Quaresma: tempo de reavivar a fé na Eucaristia

Quaresma: tempo de reavivar a fé na Eucaristia
Luciney Martins /O SÃO PAULO

No caminho de conversão próprio do período quaresmal, cada pessoa é chamada a preparar o coração para renovar a sua fé no mistério central da vida cristã: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Mais do que uma mera recordação do acontecimento do passado, trata-se da celebração de uma realidade eterna, isto é, a salvação da humanidade operada por Deus por meio do sacrifício de seu Filho.

Portanto, a maneira mais eficaz e concreta de se preparar para a Páscoa é por meio do sacramento que consiste no memorial da celebração pascal: a Santa Missa. No ciclo de meditações quaresmais deste ano, feitas ao Papa Francisco e aos colaboradores da Cúria Romana, o Cardeal Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia, ressaltou que, entre os vários males que a pandemia da COVID-19 têm causado à humanidade, houve ao menos um efeito positivo do ponto de vista da fé: “Ela nos fez tomar consciência da necessidade que temos da Eucaristia e do vazio que cria a sua falta”. Ele destacou, inclusive, que algumas igrejas locais e nacionais decidiram dedicar este ano a uma catequese especial sobre a Eucaristia, em vista de um desejado renascimento eucarístico entre os católicos.

SACRIFÍCIO

A Igreja Católica reafirma sua fé no sacramento da Eucaristia, fonte e ápice da vida cristã, e testemunha publicamente sua convicção da presença real de Jesus Cristo nas espécies do pão e do vinho consagrados na missa.

Instituída por Jesus Cristo na Última Ceia, a Eucaristia perpetua o sacrifício da cruz na Igreja ao longo dos séculos. Quando este sacramento é celebrado, o acontecimento central de salvação se faz realmente presente e “realiza-se também a obra da nossa redenção”, como expressou São João Paulo II, na encíclica Ecclesia de Eucharistia (2003).

“A Eucaristia é a presença na história do evento que inverteu para sempre os papéis entre vencedores e vítimas. Na cruz, Cristo fez da vítima o verdadeiro vencedor […] A Eucaristia nos oferece a verdadeira chave de leitura da história. Assegura-nos que Jesus está conosco, não apenas intencionalmente, mas realmente neste nosso mundo que parece escapar de nossas mãos a qualquer momento. Ele nos repete: ‘Tenha coragem: eu venci o mundo!’ (Jo 16,33)”, sublinhou o Cardeal Cantalamessa.

RESSURREIÇÃO

O santo sacrifício eucarístico torna presente não só o mistério da Paixão e Morte de Jesus, mas também o mistério da sua Ressurreição. Por estar vivo e ressuscitado é que Cristo pode se tornar “pão da vida” (Jo 6,35.48). Tal verdade de fé era proclamada pelos padres e doutores dos primórdios da Igreja. Santo Ambrósio lembrava aos cristãos recém batizados: “Se hoje Cristo é teu, Ele ressuscita para ti cada dia”.

O Padre Francisco Fernández-Carvajal, autor espanhol de diversos livros de espiritualidade, escreveu, na coletânea de meditações “Falar com Deus”, publicada no Brasil pela editora Quadrante, que a missa e o sacrifício da cruz “são o mesmo e único sacrifício, embora estejam distanciados no tempo; volta a fazer-se presente a total submissão amorosa do Senhor à vontade do Pai, embora não se repitam as circunstâncias dolorosas e cruentas do Calvário”.

Nesse sentido, é Cristo que se oferece a si mesmo em cada missa celebrada, sendo o sacerdote o ministro que age in persona Christi (na pessoa de Cristo). Sobre isso, São Paulo VI, na encíclica Mysterium fidei (1965), destaca que “toda a missa, ainda que celebrada privadamente por um sacerdote, não é ação privada, mas ação de Cristo e da Igreja”, em cujo sacrifício “aplica à salvação do mundo inteiro a única e infinita eficácia redentora do Sacrifício da Cruz”.

COMUNHÃO

O ápice da participação na Eucaristia é a comunhão. É o próprio Jesus que convida: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53).

O principal fruto da comunhão eucarística é a união íntima com Cristo Jesus. “De fato, o Senhor diz: ‘Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele’ (Jo 6,56). A vida em Cristo tem o seu fundamento no banquete eucarístico: ‘Assim como o Pai, que vive, me enviou, e Eu vivo pelo Pai, também o que comer a minha carne viverá por Mim’ (Jo 6,57)”, recorda o Catecismo da Igreja Católica, que enfatiza, ainda, que a comunhão da carne de Cristo Ressuscitado conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo.

A Comunhão também afasta o fiel do pecado, sendo, portanto, “sustendo e remédio” no processo de conversão. “É por isso que a Eucaristia não pode nos unir a Cristo sem nos purificar, ao mesmo tempo, dos pecados cometidos, e nos preservar dos pecados futuros”, reforça o Catecismo.

PREPARAÇÃO

Para receber o Corpo e o Sangue de Cristo, é necessária a devida preparação. Nesse sentido, a Igreja exorta os que tiverem consciência de um pecado grave a receberem o sacramento da Reconciliação antes de se aproximarem da Sagrada Comunhão, com o fim de evitar um sacrilégio e usufruir das graças infinitas de tão admirável dom.

Os que recebem a Eucaristia ficam mais estreitamente unidos a Cristo, que une todos os fiéis em um só corpo: a Igreja. Santo Tomás de Aquino afirmou que “o efeito típico da Eucaristia é a transformação do homem em Cristo”. Já São Leão Magno destacou: “A participação do Corpo e Sangue de Cristo não faz outra coisa senão nos transformar no alimento que tomamos”.

VIDA ETERNA

Na homilia do XX Congresso Eucarístico Nacional da Itália, em 1983, São João Paulo II afirmou:

“Na Eucaristia, vem inscrito o que de mais pro- fundo tem a vida de cada homem: a vida do pai, da mãe, da criança e do ancião, do rapaz e da jovem, do professor e do estudante, do agricultor e do operário, do homem culto e do homem simples, da religiosa e do sacerdote. De cada um, sem exceção. Eis, a vida do homem vem inscrita, mediante a Eucaristia, no mistério do Deus vivo. Neste mistério — como no eterno Livro da Vida — o homem ultrapassa os limites da contemporaneidade, encaminhando-se para a esperança da vida eterna. Eis, a Igreja do Verbo Encarnado faz nascer, mediante a Eucaristia, os habitantes da eterna Jerusalém”.

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