
Longe dos holofotes das campanhas sazonais de conscientização, o relógio biológico de milhares de brasileiros corre em um ritmo implacável à espera da doação de órgãos.
Todos os dias, mais de 49,5 mil pessoas no Brasil enfrentam a angústia de aguardar um telefonema que representa a fronteira entre a vida e a morte. Esse cenário ganha contornos complexos diante de um paradoxo nacional: possuidor do maior sistema público de transplantes do mundo, o País ainda esbarra no silêncio e na desinformação cotidiana que alimentam a recusa familiar à doação.
Assim, conscientizar e incentivar as pessoas a expressar essa vontade ainda em vida às suas famílias é essencial para desmistificar o processo de doação e, principalmente, salvar a vida de quem aguarda por um transplante.
“Nós procuramos esclarecer dúvidas, combater preconceitos, e, principalmente, incentivar pessoas a ter esse diálogo com a família sobre o seu desejo de se tornarem doadores”, assegura Rielly de Sousa e Silva, médica especialista em transplante de fígado do Hospital Israelita Albert Einstein, na zona Sul da capital paulista.
AVANÇOS, COM OBSTÁCULOS
Em 2025, o Brasil alcançou o patamar histórico de mais de 31 mil transplantes realizados. Entre os procedimentos, o transplante de córnea liderou as estatísticas, com mais de 17 mil cirurgias.
Os números refletem a recuperação do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), tanto após os impactos provocados pela pandemia de COVID-19 quanto pelos investimentos realizados nos últimos anos para ampliar a captação de órgãos, fortalecer as equipes e aprimorar a logística de distribuição em todo o território nacional.
Apesar do avanço, ainda há obstáculos significativos, como a desigualdade na oferta de órgãos entre as diferentes regiões brasileiras e, sobretudo, a elevada recusa familiar à doação de órgãos e tecidos.
Muitos dos que aguardam por um transplante não conseguem um doador a tempo: no Brasil, 4.102 pessoas morreram no ano passado enquanto permaneciam à espera de um órgão.
Embora o País possua um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo, com 87% deles feitos com recursos governamentais, e conte com uma central nacional no Ministério da Saúde, 26 centrais estaduais e uma distrital, 650 hospitais, mais de 1,25 mil serviços e 1,66 mil equipes médicas habilitadas, e tenha alcançado o recorde no ano passado, com 4.335 doadores efetivos, 45% das famílias consultadas recusaram a doação após a morte de seus entes, conforme dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).
VIDA TRANSFORMADA

A argentina Rosita Velettri, 75, moradora do bairro do Morumbi, em São Paulo, foi diagnosticada em 1996 com uma doença hereditária relacionada ao gene LMNA, que causa bloqueio do estímulo elétrico no coração.
“Descobri que possuía a doença quando estava com 45 anos. Aos 51, coloquei um marca-passo para ajudar na baixa frequência do coração e tive de trocá-lo anualmente até os 73 anos. No entanto, minha condição só piorava e, junto com o último marca-passo instalado, recebi um desfibrilador”, detalha Rosita.
Em dezembro de 2023, ela sofreu um AVC em virtude de um coágulo que se formou no coração. Foi operada e, em janeiro do ano seguinte, teve influenza e a doença atacou seu coração, ocasionando 14 paradas cardíacas consecutivas em apenas 40 minutos. Só não faleceu por possuir um marca-passo com desfibrilador. Desde então, seu coração ficou ainda mais comprometido e ninguém sabia como tratá-lo.
Em 4 de julho de 2024, ela não se sentiu bem, foi internada e passou por um cateterismo. O resultado do exame indicou que a condição do seu coração era crítica. Foi-lhe oferecida a oportunidade de receber um novo órgão e, dada a gravidade do caso, ganhou prioridade na fila de transplantes. Pouco tempo depois, surgiu um coração compatível.
Em agosto daquele ano, recebeu um novo coração e permaneceu internada até meados de outubro. Hoje, dois anos após o transplante, é uma pessoa ativa, independente e até já participou de uma corrida de rua para transplantados.
