O próximo Consistório já está marcado: em junho, às vésperas da solenidade dos Santos Pedro e Paulo, também com duração de dois dias. Foi o próprio Papa Leão XIV quem anunciou essa segunda reunião, no discurso conclusivo da terceira e última sessão na tarde da quinta-feira, 8, com a presença de 170 cardeais, eleitores e não eleitores.

O Papa — explicando que a reunião destes dois dias se coloca “em continuidade” com o que foi pedido às congregações gerais antes do Conclave — manifestou a vontade de continuar os consistórios com periodicidade anual e duração de três a quatro dias.
O Santo Padre já havia antecipado, no seu primeiro discurso, que este consistório é uma “prefiguração do nosso caminho futuro”. Ele também confirmou a Assembleia Eclesial de outubro de 2028, anunciada em março passado.
GRATIDÃO E PROXIMIDADE
Além dos anúncios, Leão XIV quis agradecer aos presentes pela participação e pelo apoio. Um agradecimento especial aos cardeais mais idosos pelo esforço de comparecer: “O testemunho de vocês é precioso”, e uma manifestação de proximidade aos purpurados ao redor do mundo que não puderam estar em Roma nestes dias: “Estamos com vocês e somos próximos de vocês”.
Uma “sinodalidade não técnica”, aquela que o Papa diz ter experimentado por estes dias: uma profunda sintonia e comunhão, com uma metodologia escolhida para favorecer um melhor conhecimento mútuo, diante da diversidade de formações e experiências de cada um. Daí, a referência ao Concílio Vaticano II, base do caminho e da renovação da Igreja, e o esclarecimento de que os outros dois temas propostos e não votados ontem pela assembleia — a liturgia e a Praedicate evangelium — estão fortemente conectados ao Concílio e não devem ser esquecidos.
Por fim, não faltou, da parte do Pontífice e de todos os membros do Colégio Cardinalício, um olhar para a situação geral do mundo, que torna “ainda mais urgente” uma resposta por parte da Igreja que se faz próxima das Igrejas locais que sofrem com guerras e violências.
O OLHAR VOLTADO PARA A VENEZUELA
Embora os temas do Consistório fossem outros — sinodalidade e missão à luz da Evangelii gaudium, votados na quarta-feira, 7, pela maioria dos cardeais —, não faltou um pensamento, em especial por parte dos cardeais latino-americanos, sobre a situação da Venezuela.
Porta-voz dessa preocupação foi o Cardeal Luis José Rueda Aparicio, Arcebispo de Bogotá, na Colômbia, na mesa dos relatores durante uma coletiva de imprensa noturna com os Cardeais Stephen Brislin, Arcebispo de Joanesburgo, na África do Sul, e Pablo David, Bispo de Kalookan, nas Filipinas.
O Arcebispo colombiano recordou as palavras do Papa no Angelus de 4 de janeiro, no dia seguinte ao ataque dos Estados Unidos, nas quais Leão XIV “expressou sua profunda preocupação com o que está acontecendo na Venezuela e se comprometeu a incentivar o diálogo e a busca do consenso, invocando a paz, para construir uma paz que seja ao mesmo tempo desarmada e desarmante, que busque unir os povos no respeito aos direitos humanos e à soberania”.
“Aquela mensagem de domingo deu o tom às minhas reflexões destes dias”, afirmou o Cardeal Rueda. Não era o tema oficial do consistório, mas era “inevitável” que os membros do Colégio Cardinalício “estejam preocupados com o que está acontecendo”, estejam “se fazendo perguntas” sobre a direção que está sendo tomada, sobre como a geopolítica da América Latina está mudando e como a Igreja pode acompanhar a população. A Venezuela é um tema que “trazemos no coração, nos entristece a todos e desejamos os melhores desdobramentos possíveis no futuro próximo”, prosseguiu.

COMPANHEIROS DE CAMINHO
Os três cardeais relatores apresentaram então os temas e o clima geral que emergiram durante os trabalhos iniciados pela manhã e continuados à tarde, marcados também por momentos de canto e oração, com uma pausa para o almoço no átrio da Aula Paulo VI (com a presença do Papa, que presenteou cada um com a medalha do seu pontificado).
A sinodalidade, a necessidade de vivê-la como “companheiros de caminho”, de que ela se reflita no exercício da autoridade, na formação e no trabalho dos núncios, de que seja vivida na Cúria com “uma maior internacionalização”, e depois a releitura da exortação do Papa Francisco Evangelii gaudium, texto que não “caducou” com o pontificado anterior, mas que ainda interpela dioceses, a Cúria Romana e o próprio Papa, foram o objeto das reflexões dos grupos linguísticos. Foram vinte grupos: onze incluindo cardeais não eleitores, nove com cardeais eleitores, ordinários de dioceses e núncios ainda em serviço, explicou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni.
Por sua vez, Brislin definiu a experiência como “muito enriquecedora”, graças às diferentes perspectivas que permitiram aprofundar as necessidades do mundo. Foi, portanto, uma oportunidade para conhecer e se conhecer.
“O fato de haver um novo encontro em junho é um sinal de que o Santo Padre levou muito a sério o fato de que podemos ajudá-lo em seu papel de Sucessor de Pedro”, disse. “Oito meses após o Conclave, o Papa quis nos convocar para nos ouvir”, disse o Cardeal Rueda. Isso “nos fortalece na missão da Igreja”.
O Cardeal David elogiou o formato usado para os trabalhos, graças à qual “todos puderam falar”, e apreciou o fato de que o Papa “ouviu mais do que falou”: “Ele fazia anotações, estava muito atento, e as contribuições que deu foram muito enriquecedoras para todos nós”.

A IMPORTÂNCIA DE SE CONHECER
Um jornalista perguntou quais seriam os verdadeiros elementos de novidade surgidos neste Consistório, já que muitos dos temas elencados já haviam sido amplamente aprofundados durante a dupla sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade.
Em resposta, o Cardeal Brislin explicou que a novidade não deve ser buscada “apenas nas discussões”, mas na própria “oportunidade de nos conhecermos e de nos ouvirmos”. “Isso é importante porque viemos de diferentes partes do mundo; alguns são novos cardeais, outros já o são há muito tempo”.
O Papa, acrescentou o Arcebispo de Joanesburgo, “quer ser colegial, quer ouvir, quer recorrer à experiência e ao conhecimento dos cardeais que vêm das diversas partes do mundo, porque isso pode ajudá-lo a guiar a Igreja”. Os perfis são “diversos”, mas trabalhou-se “em uma harmonia que não é uniformidade”, concluiu o Cardeal Rueda.
LEIGOS E AS MULHERES
Ainda sobre os temas, os jornalistas também perguntaram se a questão da participação dos leigos e o papel das mulheres na Igreja de alguma forma entraram nas discussões. A esse respeito, o Cardeal David disse: “Como não reconhecer o papel das mulheres e seus ministérios na Igreja?”. “Certamente” a questão feminina é “uma preocupação constante”, afirmou o purpurado filipino, recordando os resultados — publicados recentemente — da Comissão para o estudo do diaconato feminino.
O Cardeal David também mencionou o “clericalismo” e retomou a ideia do “sacerdócio” do povo, inspirada no Vaticano II. “Falamos do corpo da Igreja: temos a cabeça da Igreja, mas não apenas a cabeça, há também um corpo. As pessoas têm o poder de participar da vida e da missão da Igreja”.
Fonte: Vatican News




