
É preciso revisitar com atenção os documentos do Concílio Vaticano II e interpretá-los à luz da realidade. Com isso em mente, o Papa Leão XIV iniciou neste ano um ciclo de breves catequeses, nas audiências gerais das quartas-feiras, no qual tem refletido sobre os ensinamentos do Concílio propondo chaves de leitura para a Igreja de hoje.
Entre 14 de janeiro e 11 de fevereiro, ele comentou aspectos da constituição dogmática Dei Verbum, assinada em 18 de novembro de 1965 por São Paulo VI, “unido aos padres do Sacro Concílio”. Esse documento fundamental reflete sobre a Revelação Divina, que se apresenta na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério da Igreja, três pilares essenciais para a vida da comunidade cristã e, portanto, para a compreensão da fé.

LER O CONCÍLIO COM OLHAR ATUAL
Nas palavras de Leão XIV, ainda é preciso reler com novo vigor os documentos do Concílio Vaticano II. Aquele Concílio tinha o objetivo de “atualizar” a vida e a linguagem da Igreja para a modernidade do pós-Segunda Guerra Mundial. O Concílio refletiu sobre a presença e manifestação do Espírito Santo nas realidades do mundo. Citando o Papa Bento XVI, disse Leão XIV na audiência de 7 de janeiro: “Com o passar dos anos, os documentos do Concílio não perderam sua atualidade; seus ensinamentos revelam-se particularmente pertinentes em relação às novas exigências da Igreja e da atual sociedade globalizada.”
É preciso pensar sobre eles não com base em “ouvir dizer” ou pelas interpretações que lhes foram dadas, mas “relendo os documentos e refletindo sobre o seu conteúdo”. O Concílio “olhou para a Igreja à luz de Cristo, luz das nações, como mistério de comunhão e sacramento de unidade entre Deus e seu povo; deu início a uma importante reforma litúrgica, colocando no centro o mistério da salvação e a participação ativa e consciente de todo o Povo de Deus.”
Somos chamados a continuar lendo os “sinais dos tempos”, como “alegres anunciadores do Evangelho, corajosos no testemunho de justiça e de paz”.

DEUS NOS FALA COMO A AMIGOS
A Dei Verbum fala de uma verdadeira relação, aquela entre Deus e o ser humano, descrita nas escrituras como Criador e criatura. Mas, conforme narra o Evangelho segundo São João (cf. Jo 15,15), Jesus afirma: “Não vos chamo mais de servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas vos chamo de amigos, porque tudo o que ouvi do meu Pai, eu vos revelei.”
Esse ponto é essencial para a fé cristã, como disse o Papa Leão XIV na audiência de 14 de janeiro. “Jesus Cristo transforma radicalmente a relação do homem com Deus, que, a partir de então, será uma relação de amizade. Portanto, a única condição da nova aliança é o amor”, explica. A amizade, embora não seja entre duas partes iguais, diz o Papa, só é possível porque o próprio Deus se faz pequeno, “por meio do seu Filho”.
“Deus é Deus e nós somos criaturas; mas, com a vinda do Filho na carne humana, a Aliança alcança seu fim último: em Jesus, Deus nos torna filhos e nos chama a nos tornarmos semelhantes a Ele em nossa frágil humanidade”, afirma. Nessa “nova e eterna Aliança”, Cristo assume o papel de “amigo” e dialoga com o seu povo: “Assim, ao falar conosco, Deus se revela como um Aliado que nos convida à amizade com Ele.”
Por isso, é preciso, primeiro, escutar a Palavra atentamente. E, segundo, “falar com Deus”, por meio da oração. “Isso se realiza, em primeiro lugar, na oração litúrgica e comunitária, na qual não somos nós que decidimos o que ouvir da Palavra de Deus, mas é Ele mesmo quem nos fala por meio da Igreja; além disso, se realiza na oração pessoal, que ocorre no íntimo do coração e da mente.”

JESUS CRISTO REVELADOR DO PAI
Conhecer a Deus é estabelecer com Ele uma relação. Deus “não se limita a transmitir ideias, mas compartilha uma história e convida à comunhão na reciprocidade”, comentou o Pontífice na audiência de 21 de janeiro. Por isso, é a essência da Revelação divina: é em Cristo que Deus se faz presente, e por meio Dele “nós nos descobrimos conhecidos” por Deus.
“O Senhor que se encarna, nasce, cura, ensina, sofre, morre, ressuscita e permanece entre nós”, diz o Papa. A Dei Verbum ensina que Cristo é “ao mesmo tempo, o mediador e a plenitude de toda a Revelação”.
Leão XIV explica que Cristo é o “lugar” em que o Pai se revela, mas é também por meio de Cristo que “nós descobrimos ser conhecidos por Ele como filhos, chamados ao mesmo destino de vida plena”. Citando o número 4 da Dei Verbum, o Bispo de Roma afirma: “Para conhecer Deus em Cristo, devemos acolher sua humanidade integral.”

A RELAÇÃO ENTRE ESCRITURA E TRADIÇÃO
Antes de que se torne texto, a Palavra de Deus “é escrita no coração da Igreja”, diz o Catecismo da Igreja Católica (n.113). Em 28 de janeiro, Leão XIV partiu desse ponto para refletir sobre essas duas dimensões que “estão tão intimamente ligadas e unidas entre si que não podem subsistir de forma independente; e, juntas, cada uma à sua maneira, sob a ação de um único Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas”.
O Cristianismo é uma “realidade dinâmica”, viva, “graças a uma força e vitalidade interior”, diz o Pontífice. “O Concílio afirma que a Tradição de origem apostólica progride na Igreja com a assistência do Espírito Santo”, acrescenta, citando o número 8 do documento.
Por isso, a Palavra de Deus continua a se encarnar. “O ‘depósito’ da Palavra de Deus continua hoje nas mãos da Igreja, e todos nós, nos diversos ministérios eclesiais, devemos continuar a guardá-lo em sua integridade, como uma estrela-guia para nossa caminhada na complexidade da história e da existência”, observa o Papa.

A PALAVRA DE DEUS NA VIDA DA IGREJA
Ainda que tenham proveniência divina, os textos bíblicos são escritos “em linguagem humana”, notou o Papa na catequese de 4 de fevereiro. No dia 11 do mesmo mês, ele aprofundou, em seus discursos, o vivo significado e o papel da Palavra de Deus. É também em sua forma que a Escritura “revela a misericordiosa condescendência de Deus para com os homens e o seu desejo de se aproximar deles”. A Escritura é, assim, “Palavra de Deus em palavras humanas”.
A sua interpretação, portanto, depende do contexto histórico em que foi escrita e da realidade humana que se vivia quando o texto foi elaborado. Daí a importância dos estudos bíblicos, da exegese, que buscam compreender a Palavra em seu sentido mais profundo, e não apenas uma leitura literal ou fragmentada.
“Em todas as épocas, a Igreja é chamada a anunciar a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de tocar os corações”, diz Leão XIV, insistindo que a Escritura serve para “alimentar a vida e a caridade” dos que creem em Deus.
A Igreja é o “lugar” da Sagrada Escritura, pois a Bíblia “nasceu do povo de Deus e ao povo de Deus é destinada”, afirma o Santo Padre. “Na comunidade eclesial, a Escritura encontra, portanto, o ambiente para desempenhar sua missão específica e alcançar seu objetivo: dar a conhecer Cristo e abrir o caminho para o diálogo com Deus.”