DOAR-SE PELO PRÓXIMO

“Foi a maior experiência de Deus que já senti em toda a minha vida!”, relata a teóloga Maria Tereza Papa, 79, a respeito de ter doado, há 34 anos, um rim a um familiar.
Amedeo, cunhado de Maria Tereza, vivia uma condição renal delicada e precisava de um transplante. Ela, com alegre disposição em ajudá-lo, se voluntariou para ser doadora. Feitos os exames, veio a boa notícia: eram compatíveis e ela estava disposta a seguir em frente.
Os pais de Maria Tereza, porém, foram contrários a que fizesse a doação, alegando que ela, com quatro filhas e possíveis futuros netos, precisaria manter-se com o órgão se acaso um dia precisasse doá-lo a alguém de seu núcleo familiar mais próximo.
Na dúvida sobre o que fazer, procurou Dom Emílio Pignoli, então Bispo de Campo Limpo, e dele escutou: “Minha filha, se eu tivesse acatado todos os ‘nãos’ que recebi de meus pais, não teria sido padre e hoje não seria bispo! Se você tem o desejo de doar um rim para ajudar um familiar, vá em frente! Como disse Jesus, ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”.
Após o transplante, já sem os efeitos da anestesia, quando soube que o cunhado havia conseguido voltar a urinar, assim foi a reação de Maria Tereza: “Senti uma alegria tão extraordinária e diferente de tudo o que já havia vivido até então que não me importaria se morresse naquele momento. Nunca agradeci tanto a Deus! Se você doa vida, recebe vida! O céu é isso!”
Maria Tereza afirma que não enfrentou problema de saúde algum em virtude da doação do rim. “Nunca tive uma infecção urinária sequer e continuo muito saudável até hoje”.
PANORAMA NO BRASIL E NO MUNDO
Para comparar o que acontece nos outros países com a realidade brasileira, a métrica mais adequada é o número de doadores falecidos efetivos por milhão de habitantes (pmp) e não o número absoluto de transplantes. Do contrário países com grandes populações ficariam artificialmente favorecidos.
De acordo com dados doIRODaT (International Registry in Organ Donation and Transplantation) e do GODT (Global Observatory on Donation and Transplantation), o ranking mundial de doadores falecidos de órgãos por milhão de habitantes (pmp) é o seguinte: Espanha – 51,9; Estados Unidos – 47,9; Islândia – 37,5; Bélgica – 35,76; Portugal – 35,58; República Tcheca – 32,17; Itália – 30,86; Lituânia – 29,64; Belarus – 28,78 e Croácia – 28,21. O Brasil ocupa a 21ª posição, com 20,37, e é o pais mais bem colocado da América Latina.
No Brasil, em dezembro do ano passado, 73.877 pacientes estavam ativos na lista de espera de transplantes, considerando também quem aguardava por córneas, medula óssea, pele, ossos, cartilagens, válvulas cardíacas e tendões. O Ministério da Saúde contabiliza separadamente os pacientes que esperam por órgãos sólidos (coração, rins, fígado, pulmões, pâncreas e intestino), número que em 2026 passa de 49,5 mil pessoas.
A FAMÍLIA DO DOADOR TEM A PALAVRA FINAL

A respeito da doação de órgãos, a legislação brasileira afirma que pode acontecer em duas circunstâncias: a primeira é com o doador vivo, quando estiver saudável e em condições para que o procedimento não prejudique sua saúde (transplante intervivos). A outra é com o doador falecido (atestado com morte cerebral ou morte por parada cardíaca), condição em que a retirada de seus órgãos e tecidos depende da permissão da família. Mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida o desejo de doar, os familiares precisam autorizar o procedimento após a confirmação da morte. Não há, portanto, um documento ou cadastro da pessoa falecida que substitua essa decisão familiar, ou seja, se não houver autorização, a doação não se concretiza.
“Apostar no diálogo com as pessoas é fundamental, já que quem autoriza a doação é a família. Ela é abordada no momento em que perdeu o parente mais querido e, diante da alta recusa em doar, fica evidente que há um tabu de não se conversar em vida sobre a morte”, comenta a doutora Rielly.
