Perguntas e respostas da quinta, 19, entre Leão XIV e os padres da sua diocese reunidos no Vaticano. O Pontífice responde a 4 presbíteros de diferentes faixas etárias e oferece orientações práticas sobre o acompanhamento de jovens, a fraternidade e o risco do isolamento, a eutanásia e o valor dos idosos. Uma advertência para não preparar homilias com IA e sobre fraudes da internet e uso das redes sociais: “se não estamos transmitindo a mensagem de Jesus Cristo, talvez estejamos errando”.

Havia quatro perguntas e respostas, mas os temas abordados foram múltiplos, entre diretrizes espirituais (a vida de oração, o incentivo a viver em amizade, a advertência para não se isolar e estar atento à “pandemia” da inveja); indicações concretas para o ministério e a pastoral (como estar ao lado dos jovens, visitar os idosos) e algumas recomendações bem específicas (não abandonar os estudos, não se perder atrás de uma tela, não preparar as homilias com IA). Diálogo livre e aberto, na manhã da quinta-feira (19/02), na Sala Paulo VI, no Vaticano, entre o Papa Leão XIV e o clero da Diocese de Roma. Após o discurso, o Papa quis manter uma conversa com os sacerdotes, cujo conteúdo foi divulgado nesta sexta-feira (20/02).
Ser modelos para os jovens
Para introduzir o diálogo a portas fechadas, o cardeal vigário Baldo Reina apresentou os 4 sacerdotes escolhidos para fazer as perguntas em representação de quatro faixas etárias. Entre eles, havia também um jovem padre ordenado pelo Papa Leão no mês de maio. Por sua vez, ele fez uma pergunta sobre como eles, jovens padres, podem se colocar ao lado de seus coetâneos no mundo.
O Papa, em primeiro lugar, convida a manter “os olhos abertos” sobre a realidade das famílias de onde vêm os jovens: famílias com “crises muito fortes”, pais ausentes ou “divorciados, casados de segunda união”. Muitos jovens “também viveram experiências de abandono”, por isso o sacerdote deve “conhecer a sua realidade”: “estar perto nesse sentido, acompanhá-los, mas não ser apenas mais um entre os jovens”, afirma o Pontífice. Importante, nesse sentido, “o testemunho do sacerdote” que pode oferecer “um modelo de vida”.
Isolamento e vidas terríveis
O Papa pede então para não se contentarem com os jovens que talvez continuem a frequentar a paróquia ou o oratório: “é preciso organizar, pensar, buscar iniciativas que possam ser uma forma de saída”, diz aos padres romanos. “Devemos ir nós, devemos convidar outros jovens, ir com eles para a rua; oferecer talvez diferentes maneiras, atividades” entre esportes, arte, cultura. “Conhecer” é a palavra-chave, segundo Leão, e o conhecimento ocorre através de “uma experiência humana de amizade” com jovens que “vivem um isolamento, uma solidão incrível”.
Após a pandemia, de maneira particular, mas também por causa do smartphone: “eles vivem sozinhos, mesmo que digam: ‘não, meu amigo está aqui’, mas não há contato humano. Vivem uma espécie de distância dos outros, uma frieza, sem conhecer a riqueza, o valor das relações verdadeiramente humanas”. É preciso, portanto, entender como oferecer aos jovens “outro tipo de experiência de amizade, de partilha e, aos poucos, de comunhão”, e a partir dessa experiência “convidá-los também a conhecer Jesus”.
É claro que são necessários “tempo” e “sacrifício”, sublinha Leão XIV, considerando também que muitos desses jovens estão hoje presos a “uma vida terrível” entre drogas, delinquência e violência. É necessário, então, que os sacerdotes “mais próximos em idade, cultura e formação” possam prestar “um grande serviço” e anunciar a mensagem do Evangelho.
Conhecer a comunidade que vai servir
Proximidade e conhecimento são os dois caminhos que o Papa indica também para a pastoral, em resposta à pergunta de um pároco sobre como conseguir ser “incisivo” nesta cultura pós-moderna sem voltar a esquemas “anacrônicos”. Segundo Leão XIV, o primeiro passo é “conhecer verdadeiramente a comunidade onde sou chamado a servir”. Ele recorda aqui sua experiência pessoal: “eu morei em Roma por quatro anos na década de 80, depois por doze anos, de 2000 a 2012-13, e agora há três anos, e cada vez que volto a Roma, de certa forma, encontro uma outra Roma. São muitas coisas… A ‘cidade eterna’, digamos, as ruas são as mesmas, os buracos são os mesmos, mas a vida mudou muito. Então, para servir também como Bispo de Roma, pensei muito, quando fomos a Ostia no domingo passado, para falar com essas pessoas, é preciso começar por conhecer a fundo, tanto quanto possível, a sua realidade”.
Não às homilias preparadas com Inteligência Artificial
O convite é, portanto, para entrar na realidade. A verdadeira, bem diferente da outra realidade que “chega até nós mesmo que não queiramos”, ou seja, “a inteligência artificial, o uso da internet”. E aqui Leão XIV adverte contra a “tentação de preparar as homilias com Inteligência Artificial”: “como todos os músculos do corpo, se não os usamos, se não os movemos, eles morrem, o cérebro precisa ser usado, então também nossa inteligência precisa ser exercitada um pouco para não perder essa capacidade”. Além disso, “fazer uma verdadeira homilia é compartilhar a fé” e a IA “nunca será capaz de compartilhar a fé”. Este é o ponto: “se podemos oferecer um serviço, inculturado, no lugar, na paróquia onde estamos trabalhando, as pessoas querem ver a sua fé, a sua experiência de ter conhecido e amado Jesus Cristo”.
