Iniciativa do professor Paulo Capel torna monumentos da Universidade acessíveis por meio de réplicas táteis

No final do ano passado, a Universidade de São Paulo lançou o projeto Sentir para Conhecer: Monumentos da USP impressos em 3D, uma iniciativa do professor Paulo Capel, da Faculdade de Odontologia (FO), que transforma esculturas da Universidade em réplicas táteis, ampliando o acesso para pessoas com deficiência visual. O evento de lançamento, realizado no Espaço USP Integração & Memória, no edifício da Reitoria, contou com exposição do artista plástico Rogério Ratão e apresentação da pianista Fabiana Bonilha. A previsão é que o público tenha acesso a parte dessas obras agora em 2026.
A proposta tem como objetivo tornar os monumentos da USP acessíveis para pessoas com deficiência visual. A ideia consiste em digitalizar as esculturas, convertê-las em arquivos tridimensionais e produzir réplicas em pequena escala, impressas em 3D. Além disso, prevê a oferta de conteúdo histórico e cultural sobre os monumentos, com legenda em braille-tinta em placas doadas pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, com estudo para a inserção de audiodescrição em determinados pontos das obras também pela interação tátil.
Capel possui baixa visão há cerca de cinco anos e, desde então, vem se dedicando a ações voltadas à acessibilidade, especialmente na soluções utilitárias, como tecnologias assistivas que facilitam tarefas do cotidiano. Em outubro, atuou como membro da comissão organizadora do 1° Congresso Internacional sobre Deficiências, que reuniu profissionais de diversas áreas para debater temas relacionados à participação social e aos direitos das pessoas com deficiência.
Ele destaca, no entanto, que o Sentir para Conhecer propõe um passo além: “A minha meta sempre foi propor acessibilidade, visando coisas com uma certa utilidade prática. Por exemplo, ajudar pessoas cegas a colocar pasta de dente na escova. O Sentir abarca uma coisa que eu vejo como muito importante, além do utilitarismo, que é a questão do acesso à cultura”.
Em seu discurso, Capel agradeceu o apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP para o financiamento e realização do projeto. Marli Quadros Leite, pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária reforçou a importância da iniciativa. “A PRCEU tem uma meta inerente que está voltada às demandas da sociedade e atender as pessoas com deficiência é importantíssimo”.

A iniciativa tem como base a pesquisa de mestrado de Reinaldo Luiz dos Santos, orientada por Fabiana Lopes de Oliveira, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP. No estudo, Santos apresentou o potencial da Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira para se tornar um museu a céu aberto, a partir das esculturas espalhadas pelo campus Butantã, de artistas famosos como Caetano Fraccaroli, Bruno Giorgi e Rino Levi. As peças mapeadas em sua pesquisa foram disponibilizadas para o projeto, que pretende ampliar esse levantamento e futuramente trabalhar obras existentes em todos os campi da USP.
A execução do trabalho é realizada por uma equipe multidisciplinar. Junto a Santos, outros dois doutorandos da FAU, Tallis Rubens e Élton Kinomoto, realizam o escaneamento dos monumentos por meio de drones e tecnologias de captura a laser, com auxílio do professor Fabiano Garcia, da Escola Politécnica (EP) da USP. Os dados obtidos são processados e convertidos em arquivos digitais no formato STL, que reúne informações tridimensionais necessárias à impressão 3D.
Responsável pela etapa seguinte, Andrei Lescano, graduando de Odontologia, abre esses arquivos em um software específico para impressoras 3D e confere minuciosamente os detalhes para garantir que as miniaturas preservem as características originais das obras. “O ponto do projeto é a gente sentir para conhecer. Se ele não tem uma boa definição, detalhes importantes serão perdidos”, afirma Lescano.
Dois novos integrantes, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), se juntaram à equipe: o professor Fábio Siviero trabalhará no material produzido em braille e o especialista de laboratório Kelliton José Mendonça Francisco atuará com a automação dos modelos 3D para inserção de audiodescrição ao toque.

Além dos institutos da USP, o trabalho conta também com a colaboração do professor Renato Froch, da Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec) e da professora Renata Tonelli, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Fabiana Oliveira ressalta que a iniciativa não beneficia apenas pessoas com deficiência visual, mas também amplia o acesso ao patrimônio artístico do campus. “Todas as ações que vamos fazer servem também para as pessoas que não são deficientes. É uma forma de conhecer os monumentos da USP que muitos passam e não percebem.”
A série Sinus ficará exposta na antessala da diretoria da Faculdade de Odontologia da USP até o dia 17 de fevereiro. Com o início do ano letivo, as esculturas serão transferidas para a entrada da unidade. A Faculdade de Odontologia está localizada na Avenida Professor Lineu Prestes, 2227, na Cidade Universitária.
Os interessados no projeto Sentir para Conhecer podem entrar em contato com professor Paulo Capel pelo e-mail: paulocapel@usp.br
Fonte: Jornal da USP





