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‘Para onde vais, humanidade?’: publicado novo documento da Comissão Teológica Internacional

Publicado o documento “Quo vadis, humanitas?”, que reflete sobre o “desafio epocal” da antropologia cristã na era da Inteligência artificial. Os riscos da “infosfera” e a crise da democracia; a importância da história para combater a “amnésia cultural”; as derivações da “urban age” que transforma os limiares em fronteiras. Realizar-se não significa auto-potenciar-se, mas acolher livremente o dom da vida e do amor de Deus, como fez a Virgem Maria

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Reprodução Vatican News

“Quo vadis, humanitas? – Para onde vais, humanidade?” O título do novo documento da Comissão Teológica Internacional (CTI) – aprovado por Leão XIV no dia 9 de fevereiro passado – resume plenamente as razões fundamentais e o objetivo final: hoje, diante de uma aceleração tecnológica sem precedentes, a teologia quer oferecer “uma proposta teológica e pastoral” que entende a vida humana como “vocação integral” e “co-responsabilidade para com os outros e para com Deus”, à luz do Evangelho. É central a referência à Constituição conciliar Gaudium et spes, publicada há quase 61 anos: o documento da CTI retoma, de fato, tanto o diálogo “aberto” entre a Igreja e o mundo contemporâneo, quanto o conceito do ser humano “integral, na unidade de corpo e alma, de coração e consciência, de intelecto e vontade”.

O desenvolvimento entre transumanismo e pós-humanismo

O primeiro dos quatro capítulos do texto é dedicado ao desenvolvimento, caracterizado por dois pólos: o transumanismo e o pós-humanismo. O primeiro engloba a vontade de melhorar concretamente, através da ciência e da tecnologia, as condições de vida dos povos, superando seus limites físicos e biológicos. O segundo vive o “sonho” de substituir o humano, enfatizando o ciborgue, ou seja, o híbrido que torna fluida a fronteira entre o homem e a máquina. Entre esses dois pólos, coloca-se a fé cristã que “impele a buscar uma síntese” das tensões humanas em Cristo, o Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado.

O digital como ambiente de vida

O documento enfoca particularmente a tecnologia digital, que “não é mais apenas uma ferramenta, mas constitui um verdadeiro ambiente de vida”, na medida em que estrutura as atividades humanas e as relações. Daí decorrem vários riscos: no âmbito ambiental, a expansão do mundo artificial implica uma economia baseada na exploração ilimitada dos recursos, em nome do lucro máximo. A “consequência trágica” disso é a dívida ecológica entre o Norte e o Sul do mundo, a urbanização “selvagem e abusiva” e as políticas extrativistas poluentes. No relacionamento com os outros, a revolução digital pode levar o indivíduo a se sentir insignificante em um fluxo incontrolável e desestabilizador de informações, entre contatos meramente virtuais.

O crescimento do poder da IA

Assim, o poder da Inteligência artificial surge cada vez mais e, em um mundo tão hiperconectado, as dinâmicas econômicas, políticas, sociais ou militares correm o risco de se tornar “incontroláveis e, portanto, ingovernáveis”, com o perigo de “controle social e manipulação”. A comunicação também sofre as consequências desse cenário: embora ressalte as vantagens do desenvolvimento técnico-científico nesse âmbito — como, por exemplo, “uma cidadania ativa”, “uma informação direta e participativa” e “uma informação independente” que permite, por exemplo, denunciar a violação dos direitos humanos –, a CTI adverte para “um mercado infinito de notícias e dados pessoais, nem sempre verificáveis e muitas vezes manipulados”. Substancialmente, hoje os meios de comunicação de massa não são “meios neutros” e, portanto, sua influência sobre a ética e a cultura interpela a antropologia.

