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Leão XIV: o sangue dos mártires é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto

No encontro com os católicos argelinos, o Papa disse que essa comunidade é herdeira “de uma série de testemunhas que deram a vida, movidas pelo amor a Deus e ao próximo”. O Pontífice recordou os “dezenove religiosos e religiosas mártires da Argélia, que escolheram estar ao lado deste povo nas suas alegrias e nas suas dores”.

Leão XIV: o sangue dos mártires é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto - Jornal O São Paulo
Vatican Media

O Papa Leão XIV encontrou-se com a comunidade argelina, na tarde desta segunda-feira, 13, na Basílica de Nossa Senhora da África, em Argel.

Leão XIV ouviu os testemunhos de quatro representantes da comunidade. Depois, iniciou o seu terceiro discurso em terras argelinas, manifestando satisfação de se encontrar com essa comunidade, “uma presença discreta e preciosa, enraizada nesta terra, marcada por uma história antiga e por luminosos testemunhos de fé”.

“A vossa comunidade tem raízes muito profundas. Sois herdeiros de uma série de testemunhas que deram a vida, movidas pelo amor a Deus e ao próximo. Penso, em particular, nos dezenove religiosos e religiosas mártires da Argélia, que escolheram estar ao lado deste povo nas suas alegrias e nas suas dores. O sangue deles é uma semente viva que nunca deixa de dar fruto.”

“Vós sois também herdeiros de uma tradição ainda mais antiga, que remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Nesta terra, ressoou a voz fervorosa de Agostinho de Hipona, precedida pelo testemunho da sua mãe, Santa Mônica, e de outros santos. A sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais críveis de comunhão, diálogo e paz”, sublinhou.

A seguir, Leão XIV refletiu sobre três aspectos da vida cristã: a oração, a caridade e a unidade.

Em relação ao primeiro aspecto, a oração, disse que “todos nós somos necessitados da oração”.

Citou a propósito, o testemunho de Emmanuel Ali sobre sua experiência de serviço em Nossa Senhora da África. Ele disse que muita gente vai “ali para se recolher em silêncio, para apresentar e confiar as suas preocupações e as pessoas que amam, e para encontrar alguém disposto a ouvi-los e a partilhar os fardos que carregam no coração; e observou que muitos partem serenos e felizes por terem vindo”. “A oração une e humaniza, fortalece e purifica o coração, e a Igreja argelina, graças à oração, semeia humanidade, unidade, força e pureza à sua volta, alcançando lugares e contextos que só o Senhor conhece”, sublinhou o Papa.

Leão XIV se deteve no segundo aspecto da vida eclesial: a caridade. A este propósito, falou a Irmã Bernadette, “partilhando a sua experiência de ajuda às crianças com necessidades especiais e aos seus pais”. “Neste testemunho, percebemos o valor da misericórdia e do serviço, não só como apoio aos mais frágeis, mas sobretudo como um espaço de graça, no qual quem se deixa envolver cresce e se enriquece”, frisou o Pontífice.  A religiosa contou que “a partir de um simples e inicial gesto de proximidade – a visita aos doentes –, nasceram, como rebentos, primeiro um sistema de acolhimento e depois uma organização assistencial cada vez mais articulada, uma verdadeira comunidade na qual inúmeras pessoas participam tanto nos acontecimentos alegres como nos dolorosos, unidas por laços de confiança, amizade e familiaridade. Um ambiente assim é saudável e revigorante, e não surpreende que, nele, quem sofre encontre os recursos necessários para melhorar a sua saúde, levando ao mesmo tempo alegria aos outros, como no caso de Fátima”.

“Aliás, foi precisamente o amor pelos irmãos que animou o testemunho dos mártires que recordamos. Perante o ódio e a violência, permaneceram fiéis à caridade até ao sacrifício da vida, juntamente com tantos outros homens e mulheres, cristãos e muçulmanos. Fizeram-no sem pretensões e alarde, com a serenidade e firmeza de quem não presume nem se desespera, porque sabe em Quem depositou a sua confiança.”

O Papa recordou o exemplo do Irmão Luc, monge e médico da comunidade de Nossa Senhora do Atlas, que não abandonou “os seus doentes e amigos”, mas permaneceu com eles, diante de potenciais perigos.

A seguir, Leão XIV falou a propósito do terceiro ponto: o compromisso de promover a paz e a unidade. “O lema desta visita são as palavras de Jesus ressuscitado: ‘A paz seja convosco!'”, recordou o Papa. “A paz e a harmonia têm sido características fundamentais da comunidade cristã desde as suas origens, por desejo do próprio Jesus, que disse: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.». A este respeito, Santo Agostinho afirmava que a Igreja «dá à luz povos, mas estes são membros de um só» e São Cipriano escreve: «O maior sacrifício que se pode oferecer a Deus é a paz que reina entre nós, a nossa concórdia fraterna e o ser um povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo». É maravilhoso, hoje, sentir que tanta riqueza de palavras e de exemplos encontra eco naquilo que acabámos de ouvir”, disse ainda o Papa.

“Esta basílica é símbolo de uma Igreja de pedras vivas, na qual, sob o manto de Nossa Senhora da África, se constrói a comunhão entre cristãos e muçulmanos”, frisou Leão XIV. “Filhos desejosos de caminhar juntos, de viver, rezar, trabalhar e sonhar, porque a fé não isola, mas abre, une, mas não confunde, aproxima sem uniformizar e faz crescer uma verdadeira fraternidade, como nos disse Monia, e como testemunhou Rakel”, disse o Papa, acrescentando:

“Num mundo onde as divisões e as guerras semeiam dor e morte entre as nações, nas comunidades e até mesmo nas famílias, o vosso viver unidos e em paz é um grande sinal. Unidos, difundis a fraternidade, inspirando nos que vos rodeiam desejos e sentimentos de comunhão e reconciliação, com uma mensagem tanto mais forte e clara quanto testemunhada na simplicidade e na humildade.”

Leão XIV recordou que “uma parte considerável do território deste país está ocupada pelo deserto, e no deserto não se sobrevive sozinho. As adversidades da natureza relativizam qualquer presunção de autossuficiência e recordam a todos que precisamos uns dos outros e que precisamos de Deus. É o reconhecimento da fragilidade que abre o coração ao apoio mútuo e à invocação d’Aquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a verdadeira paz”.

O Papa concluiu, encorajando-os a prosseguir o seu trabalho em terras argelinas “como comunidade de fé coesa e aberta, presença da Igreja, ‘sacramento universal de salvação'”.

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