As armadilhas da internet
Nesse sentido, é fundamental “uma vida de oração” que não seja apenas “a rotina de recitar o breviário o mais rápido possível, que também carrego no celular”, mas “o tempo de estar com o Senhor”. Com essa “vida autenticamente enraizada no Senhor”, então podemos oferecer algo diferente: “não é porque eu sou que ofereço aquilo que sou eu, isso é um engano muitas vezes na internet, no Tik Tok, e queremos ser nós: ‘eu tenho muitos seguidores, muitos likes, porque veem o que estou dizendo…’. Não é você: se não estamos transmitindo a mensagem de Jesus Cristo, talvez estejamos errando, e também precisamos refletir muito bem com muita humildade para ver quem somos e o que estamos fazendo”, destaca o Papa Leão XIV.
Inveja clericalis
Outro conselho que ele oferece aos sacerdotes é que vivam em fraternidade, em amizade, desenvolvendo relações interpessoais entre si. Atenção, portanto, a “uma das pandemias do clero em nível universal”, que é a “inveja clericalis”: “um sacerdote que vê que outro foi chamado para ser pároco de uma paróquia maior, mais bonita, chamado para ser vigário”. É assim que “as relações se rompem”, nascem os “boatos” e tudo se “destrói”, em vez de se construir “pontes de amizade”. “Somos todos humanos, há sentimentos, emoções, muitas coisas, mas, como sacerdotes – e espero que já desde o seminário – podemos dar modelos de vida, onde os sacerdotes possam ser verdadeiramente amigos, irmãos, e não inimigos ou indiferentes uns aos outros”, afirma o Papa Leão.
Exemplos de fraternidade sacerdotal
A esse respeito, ele lembra um exemplo “lindo” de fraternidade sacerdotal em Chicago, sua cidade natal, com um grupo de padres que, já desde os tempos do seminário, havia decidido se encontrar uma vez por mês. Alguns fizeram isso até depois dos 90 anos: eles se reuniam, rezavam, estudavam. Estudar é outro ponto em que o Pontífice se detém: “o estudo em nossa vida deve ser permanente, contínuo. Quando ouço alguém me dizer – isso é histórico, um padre me disse –: ‘não abro um livro desde que saí do seminário’. Nossa Senhora – pensei – que tristeza!”.
Leão XIV convida então a agir e não ficar sentado pensando: “ninguém vem me visitar”. “Não tenhamos medo de bater à porta do outro, de tomar a iniciativa, de dizer aos companheiros ou a um grupo de amigos, a alguns: por que não nos reunimos de vez em quando, para estudar juntos, refletir juntos, um momento de oração e depois um bom almoço? O pároco com a melhor cozinheira pode convidar os outros, e assim fazemos um bom almoço juntos”. Ao mesmo tempo, é preciso identificar pessoas com quem se possa ter “uma relação fraterna um pouco mais profunda”. É preciso, isto é, “criar situações para quebrar essa tendência que nos leva à solidão, ao isolamento uns dos outros”.
Testemunhando o valor da vida
Compartilhar alegrias, dificuldades, experiências ajuda, de fato, a superar as crises e também ajuda a se preparar para aceitar o momento em que chegam “a velhice, a doença, a solidão”. Mas “se alguém vive toda a vida como um caminho que nos leva adiante, mesmo com o peso dos anos, muitas vezes também – seja jovem ou idoso – com doenças, com essas dificuldades, terá a capacidade, com a graça de Deus, de aceitar a cruz, o sofrimento que vem”, assegura o Bispo de Roma.
Nessa linha, o Papa Leão aborda a questão da eutanásia, que é discutida em muitos países e que em outros, como o Canadá, já é legal. “A questão do fim da vida, pessoas que não têm mais sentido de vida e estão lá com a cruz de uma doença e dizem: ‘não quero mais carregar isso, prefiro tirar a minha vida’. Se somos tão negativos em relação à nossa vida, e às vezes com menos sofrimento do que o que muitas pessoas carregam, como podemos dizer a elas: ‘não, você não pode tirar a sua vida, tem que aceitar’”, diz o Pontífice aos sacerdotes.
Nós, acrescenta ele, “devemos ser os primeiros testemunhos de que a vida tem um valor imenso”. É importante, portanto, ter gratidão, humildade e demonstrar proximidade. “Certamente todos nós conhecemos algum idoso, algum doente, sacerdote, leigo, religiosa… que vive momentos de grande dificuldade. Ligamos para eles, vamos visitá-los. Façamos um esforço também nós para ajudar essas pessoas que sofrem”. Significa também restaurar o bom hábito de levar a comunhão e o óleo dos enfermos aos doentes da paróquia. “Hoje, com menos sacerdotes e mais idosos, tornou-se: ‘bem, mandemos os leigos, eles fazem isso’. É um belo serviço que os leigos prestam… Mas isso não significa que o sacerdote pode ficar em casa a ver a internet, enquanto os outros estão visitando”.
Por fim, o Papa dirige também uma palavra aos próprios padres idosos: “mesmo que estejam doentes na cama, se viveram uma vida verdadeiramente de serviço e sacrifício, sabem muito bem que a sua oração também pode ser um grande serviço, um grande dom. A vida deles ainda tem um grande sentido”.
Fonte: Vatican News





