
“Estamos começando muito mais do que uma preparação para uma Campanha. Estamos assumindo juntos uma missão”. Essas foram as palavras do bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Ricardo Hoepers, que abriu, nesta quinta-feira, 24, na capital federal, o Seminário Nacional da Campanha da Fraternidade 2027 (CF 2027).
O encontro segue até domingo, 27, e reúne agentes de pastoral e representantes de Igrejas Particulares, Regionais, movimentos e organismos eclesiais. Ao longo dos quatro dias, os participantes aprofundarão o tema da próxima CF: “Fraternidade e o cuidado das crianças”, iluminado pelo lema bíblico “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5).
Na acolhida aos participantes, Dom Ricardo afirmou que a preparação para a CF 2027 coloca a Igreja diante de “uma das realidades mais preciosas e, ao mesmo tempo, mais exigentes” confiadas à sua responsabilidade: a vida das crianças. Para o bispo, o próprio lema escolhido para a Campanha indica que o cuidado com a infância não pode ser compreendido como uma questão periférica à experiência cristã.
“Jesus não diz apenas que devemos ajudar as crianças. Ele estabelece uma identificação. Receber uma criança é recebê-lo”, afirmou.
Uma conversão no modo de olhar e cuidar
Em seu discurso, dom Ricardo apresentou o cuidado das crianças a partir de quatro dimensões de conversão: olhar, relações, vínculos e processos. A primeira delas, explicou, implica reconhecer a criança não apenas como alguém que se prepara para a vida adulta, mas como pessoa que possui dignidade, direitos, fé e capacidade de participação no presente. Nas relações, a Igreja é chamada a “escutar sem dominar, orientar sem sufocar, proteger sem silenciar”. Já a conversão dos vínculos exige que famílias e comunidades sejam espaços de pertença, segurança e amor.
Dom Ricardo defendeu que estruturas pastorais e eclesiais avancem na construção de ambientes seguros e na prevenção de toda forma de violência. “Como Igreja, sabemos que nem sempre conseguimos proteger os pequenos como deveríamos. Há feridas que precisam ser reconhecidas; vítimas que precisam ser escutadas e acolhidas; práticas que precisam ser revistas; responsabilidades que não podem ser omitidas”, declarou. Para isso, a resposta a essa realidade precisa ultrapassar ações isoladas.
“Falar de cuidado não pode significar apenas produzir um belo discurso sobre as crianças. Cuidado precisa tornar-se cultura”, enfatizou.
Da ação à cultura do cuidado
A construção dessa cultura foi apresentada como uma das principais missões da Campanha da Fraternidade de 2027. A perspectiva é que o compromisso alcance diferentes espaços da vida eclesial, começando nas famílias e chegando à catequese, grupos de coroinhas, Infância e Adolescência Missionária, escolas, pastorais e movimentos, além das paróquias, dioceses e Regionais. A proposta também envolve diálogo e corresponsabilidade com a sociedade. Segundo Dom Ricardo, a Campanha deve ajudar a Igreja no Brasil a realizar uma passagem “de ações de cuidado para uma verdadeira cultura do cuidado”.
Nesse processo, as próprias crianças deverão ocupar um lugar central. O bispo destacou que a CF 2027 não pretende somente falar sobre elas, mas também escutá-las. O Texto-Base da Campanha, segundo ele, já foi enriquecido com perguntas, desenhos, medos, sonhos e contribuições de crianças e adolescentes. “Talvez a primeira atitude de quem deseja cuidar seja parar de falar pela criança e começar a falar com a criança”, afirmou.
Ao concluir, Dom Ricardo exortou os presentes: “que saiamos daqui convencidos de que nenhuma criança pode ser invisível para a Igreja. Nenhuma criança pode ser esquecida. Nenhuma violência pode encontrar abrigo em nosso silêncio. Nenhum sofrimento infantil pode ser considerado problema dos outros”.
Crianças reconhecidas como participantes da evangelização
Na abertura dos trabalhos, o subsecretário adjunto de Pastoral da CNBB, Padre Tiago Ávila Camargo, também chamou a atenção dos articuladores para a necessidade de reconhecer o lugar das crianças na caminhada eclesial. Segundo ele, o processo da CF 2027 pede atenção especial das Igrejas locais, organismos e diferentes serviços eclesiais para que as crianças sejam reconhecidas também como participantes da evangelização. Nesse sentido, o sacerdote destacou a importância de saber escutá-las e de construir com elas um caminho conjunto.
