‘Da ceia do Pessach à Eucaristia’: evento une judeus e católicos para um diálogo de fé

O Cardeal Odilo Pedro Scherer, participou virtualmente da conferência do Congresso Judaico Latino-Americano

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Com a proximidade da celebração da Páscoa, tanto a dos católicos quanto a dos judeus (para estes, chamada de Pessach), um grupo de mais de 30 líderes religiosos judeus e católicos da América Latina, composto de rabinos, arcebispos, bispos e padres – entre eles, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo –, se reuniu virtualmente, no dia 16, para participar de uma conferência do Congresso Judaico Latino-Americano.

Tendo como tema “Da ceia do Pessach à Eucaristia”, o objetivo do evento foi refletir, de maneira informal, acerca do entrelaçamento singular que tais festividades conferem a ambas as tradições religiosas, e, assim, estreitar os laços e a convivência, estimulando o diálogo entre judeus e católicos.

ABERTURA

O Congresso foi aberto com uma mensagem em vídeo, gravada previamente, do Cardeal Kurt Koch, Presidente da Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, por meio da qual manifestou seu apoio e alegria à iniciativa.

Em seguida, houve uma breve explanação, pelo Rabino Marcelo Polakoff, sobre o significado do pão e do vinho na ceia do Pessach, na perspectiva judaica, e, logo depois, pelo Padre Rafael Velazco, a respeito do sentido da hóstia e do vinho na Eucaristia, na ótica católica.

DINÂMICA

No momento seguinte, os participantes do Congresso foram divididos em seis grupos, previamente estabelecidos, e cada um deles, composto de cinco integrantes, foi colocado em salas virtuais distintas. Os grupos tinham que debater a respeito daquilo que consideravam importante sobre o assunto, e um representante de cada um deles deveria sintetizar as principais ideias e apresentá-las posteriormente, em dois minutos, quando todos os participantes estivessem novamente presentes na sala principal.

PRINCIPAIS IDEIAS

Diante do que cada grupo apresentou aos demais, pode-se fazer a seguir um apanhado da riqueza do que foi a troca de ideias entre judeus e católicos.

As festividades das duas tradições religiosas têm em comum o fato de serem comunitárias e representarem uma partilha. No caso do pão e do vinho, trata-se de elementos rituais que não são produzidos sozinhos, isto é, ninguém os produz somente para si mesmo, além do fato de sua elaboração ser pensada no conjunto, ou seja, destinada aos demais, sendo a prova disso o fato de que é preciso sentar- -se ao redor de uma mesa, na sinagoga ou na igreja, para compartilhá-los.

Em ambas as religiões, há quatro palavras-chave: liberdade, memória, pão e vinho. Liberdade porque o Pessach e a Páscoa cristã se baseiam na ideia da libertação do homem, do povo da escravidão, do pecado e da morte, e, portanto, é preciso lembrar-se da escravidão do passado para apreciar a liberdade, bem como da realidade do mal e do pecado que é preciso conhecer para combater. Assim, o tema da memória se faz presente e a questão passa a ser a capacidade de a geração atual transmitir às gerações futuras a memória do que foi vivido, desde a libertação do Egito até todas as ações de Deus ao longo da história, fato que se refere igualmente ao que se entende por memória em relação à Eucaristia e suas implicações na vida futura, em Deus.

MEMÓRIA E SALVAÇÃO

O simbolismo que existe nas práticas religiosas de judeus e católicos deve despertar e motivar a ideia de que o rito só tem sentido se for capaz de transmitir um valor. Neste caso, o valor que se transmite nos dois ritos é, definitivamente, a ajuda ao ser humano, no espírito de serviço, tão bem demonstrado por Jesus ao lavar os pés dos seus discípulos como servidor de Deus.

Ambas as religiões não fazem memória de uma ideia, de uma doutrina, mas de uma história, de uma experiência, que foi transformada pela ação de Deus, demonstrada tanto na libertação do Egito como na libertação do pecado e da morte por meio de Cristo. Isso faz com que todos se sintam comprometidos a responder a esta fidelidade de Deus, que é uma fidelidade histórica, à qual só se pode responder com ações.

Portanto, o rito não pode ser algo vazio, mas deve levar a um compromisso. É preciso, pois, recordar, visto que a lembrança de uma memória é fazer presente um mistério de salvação. Por isso, ao celebrar este dom e esta Páscoa, faz-se um memorial, uma bênção e um sacrifício. Memorial porque se trata de um sacramento, um signo vivo. Bênção porque é um dom de Deus, de uma nova vida. E sacrifício, oferecido por todos os homens e que há de unir toda a humanidade. Por isso é que se insiste que o Papa Francisco, com sua ideia de Igreja em saída, que vai ao encontro, para comunicar vida, servir e ajudar, é a concretização do rito celebrado.

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