Antoninho queria ser padre e testemunhou o amor a Deus e ao próximo

Morto aos 12 anos, vítima de tuberculose, em 1930, seu processo de beatificação e canonização está em curso. Há um memorial sobre o menino no hospital que ele idealizou para crianças na cidade de São José dos Campos (SP)

Antoninho queria ser padre e testemunhou o amor a Deus e ao próximo

Uma das primeiras lembranças da infância do advogado Alfredo Camargo Penteado Neto, hoje com 82 anos, é a da foto de um menino ao lado da cabeceira de sua cama. “Minha mãe sempre dizia: ‘Este é o seu protetor. Ele vai acompanhá-lo por toda a vida. Em tudo que você tiver dificuldade, fale com ele’”.

O garoto da foto era Antoninho da Rocha Marmo, paulistano nascido em 19 de outubro de 1918 e que morreu em 21 de dezembro de 1930, aos 12 anos, vítima de tuberculose. Desde então, tornou-se comum a ida de pessoas a seu túmulo no Cemitério da Consolação para que intercedesse a Deus para a obtenção de graças.

“As pessoas diziam: ‘Sou devota dele, ele fez um milagre pra mim’. Por muito tempo, não havia qualquer informação sobre o Antoninho. E isso me incomodava, bem como as informações distorcidas. Por isso, pensei em construir um memorial, que conseguimos inaugurar em 28 de fevereiro de 2016 em São José dos Campos”, comentou doutor Camargo, como é mais conhecido.

No dia 19 deste mês, os restos mortais de Antoninho foram transladados para a Capela de Nossa Senhora da Saúde, que fica ao lado do memorial, ambos nas dependências do Hospital Antoninho da Rocha Marmo, idealizado pelo próprio garoto antes de morrer. O tecido que revestiu seus restos mortais permanece no Cemitério da Consolação.

A FAMA DE SANTIDADE

Acometido pela tuberculose aos 9 anos de  idade,  Antoninho  passou  a  viver  em  São José dos Campos (SP), onde as condições climáticas eram mais favoráveis para sua situação de saúde. Com o tempo, uma brincadeira recorrente de Antoninho começou a chamar a atenção das pessoas.

“Ele gostava de brincar de celebrar missa. Para ele, era um ato tão  importante,  um  momento  de  louvor  a  Deus.  Adultos  e  crianças  participavam. Antoninho também dava catequese. Tudo chegou ao conhecimento do primeiro Bispo  de  Taubaté  (SP),  Dom  Epaminondas  Nunes  d’Ávila  e  Silva,  por  meio  do  Vigário  de  São  José,  o  Monsenhor  Ascânio  Brandão. Ao saber da piedade do menino, Dom Epaminondas lhe deu de presente alguns paramentos e objetos litúrgicos para a missa”,  recordou  ao  O  SÃO  PAULO  a  Irmã Alessandra Nogueira, da Congregação  das  Pequenas  Missionárias  de  Maria  Imaculada, administradora do hospital.

“Os  sacerdotes  que  conviveram  com  o  Antoninho  tinham  por  ele  especial  consideração e admiravam muito aquela criança  discorrendo  sobre  assuntos  religiosos com tanta proficiência. E tem um detalhe:  ele  não  sabia  ler  nem  escrever”,  afirmou Camargo.

Antoninho queria ser padre e testemunhou o amor a Deus e ao próximo

ATENÇÃO AOS AMIGUINHOS ENFERMOS

Ao observar a realidade de outras crianças com tuberculose que iam à cidade em busca de tratamento, mas que não podiam fazê-lo devido à falta de recursos financeiros, Antoninho pediu à família que viabilizasse a construção de um hospital também para elas.

“O próprio Antoninho mostrou o terreno onde seriam construídos o hospital e uma Capela de Nossa Senhora da Saúde, de quem ele era devoto”, recordou Irmã Alessandra.

Após a morte de Antoninho, sua família e benfeitores iniciaram as obras do hospital, que seria inaugurado em 13 de dezembro de 1952 e que está confiado à Congregação das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada, fundada em 1936 por Madre Maria Teresa de Jesus Eucarístico – Dulce Rodrigues dos Santos (1901- 1972), que chegou a São José dos Campos aos 21 anos, com tuberculose, e conseguiu se curar da doença. O processo de beatificação e canonização da Madre também está em curso.

