Entrevista – ‘Bento XVI foi sacerdote de fé no amor de Deus e de permanente serviço e oração pela Igreja’

Bento XVI será lembrado “por sua erudição teológica e magisterial” e como alguém que se destacou pelo amor à Igreja, conforme disse ao ser apresentado como sucessor do apóstolo Pedro: “humilde trabalhador da vinha do Senhor”.

A avaliação é do Padre Geraldo Luiz Borges Hackmann, Diretor dos Estudos no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, em Roma, em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO. O Sacerdote também foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano, tendo ainda participado como perito nomeado por Bento XVI da 5a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, em Aparecida, no ano de 2007.

Entrevista – ‘Bento XVI foi sacerdote de fé no amor de Deus e de permanente serviço e oração pela Igreja’, Jornal O São Paulo
Foto: Vatican Media

O SÃO PAULO – Qual é o maior legado do Papa Bento XVI na sua opinião? Como ele será lembrado na história?

Padre Geraldo Luiz Borges Hackmann – O Papa Bento XVI poderá ser lembrado por sua erudição teológica e magisterial. Ele foi um dos mais argutos teólogos do século XX e do início do nosso atual século, que contribuiu com a renovação do pensamento teológico na época do Concílio Ecumênico Vaticano II, além de ter colaborado na redação de seus documentos. Seus escritos são de uma lucidez extraordinária ao abordar as questões doutrinais e mostrar uma luz para o momento em que vive a humanidade, sabendo identificar questões relevantes para o ser humano, tanto do ponto de vista antropológico quanto teológico. Como Papa, suas encíclicas abordam temas candentes para o presente e o futuro da humanidade, apontando a direção de valorização da dignidade humana. Durante seu pontificado, ele iniciou um processo de renovação interna da Igreja, no que toca a questões espirituais. Também deu os primeiros passos para enfrentar a dolorosa questão de abusos de menores, a mudança na gestão econômica interna da Igreja e a renovação da Cúria. Teve grande abertura ecumênica e inter-religiosa, buscando o diálogo com outras denominações religiosas.

De que forma a visão e o pensamento teológico de Bento XVI impactaram a vida da Igreja?

As suas encíclicas buscaram abordar temas fundamentais da fé cristã e que estavam na sombra. É o caso da caridade (Deus caritas est) e da esperança (Spe salvi). O texto sobre a fé, iniciado por ele, foi concluído e publicado por seu sucessor. Assim, ao abordar as três virtudes teologais, aponta o centro da fé cristã para todo o Povo de Deus e para quem é sensível ao apelo de Deus o mundo. A sua última encíclica, Caritas in veritate, de 29 de junho de 2009, trouxe um contributo substancial para a Doutrina Social da Igreja, ao iluminar a caridade com a verdade e, assim, mostrar uma nova perspectiva para a justiça.

Além da renúncia, qual a característica ou conceito que mais representa o pontificado de Bento XVI?

É verdade que a renúncia, mesmo sendo uma surpresa, mostrou a grandeza de sua alma de homem de fé e de pastor. Ele calou muitos de seus críticos com este admirável gesto de abnegação e responsabilidade. Mas ele foi mais do que isso. Penso que se destaca pelo amor à Igreja. Com uma personalidade humilde e simples, procurou ser o que ele disse ao ser apresentado como sucessor do apóstolo Pedro, no dia 19 de abril de 2005: “humilde trabalhador da vinha do Senhor”. Discreto e acolhedor, impressionava a todo aquele que entrava em contato com ele. Durante seu pontificado, sofreu pela Igreja ao enfrentar diversas crises, sempre com serenidade e confiança no Senhor.

Entrevista – ‘Bento XVI foi sacerdote de fé no amor de Deus e de permanente serviço e oração pela Igreja’, Jornal O São Paulo
Padre Geraldo (credito: Arquivo pessoal)

Qual o seu texto, citação ou documento favorito de Bento XVI?

Penso que o legado textual de Bento XVI deverá ainda ser muito mais refletido, aprofundado e, até, redescoberto. Ele deixa uma herança teológica importante para a Igreja. É difícil escolher. Mas poderia apontar a Spe salvi, publicada a 30 de novembro de 2007, como um documento que tentou resgatar a esperança do e no ser humano e relembrar o tema da escatologia, muito esquecido no período que segue ao Vaticano II.

O que mais gostaria de falar sobre Bento XVI?

O Papa Bento XVI foi muitas vezes injustiçado, por meio de críticas e notícias infundadas. Por isso, espero que seu pensamento seja realmente conhecido e refletido, pois contém um grande tesouro enriquecedor para a Igreja e para o pensamento teológico. Da renúncia até a sua morte, permaneceu como, talvez, tivesse querido sempre ser: sacerdote de fé no amor de Deus e de permanente serviço e oração pela Igreja.

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