A exemplo de São Paulo Apóstolo, bispos em regiões distantes dos grandes centros urbanos fazem extensa caminhada para levar o Evangelho a diferentes realidades

O apóstolo Paulo percorreu entre 15 mil e 20 mil quilômetros ao longo de suas três viagens missionárias pelo Mediterrâneo antigo: a pé, de barco, por estradas de pedra. Não existia GPS nem asfalto. Havia, segundo seus próprios registros, naufrágio, açoites, fome, perigos em rios e estradas. Ele morreu em Roma, executado por ordem de Nero, entre 64 e 68 d.C., sem ter chegado à Hispania, a última fronteira que planejava alcançar.
Dois mil anos depois, em três pontas extremas do Brasil, há bispos que repetem, em escala e método, a mesma lógica geográfica e espiritual. Não por coincidência, mas por obediência ao chamado.
INDO AO ‘INTERIOR DO INTERIOR’ DA AMAZÔNIA



Dom Joaquín Pertíñez Fernández não esperava voltar ao Brasil. Sacerdote da Ordem dos Agostinianos Recoletos, nascido na Espanha, ele estava na Costa Rica quando foi nomeado por São João Paulo II para assumir a Diocese de Rio Branco (AC). “Pensei em dizer não ao Papa, mas ficaria com remorso por toda a vida”, conta. Aceitou, conforme lembra, “sem saber de nada, sem preparação nenhuma”.
De 2012 até o início deste mês, Dom Joaquín esteve à frente de uma diocese de 102 mil km² – área superior à da Hungria – em um território que abrange a capital acriana e municípios como Xapuri, Brasileia e Assis Brasil. A Diocese está organizada em mais de três dezenas de paróquias, distribuídas por dois estados, com duas zonas de fuso horário. Há paróquias no Amazonas e em Rondônia. Para chegar a uma delas, na fronteira com o Peru, somente de avião.
“Aqui costumamos dizer que se sabe a hora de saída, mas nunca a hora de chegada”, resume o Bispo. Até os municípios-sede mais distantes, leva-se de quatro a cinco horas de carro, com asfalto. A partir dali, começa o que ele chama de “interior do interior”: ramais de terra que viram lama no inverno e poeira no verão, nos quais nem o carro tracionado garante chegada.
No dia 1º deste mês, o Papa Leão XIV aceitou o pedido de renúncia de Dom Joaquín Pertíñez Fernández, 73, ao governo pastoral da Diocese de Rio Branco, da qual esteve à frente nos últimos 27 anos, chegando a diferentes locais, valendo de todos os meios de transporte possíveis: canoa, voadeira, avião, teco-teco, cavalo, carro, moto e caminhada a pé. O mais doloroso, segundo ele, é a garupa da motocicleta. “Passar várias horas, no meio do mato, na garupa de uma moto, com ladeiras para cima e para baixo, tocos, lama e areia, deixa a mão e outras partes do corpo por três dias sem poder fazer nada”, comenta.
A Diocese sustenta hospital, casa terapêutica para dependentes químicos, acolhida para hansenianos, faculdade e seminários. E este ano, pela primeira vez em sua história, ordenou quatro sacerdotes no mesmo dia. “Muita graça de Deus”, diz o agora Bispo Emérito. A saúde, por outro lado, vai cedendo. “O corpo vai acumulando esses esforços e agora estamos pagando as consequências”.
A dedicação de Dom Joaquín à Diocese de Rio Branco foi recordada com gratidão pela presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em mensagem ao Bispo, no dia 1º: “Sabemos que sua trajetória foi marcada pela proximidade com o povo, pelo compromisso com a evangelização, pela promoção da dignidade humana e pela formação das comunidades, deixando um legado de simplicidade, zelo pastoral e amor à Igreja, em sintonia com o lema que escolheu para seu episcopado: ‘Para amar mais’
A REGIÃO DOS PAMPAS SEM ATALHO