“Antoninho e a Madre não se conheceram fisicamente, mas ambos se preocupavam com os doentes, amavam a Eucaristia e Nossa Senhora. Mesmo sem nos conhecer, Antoninho bebeu muito do espírito da nossa Congregação e nós assumimos a missão dele, especialmente aqui no hospital”, comentou Irmã Alessandra.

MODELO DE CRISTÃO

Antoninho queria ser padre e testemunhou o amor a Deus e ao próximo

Restos mortais de Antoninho chegam à capela do hospital por ele idealizado em São José dos Campos (foto: Assessoria de imprensa do hospital)

Camargo destacou que o menino jamais demonstrou tristeza ou revolta diante do sofrimento gerado pela tuberculose: “Ao contrário, ele estava sempre preocupado com os outros, especialmente com aqueles que sofriam o mesmo mal, e para os quais tinha sempre uma palavra de conforto, de fé e de esperança”.

Irmã Alessandra ressaltou que Antoninho “viveu as virtudes cristãs em sua intensidade, mesmo em meio ao sofrimento da doença. Ele amava a Deus e tinha muita caridade em seu coração”. Para a religiosa, o menino é um modelo de cristão e serve de exemplo para os que querem educar os filhos na fé. “Ele viveu em uma família unida, feliz e católica. Também hoje, os pais devem ensinar as crianças a rezar, favorecer que participem da missa e de orações comunitárias, quando chegar a idade colocá-las na Catequese e, sobretudo, dar o exemplo, participar com elas e viver todas as virtudes cristãs”, complementou.

PROCESSO DE CANONIZAÇÃO

O processo de beatificação e canonização de Antoninho da Rocha Marmo foi acolhido pela Igreja em 2007. A fase diocesana, na qual houve a catalogação de provas testemunhais, documentais e materiais foi concluída em 2011. Atualmente, está em análise na Congregação para as Causas dos Santos, para a elaboração da “Positio”, fase cujo principal objetivo é avaliar as virtudes do Servo de Deus e de sua fama de santidade.

O advogado Alfredo Camargo Penteado Neto é o autor do processo, que foi redigido com base nos objetos e relatos que obteve especialmente com uma sobrinha de Antoninho. Outros materiais de referência foram um trabalho publicado em 1937 pelo Padre Olegário da Silva Barata, que conheceu pessoalmente o garoto; e uma dissertação de mestrado de Marília Schneider, judia, publicada em 2001: “Memória e história de Antoninho Marmo: Misticismo, Santidade e Milagre em São Paulo”.

MEMORIAL

Antoninho queria ser padre e testemunhou o amor a Deus e ao próximo

O Memorial de Antoninho da Rocha Marmo, em São José dos Campos, abriga itens que pertenceram ao menino, como uma estola, pala, chave do quarto em que viveu, Terço, ostensório e castiçal.

Há, ainda, objetos doados por parentes de Antoninho, como um quadro de Nossa Senhora da Saúde e toalhas de altar utilizadas por ele quando brincava de celebrar missa. Também pode ser vista a roupa com a qual ele foi batizado, painéis fotográficos, documentos históricos, documentos da abertura do processo de canonização, livros e até um filme sobre a história do Servo de Deus.

As visitas podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 17h. Aos fins de semana é necessário agendar a visitação pelo telefone (12) 3797-0777.

Irmã Alessandra ressalta que tem havido o cuidado para que a veneração a este Servo de Deus não se transforme em misticismo. “Sempre procuramos lembrar que Antoninho é candidato a santo, alguém capaz de interceder a Deus por nós. Assim, não é ao menino Antoninho que nós vamos glorificar. Exaltamos a Deus, que é o princípio e fim de tudo. Queremos, sim, seguir as virtudes deste menino. A canonização é um reconhecimento de que a pessoa está no céu. Em nosso coração, já sabemos que ele viveu todas as virtudes, viveu a vontade de Deus e ajudou a todos com caridade. Antoninho é a criança que vai nos ajudar a trilhar o caminho de Deus. Os santos nos motivam a viver para a santidade”, explicou.

Relatos de graças alcançadas pela intercessão de Antoninho podem ser enviados por meio de um formulário de contato no site https://meninoantoninho.org.br.

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