Dom Edmar Peron detalha os trabalhos da tradução brasileira do Missal Romano

A partir do 1º Domingo do Advento, em 3 de dezembro, em todas as missas celebradas no Brasil passará a ser obrigatório o uso da tradução brasileira da 3ª edição típica do Missal Romano, o livro no qual consta todo o rito da celebração da Eucaristia.

Nesta entrevista ao O SÃO PAULO, Dom Edmar Peron, Bispo de Paranaguá (PR) e que presidiu a Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB de 2019 a 2023, explica o processo da tradução brasileira do Missal Romano e as principais mudanças que serão percebidas pelos celebrantes e fiéis.

O SÃO PAULO – De modo simplificado, o que é o Missal Romano?

Dom Edmar Peron – A Igreja crê aquilo que celebra, e é muito zelosa com a fé no mistério eucarístico. O Missal é o livro que contém as palavras e os gestos, isto é, os ritos que fazem a mediação para que a comunidade de fé entre consciente, ativa e frutuosamente no mistério eucarístico.

A Eucaristia também é mistério de comunhão, tanto que uma das expressões da nossa celebração é ‘Fazei de nós um só corpo e um só espírito’. Nós pedimos ao Espírito Santo para que o pão e o vinho sejam transformados no Corpo e Sangue do Senhor e, em seguida, pedimos ao mesmo Espírito Santo para que as pessoas que comungarem do mesmo Pão eucarístico formem um único Corpo, a Igreja.

O Missal garante aquilo que a Igreja acredita a respeito da Eucaristia e o jeito de celebrar o mistério da Eucaristia, realizando, portanto, não só a comunhão entre os membros de uma comunidade celebrante, mas, também, a comunhão de toda a Igreja.

Muitos têm chamado essa tradução de novo Missal. Isto é correto? 

O Concílio de Trento, no século XVI, impôs um novo missal a toda a Igreja, fazendo com que deixassem de ser utilizados os numerosos missais que existiam até então, e se passasse a rezar em todas as comunidades e nações com um único missal, em uma única língua, o latim, e em um único rito. Passados cerca de 400 anos, houve a edição do missal pós-conciliar, que era, este sim, um novo missal, com uma nova forma de celebrar a missa, incluindo a língua falada em cada local, as preces, a homilia, a concelebração, a comunhão sob as duas espécies. Agora, nós não estamos inaugurando um novo modo de celebrar o mistério eucarístico, mas, sim, oferecendo às comunidades a tradução da 3ª edição do Missal Romano pós-Concílio Vaticano II. Portanto, não se deve falar que este é um novo Missal.

Por que se passaram quase duas décadas até que se chegasse a esta tradução brasileira?

A tradução da 3ª edição do Missal Romano compete a cada uma das conferências episcopais. Assim, se encarregou um grupo de pessoas para fazer a tradução dos textos, como peritos, pessoas versadas na língua portuguesa, na língua latina e na nossa cultura brasileira. Cada etapa traduzida precisou ser votada pela Assembleia Geral da CNBB. A cada ano, se trabalhava uma parte; o texto traduzido era apresentado aos bispos, eles faziam suas considerações e na Assembleia Geral havia a votação. Após termos votado cada parte do Missal nas assembleias, ainda fizemos uma votação geral do texto antes de enviá-lo a Roma, que confirmou a tradução no último mês de março. Este trabalho de tradução foi feito pela Comissão Episcopal para os Textos Litúrgicos (CETEL), mas sempre gosto de afirmar que o texto não pertence a esta comissão, e sim à CNBB, pois não é o texto de um grupo, mas da Igreja no Brasil.

Por que de tempos em tempos é necessário atualizar o texto do Missal Romano?