Na Diocese de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, a vastidão dos pampas sul-rio-grandenses, planície aberta a perder de vista, entremeia cidades que ficam a horas uma das outras, com poucas opções de rodovias. A Diocese abrange 13 municípios, entre eles Alegrete, São Borja, Itaqui e Santiago, em uma extensão de cerca de 35 mil km², na fronteira com a Argentina e o Uruguai.
Dom Clésio Facco, nascido em Nova Palma, interior gaúcho, soube de sua nomeação episcopal pelo WhatsApp. A secretaria da Nunciatura Apostólica pediu que entrasse em contato com o Núncio. “Ao ler, o Santo Padre me nomeava como Bispo da Diocese de Uruguaiana”, conta. O impacto foi imediato. “Causou perplexidade, silêncio”. Depois, aceitou.
Sua nomeação, em maio de 2025, foi a primeira de um brasileiro no pontificado de Leão XIV. Dom Clésio está à frente de uma diocese com 287 capelas, 434 ministros leigos e 364 catequistas. A comunidade mais distante da sede episcopal fica a 380 km, cerca de seis horas de carro. Como não há atalhos entre cidades, chegar a determinados pontos obriga a percorrer a Diocese quase inteira.
A estratégia que desenvolveu para cobrir o território é de eficiência logística: sai na sexta-feira e retorna apenas na segunda, percorrendo múltiplas paróquias em sequência sem retornar à sede. Nas visitas pastorais formais, permanece uma semana inteira integrado à vida daquela comunidade. O calendário foi planejado para que cada paróquia receba visita pastoral a cada dois anos.
Em algumas comunidades do interior, especialmente no inverno, quando o Rio Uruguai e o Rio Ibicuí transbordam, o acesso se torna inviável. Com isso, o intervalo entre uma missa e outra pode passar de dois meses. Assim, muitas capelas têm celebração eucarística apenas uma vez por mês. A vida dominical depende dos leigos, ministros extraordinários da Palavra e da Eucaristia, que mantêm as comunidades funcionando entre uma visita sacerdotal e outra.
“Quando chego a um lugar novo, faço deste o meu lugar, o meu povo, a minha cidade e vivo com alegria tudo o que tenho para realizar”, diz Dom Clésio.
O BISPO DE 309 COMUNIDADES

Se os territórios das Dioceses de Rio Branco e de Uruguaiana impressionam, aquela conduzida por Dom Antônio Fontinele de Melo coloca a escala em outro patamar: a Diocese de Humaitá, no sul do Amazonas, cobre 135.160 km², área maior que a de países como Grécia ou Bulgária, abrigando 309 comunidades espalhadas por rios, lagos, igarapés, ramais, estradas e aldeias indígenas. Três municípios compõem o território: Humaitá, Manicoré e Apuí. Para atendê-los, há 20 sacerdotes, 16 diáconos permanentes e 20 religiosos e religiosas.
Dom Antônio chegou à Diocese com o lema episcopal retirado do Evangelho segundo Lucas: “Estou no meio de vós como aquele que serve.” A frase não é protocolar. Ele a operacionaliza por barco.
“Muitas comunidades só podem ser alcançadas após longas horas, e até dois dias de viagem pelos rios, lagos, igarapés, estradas, vicinais e ramais”, descreve. Os meios de transporte variam conforme o trecho: barcos, voadeiras, canoas, motor rabeta, motos e carros. Uma única visita pastoral pode exigir a combinação de vários deles.
Os períodos mais difíceis são dois, e opostos: a seca, quando o nível dos rios cai e obriga a interromper a navegação ou empurrar embarcações; e o inverno amazônico, quando as chuvas tornam as estradas intransitáveis, destroem pontes e transformam ramais em atoleiros. “A missão na Amazônia requer paciência, resistência física, capacidade de adaptação e, acima de tudo, uma profunda confiança em Deus.”
Há comunidades que recebem o padre apenas algumas vezes por ano, e, assim, passam meses sem missa. Desse modo, catequistas, ministros extraordinários da Palavra, coordenadores comunitários percorrem rios e estradas vicinais para manter a fé acesa entre uma visita e outra. “São eles que garantem a continuidade da evangelização”, reconhece Dom Antônio. “Posso afirmar, com profunda gratidão, que muitas comunidades permanecem firmes graças ao testemunho generoso desses homens e mulheres.”
Para o Bispo, sua missão pode ser sintetizada na seguinte imagem: “Uma pequena embarcação navegando pelas águas dos rios, lagos e igarapés da Amazônia, seguindo ao encontro do povo de Deus.”
O QUE A DISTÂNCIA REVELA?
Juntos, os três bispos administram um território equivalente a mais de 270 mil km² – maior que o Reino Unido. Servem populações que, em muitos casos, passam semanas sem acesso a serviços básicos de saúde, transporte ou comunicação. A fé, nessas regiões, é um alimento que socorre o corpo e a alma.
Paulo de Tarso descreveu sua missão em uma carta aos Coríntios: perigos nos rios, perigos nas estradas, fadiga e privação. Ele nunca chegou à Hispanha, mas chegou a Roma.
Dom Joaquín chegou à fronteira com o Peru. Dom Antônio chega, dois dias depois de embarcar, a uma comunidade às margens de um igarapé no sul do Amazonas. Dom Clésio chega, depois de seis horas de pampa, a uma capela de interior que aguarda a missa do mês. Cada um deles sabe a hora de saída. Nunca sabe a hora de chegada.




