Papa aborda o amor e a caridade na encíclica Deus caritas est

O SÃO PAULO recorda os principais documentos escritos pelo Pontífice, que morreu no sábado, 31 de dezembro

Papa aborda o amor e a caridade na encíclica Deus caritas est, Jornal O São Paulo
Angie Menses/Cathopic

Na primeira encíclica de seu pontificado, “Deus caritas est” (Deus é amor), datada de 25 de dezembro de 2005 e apresentada ao mundo um mês depois, Bento XVI trata sobre o amor e a caridade, no documento com 70 páginas. 

O Pontífice aborda os temas em duas partes distintas. Na primeira, faz uma reflexão teológico-filosófica sobre o amor em suas diferentes dimensões. Ele distingue “eros” (amor carnal) de “philia” (amor de amizade) e “ágape” (amor fraternal, a concepção bíblica do amor). Assim, adentra numa questão semântica, falando da diferença e da unidade entre as realidades do ‘eros’ e do ‘ágape’”.

Ao rebater a crítica de que a Igreja rejeita o “eros”, Bento XVI tenta “saná-lo” para que alcance sua verdadeira grandeza. 

A partir da constatação história, o Papa vai afirmar que “o modo de exaltar o corpo, a que assistimos hoje, é enganador”. “O ‘eros’ degradado a puro ‘sexo’ torna-se mercadoria, torna-se simplesmente um ‘coisa’ que se pode comprar e vender, ou seja, o próprio homem e a própria mulher tornam-se mercadoria… Para que o verdadeiro ‘eros’ nos eleve para o Divino e nos conduza para além de nós mesmos, ele requer um caminho de ascese, de renúncias, purificações e saneamentos.”

Na segunda parte, sobre “caritas”, Bento XVI discorre sobre a prática da caridade como dever da Igreja, na aplicação concreta do mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Ele lembra que a caridade é “expressão irrenunciável” da “própria existência” dos católicos. Embora se concentre no amor, a encíclica também se refere à política e à relação entre a Igreja e o Estado. 

INTRODUÇÃO

“Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4,16). Estas palavras da 1º Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristá: à imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: “Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem”. 

“Num mundo em que ao nome de Deus se associa às vezes a vingança ou mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto. Por isso, na minha primeira encíclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós”

A unidade do amor na criação e na história da salvação

O termo “amor” tornou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes (…) Em toda esta gama de significados, porém, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência.

Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade, mas, de certa forma, impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros. Diga-se desde já que o Antigo Testamento grego usa só duas vezes a palavra eros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das três palavras gregas relacionadas com o amor — eros, philia (amor de amizade) e ágape — Os escritos neo-testamentários privilegiam a última, que, na linguagem grega, era quase posta de lado. Quanto ao amor de amizade (philia), este é retomado com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos. A marginalização da palavra eros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime por meio da palavra ágape, denota, sem dúvida, na novidade do Cristianismo, algo de essencial e Próprio relativamente à compreensão do amor. (…) Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purificação para dar ao homem, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela beatitude para que tende todo o nosso ser”. 

“O homem torna-se realmente ele mesmo, quando corpo e alma se encontram em íntima Unidade; o desafio do eros pode considerar-se verdadeiramente superado, quando se consegue esta unificação. Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeita a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade de exclusiva, perde igualmente a sua grandeza”.

“Agora,  o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício antes procura-o (…) Na realidade, eros e ágape — amor ascendente é amor descendente — nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza verdadeira natureza do amor em geral”.

O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chegar virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo- Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte, deste modo, reconcilia justiça e amor”.

“O olhar fixo no lado trespassado de Cristo, de que fala João (cf. 19, 37) compreende o que serviu de ponto de partida a esta Carta Encíclica: “Deus é amor” (1 Jo 4, 8). É lá que esta verdade pode ser contemplada, E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor.  A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar”.

A caridade como dever da Igreja

“O amor do próximo radicado no amor de Deus é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequência disto é que o amor  tem necessidade também de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado. A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: ‘Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com  as necessidades de cada um’ (At 2, 44-45)”. 

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