A infosfera e a crise das democracias ocidentais

Nessa “infosfera”, o indivíduo está cada vez mais incerto quanto à sua identidade e, por isso, invoca o reconhecimento por parte dos outros: um reconhecimento que deve ser conquistado mesmo “falsificando a realidade” ou afirmando os seus direitos “contra o outro”. Daí derivam os conflitos sociais que muitas vezes se tornam conflitos de identidade. E daí também surge “a crise atual nas democracias ocidentais”, inconscientes do “esforço crescente” em reconhecer, de forma compartilhada, “o que nos une como seres humanos”. Além disso, quando a opinião é homologada pelos likes, o debate político se “tribaliza”, ou seja, se fragmenta entre grupos fortemente polarizados que se confrontam de forma “conflituosa e violenta”.

human enhancement e a busca pelo equilíbrio entre tecnologia e humano

A revolução da informação também muda a forma de perceber o conhecimento, cujo horizonte pode ser reduzido apenas ao que a IA é capaz de processar. Os princípios da filosofia, da teologia ou da ética podem, portanto, ser considerados questões subjetivas ou “de gosto” pessoal. O mesmo poderia acontecer com a corporeidade: se, por um lado, os avanços da biotecnologia para a saúde e o bem-estar de diferentes povos são apreciáveis, por outro, o documento alerta para a difusão do “culto ao corpo”, especialmente no Ocidente, onde se tende à “figura perfeita, sempre em forma, jovem e bonita”. Igualmente arriscado é o human enhancement (aprimoramento humano): em si, ele indica todas as tecnologias biomédicas, genéticas, farmacológicas e cibernéticas destinadas a melhorar as capacidades do ser humano. Mas se esse conceito for entendido “sem limites e cautelas”, então é urgente uma reflexão sobre a necessidade de equilíbrio entre “o tecnicamente possível e o humanamente sensato”.

A relação entre o digital e a religião: luzes e sombras

Ampla, então, a reflexão sobre a relação entre tecnologia digital e religião: também neste âmbito, existem aspectos positivos – como a facilidade de conhecimento e informação – e negativos. Entre eles, a criação na web de “um gigantesco ‘mercado religioso’ que oferece uma escolha à la carte de acordo com os interesses individuais” ou mesmo uma certa comunicação cristã que, nas redes sociais, é usada para “alimentar polêmicas e até mesmo destruir a boa reputação de outras pessoas”. Não só: nesta “metamorfose na maneira de acreditar”, a própria tecnologia acaba por funcionar como “guia espiritual e mediadora do sagrado”, com casos extremos de “bênçãos e exorcismos virtuais e espiritualismo digital”. 

A cultura da anamnese e a amnésia da cultura

O segundo capítulo do documento centra-se na vocação integral: a experiência humana deve ser considerada nas categorias concretas de tempoespaço e relação. Hoje, explica a CTI, perdeu-se o sentido da história, tudo se reduziu a um “presente fechado em si mesmo” e “a cultura da anamnese” deu lugar à “amnésia da cultura”. A tecnologia torna tudo contemporâneo, mas “um presente que não conhece mais o passado não tem mais nenhum futuro”, nem esperança. Isso pode levar a “formas de revisionismo e negacionismo” ou “populismos”. Diante de tudo isso, o Evangelho se apresenta como uma “contracultura” porque, na “aceleração horizontal” que a história sofre, o Verbo lhe oferece um sentido, ou seja, Jesus Cristo, ponto de encontro entre o tempo do homem e a eternidade de Deus.

O fenômeno da “urban age”

Igualmente ampla é a reflexão sobre o espaço, sobretudo diante do fenômeno da “urban age” (era urbana), ou seja, a formação de regiões metropolitanas que unem centros e periferias em espaços imensos, não isentos de problemas, como a falta de serviços essenciais. Além disso, a cultura global e a facilidade de mobilidade tornam o homem “cidadão do mundo”, mas também “nômade” errante em não-lugares anônimos e uniformes, como aeroportos e shopping centers. “Assim se perde a figura do peregrino”, ou seja, daquele que, sem perder a relação com sua terra, parte em viagem para responder ao chamado de Deus. O espaço global, além disso, faz crescer “sentimentos de invasão” que veem no outro uma ameaça, cria fronteiras onde, ao contrário, os cristãos veem “limiares”, ou seja, “zonas que colocam em contato” com o próximo. Cristo, de fato, “abre o espaço dos povos e das pessoas”, tornando-o um lugar hospitaleiro em um presente salvífico e em caminho para um futuro transcendente.