COMBATE AOS MITOS
Um estudo feito no fim de 2024 pelo Hospital das Clínicas de São Paulo apontou que há muitos mitos associados à doação de órgãos, como a confusão que é feita entre a morte encefálica e o coma, juntamente com a crença de que, com a doação, o corpo ficaria desfigurado e isso poderia retardar o velório do indivíduo. Além disso, entre os fatores que aumentam a recusa em doar órgãos estão o medo da mutilação do corpo, crenças religiosas e a ideia equivocada de que condições de saúde impedem o ato.
Especialistas asseguram que o corpo do doador é tratado com respeito e cuidado durante o processo, sem mutilação, permanecendo com aspecto normal depois da doação e podendo ser velado em caixão aberto.
Outro ponto a ser levado em consideração é que a maioria das religiões é favorável à doação de órgãos – como é o caso da Igreja Católica Apostólica Romana (leia no texto abaixo) – e mesmo quando não há uma posição oficial, não existe uma proibição.
Além disso, é a equipe médica que avalia as condições de saúde do possível doador e doenças preexistentes nem sempre são impeditivas. Dessa forma, a conscientização acerca da temática é importante, uma vez que, para algumas pessoas, o órgão a ser doado é vital para a sobrevivência.
O que diz a Igreja Católica sobre a doação de órgãos?

O magistério da Igreja se manifesta favorável à doação voluntária de órgãos. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) afirma que o transplante de órgãos está em conformidade com a lei moral se os riscos e os danos físicos e psíquicos a que se expõe o doador são proporcionais ao bem que se busca para o destinatário (cf. CIC 2296). Ainda neste mesmo parágrafo, o texto destaca que a doação de órgãos após a morte do doador é um “um ato nobre e meritório”, que pode e deve ser encorajado “como uma manifestação de generosa solidariedade”.
A encíclica Evangelium Vitae (EV) ensina: “Merece particular apreço a doação de órgãos feita segundo normas eticamente aceitáveis para oferecer possibilidades de saúde e de vida a doentes, por vezes já sem esperança” (EV 86). São João Paulo II, por ocasião do 18º Congresso Internacional sobre Transplantes de Órgãos, afirmou: “A doação de órgãos é uma decisão livre de oferecer, sem recompensa, uma parte do próprio corpo em benefício da saúde e do bem-estar de outra pessoa” (Roma, 29/08/2000).
O então Cardeal Joseph Ratzinger, antes de assumir o pontificado, possuía uma carteira de doador de órgãos. Como papa, Bento XVI continuou a incentivar a prática como uma manifestação de amor ao próximo.
O Papa Francisco, durante uma audiência em abril de 2019 com 400 membros da Associação Italiana de saúde e de vida a doentes, por vezes já sem esperança” (EV 86). São João Paulo II, por ocasião do 18º Congresso Internacional sobre Transplantes de Órgãos, afirmou: “A doação de órgãos é uma decisão livre de oferecer, sem recompensa, uma parte do próprio corpo em benefício da saúde e do bem-estar de outra pessoa” (Roma, 29/08/2000).
O então Cardeal Joseph Ratzinger, antes de assumir o pontificado, possuía uma carteira de doador de órgãos. Como papa, Bento XVI continuou a incentivar a prática como uma manifestação de amor ao próximo.
O Papa Francisco, durante uma audiência em abril de 2019 com 400 membros da Associação Italiana de Doadores de Órgãos, sublinhou que doar um órgão é uma “expressão de fraternidade universal” que conecta a humanidade por meio do altruísmo desinteressado. Ele lembrou que, ao realizar a doação, a pessoa abre mão do individualismo para cooperar com o bem comum e a esperança de outro ser humano.
O Papa Leão XIV, em pronunciamento recente à Rede Nacional de Transplantes, destacou o valor imensurável da gratuidade desse gesto “em uma época em que tudo corre o risco de ser avaliado segundo a lógica do preço ou do interesse”. Ele reiterou que o ato une a extrema generosidade humana à profunda responsabilidade moral.



