A dignidade da mulher é querida por Deus, anunciada por Cristo e vivida na Igreja

No mês dedicado às reflexões sobre o papel da mulher na sociedade, o jornal O SÃO PAULO retoma pontos do Catecismo da Igreja Católica (CIC) e de documentos e discursos dos papas que ressaltam a valorização da dignidade da mulher.

Foto: Luciney Martins

“O homem e a mulher são criados, isto é, são queridos por Deus: por um lado, em perfeita igualdade como pessoas humanas e, por outro, em seu ser respectivo de homem e de mulher. ‘Ser homem’, ‘ser mulher’ é uma realidade boa e querida por Deus: o homem e a mulher têm uma dignidade inamissível que lhes vem diretamente de Deus, seu Criador. O homem e a mulher são criados em idêntica dignidade, ‘à imagem de Deus’” (CIC, 369).

São João Paulo II, na carta apostólica Mulieris dignitatem (MD), em 1988, recorda que o homem e a mulher, desde a Criação, “aparecem como ‘unidade dos dois’”, sendo chamados, desde o início “não só a existir ‘um ao lado do outro’ ou ‘juntos’, mas, também, a existir reciprocamente ‘um para outro’” (MD,7).

A DESORDEM COMO FRUTO DO PECADO

Com o pecado original, porém, essa igual dignidade é maculada. “Tendo sido uma ruptura com Deus, o primeiro pecado tem, como primeira consequência, a ruptura da comunhão original do homem e da mulher. Suas relações começaram a ser deformadas por acusações recíprocas, sua atração mútua, dom do próprio Criador, transforma-se em relações de dominação e de cobiça; a bela vocação do homem e da mulher para ser fecundos, multiplicar-se e sujeitar a terra é onerada pelas dores de parto e pelo suor do ganha-pão” (CIC, 1607).

São João Paulo II pontuou que o pecado leva, também, à perturbação da relação original entre o homem e a mulher. “Quando lemos, pois, na descrição bíblica, as palavras dirigidas à mulher: ‘sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará’ (Gn 3,16), descobrimos uma ruptura e uma constante ameaça, precisamente a respeito desta ‘unidade dos dois’, que corresponde à dignidade da imagem e da semelhança de Deus em ambos. Tal ameaça resulta, porém, mais grave para a mulher. Com efeito, ao ser um dom sincero, e por isso ao viver ‘para’ o outro, sucede o domínio: ‘ele te dominará’. Este ‘domínio’ indica a perturbação e a perda da estabilidade da igualdade fundamental, que na ‘unidade dos dois’ possuem o homem e a mulher: e isto vem, sobretudo, em desfavor da mulher, porquanto somente a igualdade, resultante da dignidade de ambos como pessoas, pode dar às relações recíprocas o caráter de uma autêntica ‘communio personarum’ (comunhão de pessoas)” (MD,10).

CRISTO ANUNCIA A IGUAL DIGNIDADE

Ao longo de sua vida pública, Cristo, nascido da Virgem Maria, torna-se promotor da verdadeira dignidade da mulher. “O comportamento de Jesus a respeito das mulheres que encontra ao longo do caminho do seu serviço messiânico é o reflexo do desígnio eterno de Deus, o qual, criando cada uma delas, a escolhe e ama em Cristo (cf. Ef 1,1-5). Por isso, cada mulher é aquela ‘única criatura na terra que Deus quis por si mesma’. Cada mulher herda do ‘princípio’ a dignidade de pessoa precisamente como mulher. Jesus de Nazaré confirma esta dignidade, recorda-a, renova-a e faz dela um conteúdo do Evangelho e da redenção, para a qual é enviado ao mundo” (MD,13).

São João Paulo II escreve que “a ‘igualdade’ evangélica, a ‘paridade’ da mulher e do homem no que se refere às ‘grandes obras de Deus’, tal como se manifestou de modo tão límpido nas obras e nas palavras de Jesus de Nazaré, constitui a base mais evidente da dignidade e da vocação da mulher na Igreja e no mundo. Toda vocação tem um sentido profundamente pessoal e profético. Na vocação assim entendida, a personalidade da mulher atinge uma nova medida: a medida das ‘grandes obras de Deus’, das quais a mulher se torna sujeito vivo e testemunha insubstituível” (MD, 16).