As relações como barreira à globalização uniformizante

Portanto, a relação, a intersubjetividade entendida como pertença do homem a uma família, a um povo e a uma tradição. Essas pertenças, destaca o documento, moldam a identidade pessoal e constituem “quase uma barreira contra a propagação da globalização uniformizante”. A unidade na diversidade é, ao contrário, o princípio invocado pela CTI em nome da “fraternidade” e da “amizade social”. Neste contexto insere-se também o “povo de Deus que é a Igreja”, cujo caminho se baseia na fé e está aberto às diferenças para um “projeto unitário maior”. No segundo capítulo, também são centrais o princípio do bem comum e a atenção aos mais pobres que, devido ao poder tecnológico, correm o risco de se tornar “danos colaterais” a serem varridos “sem piedade”.

A dignidade infinita de cada vida humana

A vocação integral do ser humano é também a realização no amor: a vida de cada um é fruto do “amor criativo do Pai”, que o amou antes mesmo de formá-lo. Isso significa que “toda existência humana tem valor infinito em si mesma” e o homem não pode ser submetido a nenhuma medida – política, econômica ou social – que diminua sua “dignidade infinita”. Infelizmente, hoje, especialmente no Ocidente – ressalta o documento –, favorece-se uma “cultura da não vocação” que priva os jovens de uma abertura ao sentido último da existência, bem como à esperança.

A identidade amadurece no amor

identidade é o tema do terceiro capítulo: “Nenhum ser humano pode ser feliz se não sabe quem é”, afirma a CTI; portanto, cada um deve assumir a “tarefa” de se tornar ele mesmo e transformar o mundo de acordo com o desígnio de Deus. Além disso, como filhos amados do Senhor, os seres humanos amadurecem sua identidade principalmente no amor. É necessário também “aceitar o corpo sexuado, visto como um dom e não como uma prisão que nos impede de ser verdadeiramente nós mesmos, ou como material biológico a ser modificado”. Neste contexto, até mesmo a deficiência assume um valor relevante, porque ela também “pode ser uma ocasião de bem, de sabedoria e de beleza”.

As relações interpessoais e com o cosmos

O texto evidencia com clareza a importância das relações interpessoais, pois quanto mais o homem as vive “de forma autêntica”, mais amadurece “a sua identidade pessoal”. Ser um dom para os outros torna-se, portanto, a maneira pela qual a pessoa responde ao chamado de uma “comunhão social” que se realiza na “capacidade de acolher os outros, estabelecendo laços sólidos”, baseados no diálogo e na escuta, e no direito de ser si mesmo e de ser diferente. Além disso, os seres humanos devem assumir o papel de “administradores responsáveis” da Criação, tornando-se agentes da evolução do universo físico, “mas sempre respeitando suas próprias leis”.

As tensões polares da identidade humana

O quarto e último capítulo do documento analisa a dramática condição do processo de realização da identidade humana, que passa por diversas “tensões ou polaridades” entre o material e o espiritual, o masculino e o feminino, o indivíduo e a comunidade, o finito e o infinito. Essas tensões, explica-se, “não devem ser interpretadas numa lógica dualista, mas como ‘unidade dos dois’”, de modo a mostrar “o valor justo e inalienável da diferença”. A referência é à “vida trinitária”, em virtude da qual a relação entre dois não se fecha sobre si mesma, nem anula o outro, mas “se abre à realização no terceiro”. Sobretudo, através das oposições polares, “permanece intacto o dom original que precede e fundamenta”. A “harmonia perfeita” entre as Pessoas trinitárias remete para a fraternidade universal e é expressa de forma culminante na Eucaristia, que “regenera as relações humanas e as abre à comunhão”.

O exemplo da Virgem Maria

Em conclusão, o documento da CTI ressalta com clareza que “o futuro da humanidade não se decide nos laboratórios de bioengenharia, mas na capacidade de habitar as tensões do presente”, sem perder o sentido do limite e da abertura ao mistério de Cristo ressuscitado. Um exemplo admirável é a Virgem Maria: aquela que acolheu livremente o dom de Deus torna-se “o paradigma” do ser humano que se realiza em plenitude. 

Fonte: Vatican News

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