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Papa Leão XIV carrega a cruz – de Cristo e do mundo – na Via Sacra do Coliseu

30 mil pessoas participaram da Via Crucis

Papa Leão XIV carrega a cruz – de Cristo e do mundo – na Via Sacra do Coliseu - Jornal O São Paulo
Captura de Tela Vatican News

Simbolizando as diferentes cruzes que grande parte da humanidade carrega ainda hoje, e associando-a à Cruz da Paixão e Morte de Cristo, o Papa Leão XIV presidiu a celebração da Via Sacra no Coliseu e no Fórum Romano pela primeira vez. Sua presença marcou o retorno do Pontífice a essa tradicional devoção popular em Roma – de 2023 a 2025 o Papa Francisco não compareceu ao evento por motivos de saúde.

E foi um retorno marcante: o Santo Padre escolheu carregar ele mesmo a cruz durante todo o percurso desta Sexta-Feira da Paixão, 3. A seu pedido, o sacerdote franciscano Frei Francesco Patton, OFM, que foi Custódio da Terra Santa de 2016 a 2025, redigiu o texto das meditações lidas na Via Sacra, sobre o sofrido caminho de Jesus até a Gólgota.

Essas escolhas não foram por acaso. Ele explicou a decisão de levar a cruz em encontro rápido com os jornalistas em Castel Gandolfo na terça-feira, 31. Embora outros Papas como São João Paulo II e São Paulo VI já tenham feito esse gesto no passado, quando gozavam de boa saúde, o Papa Leão a levará por todo o caminho da Via Crucis.

Ele afirmou que se trata de “um sinal importante, pois, pelo que o Papa representa — um líder espiritual no mundo de hoje —, isso significa dizer: Cristo ainda sofre”, disse. “E eu também levo todo esse sofrimento em minhas orações.” Na ocasião, ele convidou todas as pessoas de boa vontade a caminharem juntos, “a caminharem com Cristo, que sofreu por nós para nos dar a salvação, a vida, e a procurarem como também nós podemos ser portadores de paz e não de ódio”.

Também a escolha do redator das meditações sobre 14 estações da Via Crucis foi significativa. Dedicada ao Frei Patton, muitas vezes porta-voz dos cristãos do Oriente Médio, o texto refletiu sobre as dores do mundo no momento atual. Na fala aos jornalistas, o Papa Leão convidou “sobretudo a todos os cristãos a viver estes dias reconhecendo que Cristo ainda hoje está crucificado” e a rezar “pelas vítimas da guerra” para que “haja realmente uma paz nova, renovada, capaz de dar nova vida a todos”

Espiritualidade encarnada

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“A Via Crucis não é o caminho daqueles que vivem em um mundo de devoção asséptica e de recolhimento abstrato, mas é o exercício daqueles que sabem que a fé, a esperança e a caridade devem ser encarnadas no mundo real, onde a pessoa que crê é continuamente desafiada e continuamente deve fazer seu o modo de agir de Jesus”, diz a introdução do texto do Frei Patton.

Em suas reflexões, o frade se inspirou em São Francisco de Assis, cujo aniversário de 800 anos de morte é recordado em 2026. O Santo, diz o autor, nos exorta a fixar o olhar em

Jesus: “Olhemos com atenção, irmãos todos, para o bom pastor, que, para salvar suas ovelhas, suportou a paixão da cruz.”

Entre os temas atuais lembrados na Via Sacra estiveram aqueles que pensam ter “autoridade ilimitada e acham que podem usá-la e abusar dela como bem entender”. É preciso que cada um pense sobre “o poder que tem sobre os outros” também no dia a dia.

Em oração, rezou-se a Cristo na Cruz: “Ajuda-nos também a escolher permanecer humildes, aos pés dos outros, em vez de tentar nos elevar-nos acima deles e dominá-los. Ajuda-nos a aprender o caminho da humildade também através da experiência de nossas quedas e humilhações, e a saber suportar com serenidade as ofensas e injustiças que sofremos.”

Na décima estação, que recorda o momento em que Jesus é despido de suas vestes, o texto faz um forte apelo às tentativas de “humilhar e privar da dignidade humana” também outras pessoas e situações dos nossos tempos: nos prisioneiros de regimes autoritários, seminus em celas e corredores; no mundo do espetáculo, que expõe excessivamente o corpo e a intimidade humana; nas vítimas de abuso; e na exposição e humilhação pública.

“Lembra-nos, Senhor, que cada vez que não reconhecemos a dignidade do próximo, a nossa própria dignidade fica manchada, e cada vez que aprovamos ou praticamos um comportamento desumano para com qualquer ser humano, somos nós mesmos que nos tornamos menos humanos”, afirma o texto.

Mulheres que sofrem e se doam

Papa Leão XIV carrega a cruz – de Cristo e do mundo – na Via Sacra do Coliseu - Jornal O São Paulo

Fazendo menção a Maria, que perde seu filho na Cruz, a cerimônia recordou as mães que perderam seus filhos; os órfãos, especialmente vítimas das guerras; os migrantes, os desalojados e os refugiados; aqueles que sofrem tortura e penas injustas; os desesperados que perderam o sentido da vida; aqueles que morrem sozinhos. Em outros momentos foram lembradas as pessoas que sofrem preconceitos, as mulheres vítimas do tráfico de pessoas, as crianças que “tiveram sua infância roubada”, os presos políticos e os mortos cujos corpos jamais foram encontrados.

O texto faz menção, também, a todos os que buscam o bem e se colocam a serviço dos outros – os “Cireneus” e as “Verônicas” de hoje. Na imagem do Cristo que caía e se levantava, fez-se um pedido para que, com Ele, também nós possamos nos reerguer de cada fracasso. A sétima estação, que rememora o encontro de Cristo com as mulheres em Jerusalém, tocou em especial nas dores das mulheres de hoje. “Onde há sofrimento ou necessidade, as mulheres estão presentes”, diz a meditação.

“Em hospitais e asilos, em comunidades terapêuticas e de acolhimento, em lares familiares com as crianças mais vulneráveis, nos postos avançados mais remotos da missão para abrir escolas e postos de saúde, em zonas de guerra e de conflito para socorrer os feridos e consolar os sobreviventes.”

Oração conclusiva da Via Sacra do Coliseu

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Mesmo nesse dia, é preciso recordar sempre que Cristo está vivo – diz o texto. Temos a certeza  “que Aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos dará vida também aos nossos corpos mortais por meio do seu Espírito que habita em nós (cf. Rm 8,11). Damos-Te graças, Senhor, porque deste fundamento seguro à nossa esperança de vida eterna”, continua.

O Papa Leão XIV concluiu a Via Sacra com uma oração atribuída a São Francisco de Assis: “Deus todo-poderoso, eterno, justo e misericordioso, concede a nós, miseráveis, que façamos, por amor a ti, aquilo que sabemos que Tu desejas, e que sempre desejamos o que Te agrada, para que, purificados interiormente, iluminados interiormente e inflamados pelo fogo do Espírito Santo, possamos seguir os passos do teu Filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e, pela tua graça somente, chegar até ti, ó Altíssimo, que na Trindade perfeita e na Unidade simples vives, reinas e és glorificado, Deus onipotente por todos os séculos dos séculos. Amém.”

Como é tradição, a celebração litúrgica da Paixão de Cristo na Basílica de São Pedro foi presidida pelo Pontífice no fim da tarde. A homilia foi proferida pelo Pregador da Casa Pontifícia, atualmente outro franciscano, o Pe. Padre Roberto Pasolini, OFM Cap.

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