Comissão Pontifícia se une à Campanha da Fraternidade
Em mensagem de vídeo enviada aos participantes, o secretário da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menoress, Dom Luís Manuel Ali Herrera, manifestou a adesão do organismo Vaticano à proposta da Campanha da Fraternidade de 2027. O bispo recordou que a Comissão Pontifícia recebeu do Papa a missão de acompanhar as Igrejas locais na implementação de diretrizes e protocolos de prevenção e proteção.
“Para nós, como Comissão Pontifícia, temos o mandato do Santo Padre de acompanhar todas as Igrejas particulares para a implementação de suas linhas-guias, de seus protocolos de prevenção”, afirmou.
O secretário destacou especialmente o lugar ocupado pelas pessoas que sofreram abusos nos processos de salvaguarda desenvolvidos pela Igreja. “Para nós, sempre, no centro estão as vítimas e os sobreviventes”, ressaltou.
Ao referir-se diretamente à CF 2027, o secretário associou o tema da Campanha à tutela e à salvaguarda de crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis e manifestou a proximidade da Comissão Pontifícia com a iniciativa da Igreja no Brasil.
“Nós nos unimos a ela e também desejamos um ano de muitas bênçãos e de frutos espirituais e pastorais”, afirmou.
Identidade visual aproxima a Campanha do universo infantil

Os participantes também conheceram elementos da identidade visual da Campanha da Fraternidade 2027. A proposta foi desenvolvida para permitir sua utilização em diferentes contextos e formatos e favorecer que crianças, escolas e comunidades possam se apropriar da identidade de maneira criativa. A composição utiliza recortes e colagens de papel, fotografias de crianças e referências à família, fé, educação e aos valores cristãos. Cores vibrantes, tipografia de caráter lúdico e traços inspirados nos desenhos infantis procuram comunicar alegria, esperança, acolhimento e desenvolvimento integral.
Entre os elementos gráficos estão a casa, a cruz, o coração, o livro, a pomba, a flor, a bola, a borboleta, a pipa e o arco-íris. Símbolos que procuram expressar os eixos que deverão atravessar a CF 2027: cuidado, acolhimento, proteção, fé e esperança.
“A Campanha da Fraternidade nunca acaba”
O primeiro dia do Seminário também reservou espaço para uma avaliação da Campanha da Fraternidade 2026, dedicada ao tema da moradia. A partilha apresentou iniciativas que nasceram ou foram fortalecidas a partir da mobilização nacional e reforçou uma compreensão presente no encontro: uma Campanha da Fraternidade não se encerra quando começa a seguinte. Entre os desdobramentos mencionados estiveram a formação de equipes ligadas à Pastoral da Moradia, novas articulações com universidades e instituições públicas e iniciativas concretas de construção e reforma de moradias. A avaliação ressaltou ainda a necessidade de manter acompanhamento permanente das realidades trabalhadas pela Campanha, evitando que a mobilização se limite ao período da Quaresma.
“A Campanha da Fraternidade nunca acaba”, destacou o secretário-executivo de Campanhas da CNBB, Padre Jean Poul Hansen, durante a avaliação. A reflexão recordou que, enquanto houver famílias sem moradia digna, por exemplo, os compromissos assumidos pela CF 2026 permanecem atuais. “Nós não acabamos uma para começar a outra. Nós vamos acumulando campanhas, uma após a outra.”
Seminário segue até domingo
O Seminário Nacional prossegue até domingo, 27, com conferências, momentos de reflexão e aprofundamento dos diferentes aspectos que compõem a CF 2027. Os participantes deverão posteriormente atuar como multiplicadores do processo nos Regionais e nas Igrejas locais.
Na abertura, Dom Ricardo sintetizou o horizonte esperado para esse percurso: fazer da Campanha mais do que uma mobilização temática e transformá-la em um compromisso que atravesse a vida das comunidades.
“Que este encontro nos ajude a transformar a Campanha da Fraternidade de 2027 em um grande movimento nacional de acolhida, escuta, proteção e cuidado das crianças”, disse.
Fonte: CNBB




