Reunidos no Vaticano, cardeais de todo o mundo participaram de um encontro centrado no discernimento e na corresponsabilidade eclesial

Fotos: Vatican Media
“Estou aqui para escutar”. Com essa afirmação, o Papa Leão XIV abriu, no Vaticano, o primeiro Consistório extraordinário de seu pontificado. O encontro, realizado nos dias 7 e 8, reuniu cerca de 170 cardeais, entre eleitores e não eleitores, para dois dias de oração, reflexão e partilha, concebidos como um espaço de escuta recíproca e de aconselhamento ao Sucessor de Pedro no governo da Igreja universal.
A abertura dos trabalhos ocorreu na tarde do dia 7, na Sala do Sínodo. Desde o início, o Pontífice esclareceu que o Consistório não tinha como objetivo elaborar um texto conclusivo, “mas conduzir uma conversa que me ajude no meu serviço à missão de toda a Igreja”. Segundo Leão XIV, encontros desse tipo representam uma oportunidade concreta de aprofundar o apreço comum pela sinodalidade, entendida como caminho de comunhão e corresponsabilidade.

METODOLOGIA
A metodologia adotada foi inspirada na experiência das Assembleias do Sínodo dos Bispos de 2023 e 2024, com ênfase na escuta e no discernimento. Divididos em grupos por idioma e sentados em mesas circulares, os cardeais realizaram intervenções breves. O Papa sintetizou o método como: “Escutar a mente, o coração e o espírito de cada um; escutar uns aos outros; expressar apenas o ponto principal”, indicando que a prioridade era a profundidade da reflexão, e não a quantidade de intervenções.
Quatro temas foram inicialmente propostos para orientar o diálogo: a missão evangelizadora da Igreja à luz da exortação apostólica Evangelii gaudium; o serviço da Cúria Romana às Igrejas particulares, conforme a constituição apostólica Praedicate Evangelium; o Sínodo e a sinodalidade; e a liturgia, fonte e ápice da vida cristã. Por decisão da assembleia, foram escolhidos para aprofundamento específico os temas da sinodalidade e da evangelização. Leão XIV ressaltou, contudo, que os demais eixos permanecem interligados e não estão excluídos do caminho de reflexão da Igreja.

NÃO PROMOVER AGENDAS
No dia 8, na homilia da missa celebrada no Altar da Cátedra da Basílica de São Pedro, o Papa refletiu sobre o significado do termo consistorium, associado à ideia de “parar”. “De fato, todos nós ‘paramos’ para estar aqui”,afirmou, explicando que esse gesto expressa a decisão de suspender atividades e compromissos para “nos reunirmos e discernirmos juntos aquilo que o Senhor nos pede para o bem do seu povo”.
O Pontífice advertiu que o Consistório não deveria ser orientado por interesses particulares. “Não estamos aqui, de fato, para promover ‘agendas’ — pessoais ou de grupo —, mas para submeter nossos projetos e inspirações ao discernimento que nos supera ‘assim como o céu está acima da terra’ e que só pode vir do Senhor”, afirmou.
Ao se referir ao Colégio Cardinalício, o Santo Padre afirmou que ele não é chamado, antes de tudo, a ser “uma equipe de especialistas”, mas “uma comunidade de fé”, na qual os dons pessoais, oferecidos ao Senhor, produzem fruto segundo a sua providência.

CENTRALIDADE DE CRISTO
No discurso conclusivo, Leão XIV retomou alguns pontos recorrentes das intervenções, reafirmando que a missão da Igreja encontra o seu centro em Jesus Cristo e que a evangelização exige uma vida espiritual coerente. Destacou a importância de continuar o caminho inaugurado pelo Concílio Vaticano II, definido como “um processo de vida, conversão e renovação de toda a Igreja”.
Um trecho significativo foi dedicado ao tema da escuta diante das feridas da Igreja, especialmente no que diz respeito aos abusos sexuais. O Papa afirmou que “com frequência, a dor das vítimas foi mais forte porque elas não foram acolhidas nem ouvidas” e recordou o testemunho de uma vítima que lhe disse que “o mais doloroso era precisamente a constatação de que nenhum bispo a queria ouvir”.
Para o Bispo de Roma, a formação para a escuta deve ser parte essencial da vida pastoral e da formação dos futuros sacerdotes.

CAMINHO CONTÍNUO
Ao concluir o Consistório, o Papa agradeceu a presença e a participação dos cardeais, com menção especial aos mais idosos, e manifestou proximidade àqueles que não puderam estar em Roma. Convidou os participantes a enviarem por escrito avaliações e contribuições, afirmando que pretende lê-las com atenção para dar continuidade ao diálogo iniciado.
O Pontífice anunciou ainda a realização de um novo Consistório extraordinário em junho, próximo à solenidade de São Pedro e São Paulo, indicando o desejo de manter encontros regulares com os cardeais.
Com este primeiro Consistório, Leão XIV indicou um modo de exercer o ministério petrino marcado pela comunhão e pela escuta alargada do Colégio Cardinalício. Ao convocar cardeais de todo o mundo, eleitores e não eleitores, para um processo de diálogo aberto e sem conclusões pré-definidas, o Papa evidenciou a importância de ouvir a totalidade do Colégio, valorizando a diversidade de experiências e sensibilidades na reflexão sobre o caminho da Igreja.
Dom Odilo: não é um parlamento,é um discernimento

O Cardeal Odilo Pedro Scherer destacou o caráter consultivo e espiritual do Consistório extraordinário convocado pelo Papa Leão XIV. Durante o programa “Encontro com o Pastor”, da rádio 9 de Julho, o Arcebispo de São Paulo recordou que os cardeais são chamados a exercer, de modo próprio, a função de conselheiros do Sucessor de Pedro.
Dom Odilo ressaltou que o método adotado favoreceu um verdadeiro processo de escuta e discernimento. “Não é uma discussão como se fosse no parlamento”, explicou, mas um caminho feito “no meio da oração”, com momentos de silêncio e atenção recíproca, no qual se procura perceber aquilo que mais ressoa entre os participantes e que pode ser reconhecido como indicação do Espírito Santo.
Para o Arcebispo, esse processo reforça a confiança de que “o Espírito Santo assiste a Igreja” e a conduz continuamente à conversão, à renovação e à fidelidade à missão evangelizadora.





