?” (At 9,4). Conduzido à cidade, encontrou Ananias, que o batizou e lhe restituiu a visão. A partir desse encontro decisivo, Saulo converteu-se ao Cristianismo e passou a usar seu nome romano, Paulo, sinal também de sua missão universal.

Após a conversão, retirou-se por um período para a região da Arábia, em uma etapa envolta em silêncio e mistério, frequentemente interpretada como tempo de recolhimento, oração e amadurecimento espiritual. Quando voltou à vida pública, iniciou uma missão incansável, que o levaria por vastas regiões do Império Romano. Antioquia tornou-se um dos principais centros de sua atividade apostólica, e foi ali que os discípulos passaram a ser chamados, pela primeira vez, de cristãos (cf. At 11,26).

Paulo realizou diversas viagens missionárias, atravessando a Ásia Menor, a Síria, a Grécia e chegando à Europa, fato decisivo para a expansão do Cristianismo. Fundou comunidades, dialogou com culturas diversas e enfrentou resistências, tanto de autoridades judaicas quanto pagãs. Uma curiosidade pouco conhecida é que, apesar de defender firmemente a liberdade cristã em relação à Lei mosaica, Paulo sabia adaptar-se aos contextos culturais, tornando-se “tudo para todos” (1Cor 9,22), a fim de não criar obstáculos ao anúncio do Evangelho.

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CARTAS

Suas cartas, escritas muitas vezes em meio a perseguições, viagens e prisões, constituem um dos maiores legados teológicos do Cristianismo. Nelas, Paulo reflete sobre a centralidade da cruz, a justificação pela fé, a vida no Espírito, a esperança na ressurreição e a unidade da Igreja. Sua espiritualidade é marcada por profunda identificação com Cristo crucificado: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Além do missionário incansável e do teólogo profundo, os escritos paulinos revelam um homem de intensa sensibilidade pastoral. Em suas cartas, Paulo demonstra afeto pelas comunidades que fundou, preocupa-se com conflitos internos, exorta à unidade e não hesita em manifestar alegria, tristeza ou angústia. Também deixa transparecer suas fragilidades pessoais, ao falar de perseguições, prisões, naufrágios e de um misterioso “espinho na carne” (2Cor 12,7), lembrança constante de que a força do apóstolo não vinha de si, mas da graça de Deus que se manifesta na fraqueza.

Outro aspecto curioso de sua vida é a forma como Paulo conciliou a missão evangelizadora com o trabalho manual. Sempre que possível, sustentava-se com o próprio esforço, sobretudo na fabricação de tendas, para não ser um peso às comunidades (cf. 1Ts 2,9; 2Ts 3,8). Essa opção, além de prática, tinha profundo significado espiritual e pastoral: reforçava a gratuidade do anúncio do Evangelho e o colocava em contato direto com a vida cotidiana das pessoas, fazendo com que sua pregação alcançasse também os ambientes mais simples do dia a dia.

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MARTÍRIO

Preso em Jerusalém, Paulo apelou ao imperador por ser cidadão romano e foi levado a Roma. Mesmo em prisão domiciliar, continuou anunciando o Evangelho (cf. At 28,30-31). Durante a perseguição promovida por Nero após o incêndio da cidade, foi novamente detido e condenado à morte. Por ser cidadão romano, foi decapitado entre os anos 67 e 68, nos arredores de Roma, na Via Laurentina. Seu túmulo deu origem à Basílica de São Paulo Fora dos Muros.

A vida do Apóstolo dos Gentios permanece como testemunho de que a graça não anula a personalidade, mas a transforma. As mesmas energias que antes o moviam à perseguição tornaram-se força missionária a serviço do Evangelho. Como ele próprio escreveu, sintetizando sua existência e sua fé: “Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fl 1,21).

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