Em sua língua materna, o inglês, Leão XIV, ao final da oração mariana do Angelus do domingo, 31, lançou um forte apelo para pôr fim ao flagelo galopante do uso indiscriminado de armas.
O apelo parte da tragédia ocorrida no país de origem do Pontífice quando, em 27 de agosto, no estado norte-americano de Minnesota, um jovem abriu fogo durante a missa, antes do início das aulas, matando duas crianças de 8 e 10 anos e ferindo outras 15, antes de tirar a própria vida.

O Papa convida que todos rezem por essas jovens vítimas e por todas as crianças inocentes que morrem todos os dias: “Nossas orações vão para as vítimas do trágico tiroteio ocorrido durante uma missa escolar no estado americano de Minnesota. Incluamos em nossas orações as inúmeras crianças mortas e feridas todos os dias no mundo inteiro”.
O Papa Leão XIV evoca a pandemia com seu fardo de preocupação, ansiedade e contágio ao clamar a Deus para que ponha fim à disseminação das armas no mundo: “Rogamos a Deus para que interrompa a pandemia de armas, grandes e pequenas, que infecta o nosso mundo. Que nossa Mãe Maria, Rainha da Paz, nos ajude a cumprir a profecia de Isaías: ‘Transformarão as suas espadas em arados e as suas lanças em foices’”.
QUE A VOZ DA FRATERINIDADE SE ELEVE
Ainda no Angelus, o Pontífice fez menção à situação na Ucrânia, lembrando que “a morte e a destruição continuam a ser semeadas”, com cidades atingidas por bombardeios, incluindo a capital, Kiev. Esses ataques resultaram na morte de várias pessoas. Leão XIV nos exortou a “não ceder à indiferença”, mas a ir ao encontro delas por meio da oração e de atos de caridade.
“Reitero com veemência meu urgente apelo por um cessar-fogo imediato e por um sério compromisso com o diálogo. É hora de os responsáveis renunciarem à lógica das armas e embarcarem o caminho da negociação e da paz, com o apoio da comunidade internacional. A voz das armas deve silenciar, enquanto a voz da fraternidade e da justiça deve se elevar”.
O Papa também se refere ao naufrágio de 29 de agosto na costa atlântica da Mauritânia, no qual mais de 50 pessoas morreram e outras 100 estão desaparecidas. Esta é mais uma tragédia no mar, na viagem de esperança rumo às Ilhas Canárias. É um acontecimento interpelador que deve nos encorajar a acolher os estrangeiros.
Esta tragédia mortal se repete todos os dias no mundo inteiro. Rezemos para que o Senhor nos ensine, como indivíduos e como sociedade, a colocar plenamente em prática a sua palavra: “Eu era estrangeiro e me acolhestes” (Mt 25,35). Confiemos todos os nossos feridos, desaparecidos e mortos, em todos os lugares, ao abraço amoroso do nosso Salvador.
Concluindo a oração mariana, Leão XIV recorda que na segunda-feira, 1º de setembro, se celebra o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. “Dez anos atrás – afirmou o Pontífice -, o Papa Francisco, em concordância com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I, instituiu este Dia para a Igreja católica. Ele é mais do que nunca importante e urgente, e este ano seu tema é ‘Sementes de Paz e Esperança’”.
“Unidos a todos os cristãos, celebramos este Dia e o prolongamos no ‘Tempo da Criação’ até 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis. No espírito do Cântico do Irmão Sol, composto por ele há 800 anos, louvemos a Deus e renovemos nosso compromisso de não destruir seu dom, mas de cuidar de nossa casa comum”.
HUMILDADE: FORMA PLENA DE LIBERDADE

A humildade é a forma plena da liberdade. Ela é a liberdade de sim mesmo. Foi o que disse o Pontífice no Angelus. Na alocução que precedeu a oração mariana, Leão XIV ateve-se página do Evangelho do dia (cf.Lc 14,1.7-14) em que Jesus é convidado para almoçar por um dos chefes dos fariseus. Inicialmente, o Santo Padre observou que estar à mesa juntos, especialmente nos dias de descanso e de festa, é um sinal de paz e comunhão, em todas as culturas, e que receber convidados amplia o espaço do coração, e ser convidado requer a humildade de entrar no mundo do outro. “Uma cultura do encontro se alimenta desses gestos que aproximam”, acrescentou, frisando que “encontrar-se nem sempre é fácil”.
O Evangelista nota que os comensais “ficavam observando” Jesus, e geralmente Ele era visto com certa desconfiança pelos intérpretes mais rigorosos da tradição. Apesar disso, o encontro acontece, porque Jesus se aproxima realmente, não permanece alheio à situação. Ele se torna verdadeiramente hóspede, com respeito e autenticidade. Ele renuncia às boas maneiras que são apenas formalidades para evitar o envolvimento mútuo.
Assim, em seu estilo próprio, continuou o Santo Padre, com uma parábola, descreve o que vê e convida quem o observa a pensar. Ele percebeu que há uma corrida para ocupar os primeiros lugares. Isso acontece também hoje, não na família, mas nas ocasiões em que é importante “ser notado”; então, estar juntos se transforma em uma competição.
“Irmãs e irmãos, sentar-nos juntos à mesa eucarística, no dia do Senhor, significa também para nós deixar a palavra a Jesus. Ele torna-se voluntariamente nosso hóspede e pode descrever-nos como Ele nos vê. É muito importante ver-nos com o seu olhar: repensar como muitas vezes reduzimos a vida a uma competição, como nos descompostamos para obter algum reconhecimento, como nos comparamos inutilmente uns aos outros. Parar para refletir, deixar-nos abalar por uma Palavra que questiona as prioridades que ocupam o nosso coração: é uma experiência de liberdade. Jesus chama-nos à liberdade”.
No Evangelho, reiterou o Pontífice, Ele usa a palavra “humildade” para descrever a forma plena da liberdade. A humildade, de fato, é a liberdade de si mesmo. Ela nasce quando o Reino de Deus e sua justiça realmente despertam nosso interesse e podemos nos permitir olhar para longe: não para a ponta dos nossos pés, mas para longe!
“Quem se exalta, em geral, parece não ter encontrado nada mais interessante do que a si mesmo e, no fundo, é muito inseguro. Mas quem compreendeu ser tão precioso aos olhos de Deus, quem sente profundamente ser filho ou filha de Deus, tem coisas maiores pelas quais se exaltar e tem uma dignidade que brilha por si mesma. Ela vem à tona, está em primeiro lugar, sem esforço e sem estratégias, quando, em vez de nos servirmos das situações, aprendemos a servir”.
Por fim, o Pontífice desejou que a Igreja seja para todos um ginásio de humildade, ou seja, aquela casa onde todos são sempre bem-vindos, onde não é preciso conquistar lugares, onde Jesus ainda pode tomar a palavra e nos educar em sua humildade, em sua liberdade. Maria, a quem agora rezamos, é verdadeiramente a Mãe desta casa.
Fonte: Vatican News