Análise – Ratzinger, da vaia ao aplauso

Análise – Ratzinger, da vaia ao aplauso, Jornal O São Paulo
Papa Bento XVI em encontro com os jovens no estádio do Pacaembú, em maio de 2007 (foto: Luciney Martins/O SÃO PAULO)

Vaiado na entrada, aplaudido na saída”. Alguns referiram-se a Joseph Ratzinger nestes termos, justamente salientando que o caráter tímido e a firmeza doutrinal do teólogo alemão eram hostilizados inicialmente pela plateia, mas, ao fim, o seu peculiar misto de humildade e genialidade conseguiam sempre prevalecer, e as vaias eram sucedidas pelos aplausos.

É muito difícil traçar um perfil de um autor que soma mais de 600 publicações e que é o maior teólogo contemporâneo da Igreja. O máximo que conseguimos é tentar reproduzir, em linhas muito gerais, o que se poderia entender como a linha evolutiva da sua trajetória, as etapas pelas quais ele percorreu.

Profundamente influenciado por Santo Agostinho, São Boaventura e São Tomás de Aquino, Ratzinger encontrou no teólogo ítalo-germânico Romano Guardini a inspiração para o seu próprio percurso em três traços fundamentais: a fundamentação racional da fé e a centralidade do mistério de Cristo e da liturgia na vida da Igreja. Este será, por assim dizer, um possível tripé do seu pensamento.

Havia, no período anterior ao Concílio Vaticano II, certo positivismo teológico, que se caracterizava por uma fundamentação muito estritamente dogmática da Teologia, talvez um tanto despreocupada em rastrear aquilo que os teólogos chamavam de preambula fidei, isto é, os preâmbulos, os pressupostos racionais da fé.

Ratzinger levou muito a sério essa tarefa, até o ponto de ser inicialmente incompreendido. Sua tese doutoral, sobre a noção de história em São Boaventura, cujo orientador foi o seu professor e amigo Gottlieb Söhngen, não foi muito bem recebida pelo segundo leitor, Michael Schmaus, que sustentava que a tese padecia de exagerado historicismo. Certamente por causa da influência de Söhngen, Ratzinger não se limitava a uma reflexão abstrata sobre o dogma, mas salientava, na esteia daquilo que se chama teologia apofática, que Deus não pode ser descrito com fórmulas exatas, que a fé é um mistério recebido numa história salvífica.

Em 1947, Ratzinger lê a obra de Henri de Lubac, Aspectos sociais do dogma, e esta lhe provoca uma nova abertura epistêmica. Ele percebe a importância de que a reflexão teológica aconteça em diálogo com as ideologias contemporâneas, sem perder o background patrístico e escolástico. De fato, corria-se o risco de que a Teologia ficasse confinada num gueto intelectual, enquanto o mundo moderno era pervadido por novas crenças, de modo que a mensagem cristã perderia aderência.

Foi aí que o marco histórico e filosófico emergiu com grande força em seu pensamento. Essa penetração nos grandes dilemas do mundo moderno, nas questões espinhosas do homem contemporâneo, nos emparedamentos que este faz à Igreja e à sua fé deu grande vigor à teologia de Ratzinger e, ao mesmo tempo, fez com que ele se tornasse um interlocutor respeitável dos grandes filósofos do seu tempo. No fundo, sua grande questão nesse aspecto foi: como a Igreja pode manter-se fiel a si mesma sem soçobrar nas tormentas ideológicas contemporâneas e, ao mesmo tempo, apresentar uma mensagem que diga “algo” ao homem de hoje?… A síntese mais precisa deste seu pensamento foi dada por ele na famosa homilia de 18 de abril de 2005, na Missa “pro eligendo Romano Pontifice”, em que ele, decano do colégio cardinalício, proferiu aquelas palavras contra a ditadura do relativismo que foram celebrizadas pelos jornalistas como “o paradigma Ratzinger”.

Certamente, o momento mais marcante do seu protagonismo teológico se deu entorno do maior evento eclesial do século XX, o Concílio Vaticano II. Convidado pelo Cardeal Frings a acompanhá-lo como perito, Ratzinger deu importantes contribuições ao tema da colegialidade (Lumen Gentium) e da tradição e Escritura como “única fonte” da Revelação (Dei Verbum), em parceria com Hans Küng; ao tema da índole missionária da Igreja (Ad gentes), bem como algumas pequenas contribuições na Constituição Gaudium et Spes, em parceria com Yves Congar.

No pós-Concílio, ele participou da fundação da Revista “Concilium”, juntamente com Edward Schillebeeckx, Yves Congar, Karl Rahner, Hans Küng, Johann Baptist Metz, Walter Kasper, Paul Brand e Anton von den Boogaard. Contudo, na perspectiva de Ratzinger, os idealizadores afastaram-se demasiadamente da letra e das intenções dos padres conciliares e avançaram numa interpretação que, no fundo, desconsiderava o resultado do Concílio em si, em nome de um suposto “espírito do concílio”.