MANTER A FEMINILIDADE

São João Paulo II alerta que “a mulher – em nome da libertação do ‘domínio’ do homem – não pode tender à apropriação das características masculinas, contra a sua própria ‘originalidade’ feminina. Existe o temor fundado de que, por este caminho, a mulher não se ‘realizará’, mas poderia, em vez disso, deformar e perder aquilo que constitui a sua riqueza essencial” (MD,10).

Mais adiante, o Pontífice indica que, “quando dizemos que a mulher é aquela que recebe amor para, por sua vez, amar, não entendemos só ou antes de tudo a relação esponsal específica do Matrimônio. Entendemos algo mais universal, fundado no próprio fato de ser mulher no conjunto das relações interpessoais, que nas formas mais diversas estruturam a convivência e a colaboração entre as pessoas, homens e mulheres. Neste contexto, amplo e diversificado, a mulher representa um valor particular como pessoa humana e, ao mesmo tempo, como pessoa concreta, pelo fato da sua feminilidade” (MD,29).

INDISPENSÁVEIS NO APOSTOLADO DA IGREJA

Foto: Vatican Media

Em uma audiência-geral em fevereiro de 2007, o Papa Bento XVI ressaltou que a “história do Cristianismo teria tido um desenvolvimento muito diferente se não houvesse a generosa contribuição de muitas mulheres”. O Pontífice recordou a atuação das mulheres desde a Igreja primitiva e as menções nas cartas paulinas sobre a dignidade e o papel eclesial da mulher. “O Apóstolo admite como algo normal que na comunidade cristã a mulher possa ‘profetizar’ (1Cor 11,5), isto é, pronunciar-se abertamente sob o influxo do Espírito, contanto que isso seja para a edificação da comunidade e feito de modo digno.”  

São João Paulo II, na Mulieris dignitatem, aponta que a Igreja, “defendendo a dignidade da mulher e a sua vocação, expressou honra e gratidão por aquelas que – fiéis ao Evangelho – em todo o tempo participaram na missão apostólica de todo o povo de Deus. Trata-se de santas mártires, de virgens, de mães de família, que corajosamente deram testemunho da sua fé e, educando os próprios filhos no espírito do Evangelho, transmitiram a mesma fé e a tradição da Igreja […] O testemunho e as obras de mulheres cristãs tiveram um influxo significativo na vida da Igreja, como também na da sociedade. Mesmo diante de graves discriminações sociais, as mulheres santas agiram de ‘modo livre’, fortalecidas pela sua união com Cristo” (MD, 27).

O Pontífice escreve ainda que a Igreja “rende graças por todas e cada uma das mulheres: pelas mães, pelas irmãs, pelas esposas; pelas mulheres consagradas a Deus na virgindade; pelas mulheres que se dedicam a tantos e tantos seres humanos, que esperam o amor gratuito de outra pessoa; pelas mulheres que cuidam do ser humano na família, que é o sinal fundamental da sociedade humana; pelas mulheres que trabalham profissionalmente, mulheres que, às vezes, carregam uma grande responsabilidade social; pelas mulheres ‘perfeitas’ e pelas mulheres ‘fracas’ – por todas: tal como saíram do coração de Deus, com toda a beleza e riqueza da sua feminilidade; tal como foram abraçadas pelo seu amor eterno” (MD,31).

Também hoje a presença feminina na Igreja continua a ser valorizada, o que não necessariamente deve ser mensurado pelos cargos que ocupam, como declarou o Papa Francisco no livro-entrevista “Vamos sonhar juntos” (Editora Intrínseca, 2020): “Muita gente pensa, erroneamente, que a liderança da Igreja é exclusivamente masculina. Mas se você for a qualquer diocese do mundo, verá mulheres dirigindo departamentos, escolas, hospitais e muitas outras organizações e programas; em algumas regiões, encontrará muito mais mulheres na liderança do que homens. Na Amazônia, as mulheres – leigas e irmãs religiosas – dirigem comunidades eclesiais inteiras. Dizer que não são verdadeiramente líderes porque não são padres é clericalismo e falta de respeito”, ressaltou.  

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