O Espírito Santo é a alma da Igreja e faz com que ela seja um organismo vivo. Assim, de tempos em tempos, as mudanças são necessárias para incorporar novas legislações, novas maneiras de celebrar os santos. Por exemplo: na instrução geral anterior a esta 3ª edição do Missal, se dizia que à frente da procissão de abertura da missa vai uma cruz processional; já esta edição esclarece que à frente vai a cruz processional com o Cristo crucificado. Também foi acrescentado um capítulo todo sobre adaptação, algo que não existia. Outra situação: no modo de celebrar a data litúrgica de Santa Marta, o Papa Francisco entendeu que a festa de Santa Marta deveria ser a dos santos irmãos – Marta, Maria e Lázaro, e, assim, os textos dessa festividade passaram a incluir os irmãos. Também a celebração de Santa Maria Madalena foi elevada ao grau de festa, com todos os textos próprios, inclusive o prefácio. Portanto, esta edição do Missal incorporou a legislação litúrgica e elementos novos no modo de celebrar os santos.

Qual foi o critério para o acréscimo dos nomes de santos e beatos nesta 3ª edição?

Desde a primeira edição do Missal, é o documento pós-conciliar Mysterii Paschalis – de 1969, com normas universais do ano litúrgico e o calendário romano geral – que regula a composição do calendário dos santos. Lembro, ainda, que um santo só vai para o calendário geral se assim desejar o papa. O Papa Francisco, por exemplo, mandou inserir no calendário litúrgico universal São Paulo VI e São João Paulo II. Há, porém, milhares de santos que não entraram nesta edição do Missal, e no caso dos beatos, normalmente eles são venerados apenas na região onde são conhecidos, na sua diocese de origem, na sua ordem religiosa ou congregação.

De que maneira essa edição do Missal torna mais claro e compreensível os conteúdos do texto original em latim à língua portuguesa falada no Brasil?  

Essa não é uma questão tão simples, mas posso testemunhar que quando se falou na 3a edição do Missal romano, se pensava apenas em traduzir os novos textos que haviam sido inseridos, portanto, seria algo rápido. Porém, no documento de promulgação desta 3a edição, o Papa João Paulo II mandou fazer uma revisão de toda a tradução da 2a edição, esta que ainda estamos utilizando. Destaco, ainda, que as pessoas que foram envolvidas ao longo das décadas na tradução brasileira do Missal eram especialistas em latim, língua portuguesa, e preocupadas com o modo de rezar as orações, com o significado das palavras em cada uma das regiões do País. Foi, portanto, um trabalho lento, metódico, feito com grande paciência e paixão, a fim de adequar o texto latino à nossa língua portuguesa.

Quais são as principais mudanças que serão percebidas pelos fiéis?

Uma das mudanças é que em todas as missas entre a Quarta-feira de Cinzas e a quarta-feira da Semana Santa há uma oração de bênção sobre o povo. Isto estava presente no missal de São Pio V e foi recuperado nesta 3ª edição. Trata-se de uma oração facultativa, mas muito rica, explicitando o caminho quaresmal que vai sendo feito em direção à Páscoa.

Muitos também irão perceber no próprio Missal que há textos que dizem respeito aos seus santos de devoção. Por exemplo, agora está no Missal a oração coleta de Santa Rita que antes não constava.

Outra mudança é que no momento de rezar o “Confesso a Deus”, o latim coloca por três vezes a expressão “minha culpa”, de modo que agora está “por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa”, como já o é na tradução do Missal de Portugal e em outros países de língua portuguesa.

Destaco, também, que na aclamação da assembleia após a narrativa da instituição da Eucaristia, há uma introdução específica para cada aclamação memorial: “Mistério da fé”, “Mistério da fé e do amor”, “Mistério da fé para a salvação do mundo”.

Estão previstas formações sobre a 3ª edição do Missal?

Há muitas iniciativas sendo organizadas pelo regionais da CNBB e as dioceses. Não há, porém, um projeto único de formação. O que se pensou foi produzir alguns vídeos promovendo o Missal, e eu mesmo tenho feito muitas lives a respeito, como uma recente para o Regional Sul 2 da CNBB, acessível pelo Youtube.

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Ederval Luis Marchezam
Ederval Luis Marchezam
8 meses atrás

DEUS seja Louvado
Para Sempre seja Louvado.