Então, em 1972, fundou, juntamente com Hans Urs von Balthasar, Karl Lehmann, Franz Greiner, Otto B. Roegele, Albert Görres, Hans Maier, Jean Daniellou e Henri de Lubac, a revista “Communio”, que pretendia fornecer uma interpretação do Concílio em continuidade com a tradição anterior da Igreja, sem nenhum tipo de ruptura.

Desde então, esta se tornou uma espécie de tarefa teológica de Ratzinger, sintetizada por ele em dois importantes discursos de seu pontificado, no famoso feito em 22 de dezembro de 2005, em que fala sobre as duas hermêuticas do Concílio, a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” e a “hermêutica da reforma na continuidade”; e no segundo discurso, que não por acaso foi o seu último como papa ao clero de Roma, no dia 14 de fevereiro de 2013, em que ele contrapõe o “Concílio dos Padres Conciliares” ao “Concílio da mídia”, que distorceu a intenção dos primeiros e detrimento da verdadeira recepção do texto conciliar por parte do povo cristão.

Para Ratzinger, o tema principal do Concílio foi a eclesiologia. Ele entendia que a noção de “Povo de Deus” foi erroneamente interpretada a partir de categorias excessivamente políticas, que contrapõem “povo” a “hierarquia” ou que enxergam “povo” numa perspectiva excessivamente horizontal, e propõe, como chave interpretativa da eclesiologia conciliar, o conceito de “comunhão” dos homens com Deus e entre si, numa noção mais profundamente trinitária, cristológica e, sobretudo, eucarística.

Em 1977, ele foi nomeado arcebispo e, três meses depois, cardeal. Em 1981, foi nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Este fato, de certo modo, promoveu uma ruptura em seu trabalho de elaboração teológica pessoal, obrigando-o a alargar seus horizontes para outros temas e fazendo-o, assim, ganhar também maior concretude especulativa.

É, então, que ele se lança em debate com algumas abordagens teológicas emergentes nas décadas anteriores, corrigindo seu excessivo imanentismo, bem como a intromissão de perspectivas materialístico-históricas no seu método teológico e, por isso, ganha a antipatia de considerável parte da mídia. Ele mantém-se, igualmente, firme na defesa da lei natural, especialmente em temas que não eram pessoalmente “seus”, como os temas da vida e da família, da moral conjugal e da bioética.

Neste período, foi o braço direito de São João Paulo II, especialmente na redação do Catecismo da Igreja Católica, nos aspectos eclesiológicos do Código de Direito Canônico e em encíclicas fundamentais como Veritatis Splendor (1993), Evangelium vitæ (1995), Fides et Ratio (1998) e Ecclesia de Eucharistia (2003).

Vendo o avanço do secularismo na Europa e na América, e o surgimento de novas propostas religiosas relativistas, Ratzinger percebe a necessidade de reapresentar Jesus Cristo como Deus encarnado e único Redentor dos homens. É assim que ele chegará ao pontificado, em 2005, querendo fincar a Igreja nas três virtudes teologais (as suas três principais encíclicas foram sobre a caridade, Deus caritas est, de 2005; a esperança, Spes Salvi, de 2007; e a fé, Lumen fidei, terminada e assinada pelo Papa Francisco em 2013).

O resultado mais bem acabado deste seu longo percurso foi a obra Jesus de Nazaré, em que se vê a profunda natureza simultaneamente bíblica e racional da sua teologia; ao mesmo tempo em que faz uma reflexão com sólidos alicerces exegéticos, não perde a conexão com a elaboração filosófica e teológica, inclusive em diálogo com crentes de outras religiões, como do judaísmo.

Ratzinger foi um homem em estreita conexão com o seu tempo, foi um teólogo que deu relevância pública à Igreja no debate intelectual internacional e que, ao mesmo tempo, teve a coragem de ser humilde. Pelo amor à verdade, sacrificou o seu prestígio; e, pela sua humildade, soube superar as dificuldades e ganhar a mente e o coração dos seus contemporâneos. O seu legado não será esquecido. Ele permanecerá vivo em sua produção teológica, cujo impacto ganhará ainda maior relevo com o passar do tempo.

Certa vez, perguntaram ao ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, o que ele viu nos olhos de Bento XVI. Ele simplesmente disse: “eu vi Deus”. Foi justamente este Deus que os fiéis souberam ver no mais comovente e longo aplauso que ele recebeu em sua vida, ao final de sua última Missa pública na Basílica de S. Pedro, em 13 de fevereiro de 2013. Hostilizado, ele soube mostrar a gentileza da verdade; começou vaiado, terminou aplaudido.

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