
Em diferentes discursos nestes primeiros meses de seu pontificado, o Papa Leão XIV tem reafirmado o compromisso da Igreja com a ecologia integral e exortado ao cuidado da casa comum, temáticas que ganharam ressalte após a publicação, em 2015, da encíclica Laudato si’ (LS) pelo Papa Francisco.
Leão XIV não apenas tem reiterado os alertas sobre os impactos danosos da ação humana sobre o meio ambiente, mas também lembrado da responsabilidade que Deus confiou ao ser humano de “cuidar de todas as outras criaturas, respeitando o desígnio do Criador”, como afirmou, em 5 de setembro, ao inaugurar, em Castel Gandolfo, o Borgo Laudato si’, idealizado por seu antecessor.
CONVERSÃO ECOLÓGICA
Leão XIV tem sublinhado que o efetivo cuidado com a criação passa pela conversão ecológica. Em visita anterior ao Borgo Laudato si’, em 9 de julho, pediu aos participantes da missa pelo Cuidado da Criação que rezassem “pela conversão de tantas pessoas, dentro e fora da Igreja, que ainda não reconhecem a urgência de cuidar da nossa casa comum. Inúmeros desastres naturais que ainda vemos no mundo quase todos os dias em muitos lugares e em muitos países, são, em parte, causados pelos excessos do ser humano, com o seu estilo de vida. Por isso, devemos perguntar-nos se nós mesmos estamos a vivendo ou não essa conversão: quanto ela é necessária!”.
Em outubro, na conferência internacional ‘Raising Hope for Climate Justice’, em Roma, o Pontífice pediu que cada pessoa ouça o próprio coração, “onde se encontra a identidade última e onde se formam as decisões. Somente por meio de um regresso ao coração pode ocorrer também uma verdadeira conversão ecológica. É preciso passar da coleta de dados para a atenção aos cuidados; dos discursos ambientalistas para uma conversão ecológica que transforme o estilo de vida pessoal e comunitário. Para quem crê, trata-se de uma conversão não diferente daquela que nos orienta para o Deus vivo, pois não se pode amar o Deus que não se vê, desprezando as suas criaturas, e não se pode dizer que somos discípulos de Jesus Cristo sem participar no seu olhar sobre a criação e no seu cuidado pelo que é frágil e ferido”.
JUSTIÇA AMBIENTAL
Na mensagem para o 10° Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado em 1º de setembro, Leão XIV apontou que “junto à oração, são necessárias vontades e ações concretas que tornem perceptível esta ‘carícia de Deus’ sobre o mundo (LS 84)… Por todo o lado, a injustiça, a violação do direito internacional e dos direitos dos povos, a desigualdade e a ganância provocam o desflorestamento, a poluição, a perda de biodiversidade”.
No mesmo texto, o Papa ressaltou que a justiça ambiental “representa uma necessidade urgente que ultrapassa a mera proteção do ambiente. Trata-se verdadeiramente de uma questão de justiça social, econômica e antropológica. Para os que creem em Deus, além disso, é uma exigência teológica, que para os cristãos tem o rosto de Jesus Cristo, em quem tudo foi criado e redimido”.

IMPACTOS SENTIDOS PELOS MAIS FRÁGEIS
Na referida mensagem, o Papa lamentou que a natureza tenha se tornado “um instrumento de troca, uma mercadoria a negociar para obter ganhos econômicos ou políticos. Nestas dinâmicas, a criação transforma-se em um campo de batalha pelo controle dos recursos vitais, como testemunham as zonas agrícolas e as florestas que se tornaram perigosas por causa das minas, a política da ‘terra queimada’, os conflitos que eclodem em torno das fontes de água, a distribuição desigual das matérias-primas, penalizando as populações mais fracas e minando a própria estabilidade social”.
Essa preocupação também aparece na exortação apostólica, Dilexi te (DT), publicada em outubro, na qual o Papa cita trechos da Laudato si’: “‘Não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas’. [LS 43] Com efeito, ‘a deterioração do meio ambiente e a da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta’. [LS 48]” (DT 96).
AOS LÍDERES MUNDIAIS: TRANSFORMAR PALAVRAS EM AÇÕES
Leão XIV também tem cobrado atitudes dos líderes mundiais, como fez no discurso aos participantes da COP30, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas, em Belém (PA), em novembro.
No texto lido pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, o Santo Padre apontou que a paz está sendo “ameaçada pela falta do devido respeito pela criação, pelo saque dos recursos naturais e pelo agravamento progressivo da qualidade de vida causado pelas alterações climáticas”. Ele enfatizou que tal situação requer uma “cooperação internacional e um multilateralismo coeso e capaz de olhar em frente, que coloque no centro a sacralidade da vida, a dignidade dada por Deus a cada ser humano e o bem comum”.
“É essencial transformar as palavras e as reflexões em escolhas e ações baseadas na responsabilidade, na justiça e na equidade, a fim de alcançar uma paz duradoura, cuidando da criação e do próximo”, enfatizou.
NOVA ARQUITETURA FINANCEIRA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL
No discurso à COP30, Leão XIV também exortou a uma conversão ecológica que “possa inspirar o desenvolvimento de uma nova arquitetura financeira internacional centrada no ser humano, que garanta que todos os países, especialmente os mais pobres e os mais vulneráveis às catástrofes climáticas, consigam atingir o seu pleno potencial e ver a dignidade dos seus cidadãos respeitada”.
Tratou, ainda, sobre a necessidade de uma educação em ecologia integral “que explique a razão pela qual as decisões em nível pessoal, familiar, comunitário e político moldam o nosso futuro comum, sensibilizando ao mesmo tempo para a crise climática e encorajando mentalidades e estilos de vida que melhor respeitem a criação e salvaguardem a dignidade da pessoa e a inviolabilidade da vida humana”.
Durante o evento, as conferências e conselhos episcopais da África, Ásia, América Latina e Caribe publicaram o documento “Um chamado por justiça climática e a casa comum: conversão ecológica, transformação e resistência às falsas soluções”, cujos tópicos principais apresentamos nas páginas seguintes. Também nesta edição do Caderno Laudato si’ – Por uma Ecologia Integral, destacamos filmes, jogos e passeios que estimulam a revisão de hábitos para uma vivência mais harmônica do ser humano com o meio ambiente.





