No retiro quaresmal do Papa Leão XIV e de líderes da Cúria Romana, o bispo norueguês Dom Erik Varden refletiu sobre ‘comunicar esperança’

“Só Cristo pode renovar a face da terra. Nele, depositamos nossa confiança, e não em estratagemas passageiros.” Bispo de Trondheim, na Noruega, e monge cisterciense da Estrita Observância (OCSO), Dom Erik Varden pregou os exercícios espirituais para o Papa Leão XIV e os líderes da Cúria Romana entre 22 e 27 de fevereiro, refletindo sobre o tema “Comunicar Esperança”, na Capela Paulina do Palácio Apostólico, no Vaticano.
Essa esperança, em suas palavras, só pode vir do encontro com Cristo – “luz das nações”. Em suas meditações, Dom Erik apresentou à Igreja uma visão equilibrada da fé que, ao mesmo tempo, busca “iluminar o mundo” por meio da intimidade com o Senhor, na profundidade e no louvor, mas sem deixar de tocar as realidades do mundo que Ele “tanto amou”, onde escolheu viver e que escolheu salvar.
Em um total de 11 pregações, publicadas em síntese no seu site pessoal, Dom Erik convidou o Papa e seus conselheiros mais próximos – os chefes dos dicastérios da Cúria Romana – a entrar na Quaresma com “coragem” para seguir o modelo de Cristo, diante da difícil realidade do mundo, mas enraizados na fonte da vida que é Deus.
ELE AGE POR MEIO DE NÓS
“Para considerar corretamente as necessidades terrenas, devemos procurar, por meio delas, aquilo que está acima [de nós]”, afirmou o Bispo. Em suas palavras, “Cristo pode agir por meio de nós se aceitamos ser pacientes”.
Voltando aos ensinamentos do Concílio Vaticano II, disse ele, comentando palavras de São João XXIII, vemos que o Concílio “não só enfrentou problemas, mas apresentou a sua solução, anunciando que Cristo, crucificado e ressuscitado, encarna o futuro da humanidade”.
O Concílio, continuou o Monge Cisterciense, “confiou à Igreja o papel de anunciar Cristo de tal modo que Ele apareça claramente, e de modo convincente, como a resposta às perguntas mais urgentes do tempo presente, sem comprometer minimamente o sagrado depósito da doutrina.”
Enquanto “contemplar” é observar e refletir sobre as verdades já conhecidas pela fé, “considerar” é buscar as verdades na realidade humana, no próprio mundo, ainda que este seja bastante imperfeito. “O chamado universal à santidade, ou seja, o chamado a encarnar a verdade, foi talvez o ponto mais marcante do Concílio Vaticano II”, afirmou Dom Erik Varden.
O QUE É DEUS?

Dom Erik usou, como companheiro de viagem em suas meditações, São Bernardo de Claraval, abade francês canonizado em 1174 e proclamado Doutor da Igreja, além de o principal responsável por reformar a Ordem de Cister. “Bernardo se pergunta: o que é Deus?”, disse, respondendo livremente: “Vontade onipotente, virtude benevolente, razão imutável. Deus é a ‘suprema bem-aventurança’ que, por amor, deseja compartilhar conosco sua divindade. Ele nos criou para desejá-Lo, nos expande para recebê-Lo, nos justifica para merecê-Lo. Ele nos guia na justiça, nos molda na benevolência, nos ilumina com o conhecimento, nos preserva para a imortalidade.”
Toda e qualquer realidade humana, disse o pregador, deve ser iluminada por essa verdade. São Bernardo era um realista, “não apenas no sentido de aceitar as coisas como elas são, mas também porque aprendeu que a realidade mais profunda de todas as vicissitudes humanas é um grito que implora misericórdia”.
Quanto mais reconhecia o sofrimento e o grito de ajuda presente no mundo, mais “Bernardo era consciente da resposta gloriosa e misericordiosa de Deus”. Cristo é “óleo perfumado, curativo e purificante” para um mundo com feridas abertas. “O conhecimento da realidade absoluta do amor de Cristo e do seu poder de mudar tudo fez de Bernardo um doutor e um santo”, comentou.
AMADURECIMENTO CONTEMPLATIVO
As quedas no percurso da fé, as dificuldades de aceitar a Cruz e a Revelação, em um mundo no qual muitas vezes a fé não é bem-vista, são uma limitação humana frequente, conforme mencionou o pregador norueguês. “As quedas podem nos tornar humildes quando estamos cheios de orgulho. Elas podem mostrar o poder salvador de Deus. Podem se tornar marcos importantes em uma jornada pessoal de salvação, a serem lembrados com gratidão”, disse.
Entretanto, é preciso evitá-las, quando se trata da vida e do serviço na Igreja. “A crise mais terrível da Igreja não foi provocada pela oposição do mundo, mas pela corrupção eclesiástica. As feridas infligidas levarão tempo para cicatrizar. Elas exigem justiça e lágrimas”, afirmou Dom Erik, fazendo um convite a cada agente: o de buscar um justo equilíbrio entre a realidade corporal e a espiritual, vivendo-as em unidade e harmonia.
São Bernardo “considera os homens e as mulheres responsáveis pelo uso que fazem da sua liberdade soberana”, explicou. “O seu argumento é que a natureza humana é única. Se começarmos a aprofundar a nossa natureza espiritual, outras profundezas também serão reveladas. Teremos de enfrentar a fome existencial, a vulnerabilidade, o desejo de conforto.” Nesse sentido, “o progresso na vida espiritual requer uma configuração do nosso eu físico e afetivo em sintonia com o amadurecimento contemplativo”.
VIVER O ESSENCIAL NA QUARESMA

Comentando o conceito de “liberdade”, ele notou: “O que nos parece natural é fazer as coisas à nossa maneira, satisfazer nossos desejos e realizar nossos planos sem interferências, exibir e nos gabar de nossas ideias”, mas essa não é, porém, a liberdade cristã, segundo Dom Erik.
Na visão de São Bernardo, acrescentou ele, “a liberdade cristã não consiste em conquistar o mundo pela força, mas em amá-lo com um amor crucificado, tão magnânimo que nos faz desejar dar a nossa vida por ele, para que seja libertado em Cristo”. Da mesma forma, “a paz cristã não é uma promessa de vida fácil; é a condição para uma sociedade transformada”.
Assim, o tempo da Quaresma, declarou Dom Erik durante o retiro do Papa, nos leva “a um espaço material e simbólico livre do supérfluo. As coisas que nos distraem, mesmo as boas, são temporariamente deixadas de lado” para dar espaço a um encontro mais profundo com o Sagrado. A Igreja,faz, portanto, um convite: o de ser “colocados diante do essencial.”, afirmou.
“A vida espiritual não é um acréscimo ao resto da existência. É a sua alma.”, alertou o pregador.





