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E o que seria da cidade sem os catadores de material reciclável?

E o que seria da cidade sem os catadores de material reciclável? - Jornal O São Paulo
Ancat

Arrastando grandes sacolas (bags) ou conduzindo carroças e carrinhos de supermercado por muitos quilômetros em diferentes topografias, os catadores de material reciclável, também atu­antes nas cooperativas de reciclagem, colaboraram para mitigar os impactos gerados pela “lógica do ‘usa e joga fora’ que produz tantos resíduos, só pelo desejo desordenado de consumir mais do que realmente se tem necessidade”, como escreveu o Papa Francisco na encíclica Laudato si’ (LS 123).

Em todo o Brasil, conforme o Pa­norama dos Resíduos Sólidos de 2024, apenas 8,3% dos resíduos com poten­cial de reciclagem são de fato recicla­dos, um percentual que só não é me­nor graças ao trabalho dos catadores, uma vez que os municípios, com seus serviços de coleta seletiva, apanharam apenas 4% dos recicláveis em 2022.

A profissão de catador de material reciclável é reconhecida pela Clas­sificação Brasileira de Ocupações (CBO 519205). Os principais cole­tivos desta categoria – a Associação Nacional de Catadores (Ancat), o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) e a Unicatadores – estimam que 1 milhão de pessoas atuam neste ofício no Bra­sil, seja como profissionais formais, seja como informais.

“A percepção da maioria das pesso­as sobre os catadores melhorou bas­tante. Há 20 anos, existia um certo medo do ‘homem da carroça’. Hoje, o reconhecimento da sociedade em relação aos catadores, promovido por políticas e movimentos, é mais evidente. No entanto, ainda falta o reconhecimento do pagamento pe­los serviços para que possamos ser verdadeiramente valorizados na ca­deia da reciclagem”, avaliou, ao O SÃO PAULO, Roberto Rocha, 29, catador de material reciclável e pre­sidente da Ancat.

Entre lutas e conquistas

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Roberto Rocha

Conforme dados do Diagnóstico sobre Catadores de Resíduos Sólidos, publicado em 2012 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 90% dos resíduos reciclados no Brasil passam pelas mãos de catadores.

Há décadas, os coletivos de catado­res têm lutado por políticas públicas para que a categoria seja efetivamente inserida e reconhecida na cadeia de re­ciclagem. Uma das conquistas foi que na Política Nacional de Resíduos Só­lidos (Lei 12.305/2010), os catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis estão mencionados nas ações que en­volvam a responsabilidade comparti­lhada pelo ciclo de vida dos produtos, e se prevê incentivo à criação e desen­volvimento de cooperativas e outras formas de associação de catadores.

Também o Acordo Setorial de Embalagens, de 2015, destaca a par­ticipação dos catadores para a correta gestão desses resíduos. Igualmente o Sistema de Logística Reversa de Em­balagens de Plástico no Brasil (Decre­to Federal 2.688/2025), que determina metas progressivas de recuperação de embalagens – de 32% em 2026 para 50% até 2040 – menciona a prioriza­ção da contratação de cooperativas de catadores.

Em dezembro de 2025, o Governo Federal instituiu o Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popu­lar (Pronarep), que prevê apoio finan­ceiro, técnico, estrutural, econômico e social aos catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis, bem como às cooperativas, associações, redes ou outras formas de organização popular.

Roberto Rocha destaca que o Pro­narep é fruto de anos de luta da catego­ria, e lembra que o programa “deverá atender todos os catadores, indepen­dentemente de estarem em coopera­tivas ou de atuarem de forma autô­noma, proporcionando investimentos que potencializem sua atuação”.

O presidente da Ancat menciona, ainda, o acordo entre a instituição e a Caixa Econômica Federal, que criou a Plataforma Caixa de Ativos de Sus­tentabilidade, com vistas a “expandir os créditos de logística reversa, permi­tindo que os catadores, ao venderem um material, gerem um crédito. Atu­almente, apenas cooperativas podem acessar esses créditos, mas queremos que catadores autônomos, que são a maioria, também possam fazê-lo”.

Uma cultura que descarta resíduos e pessoas

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Esta edição do Caderno Laudato si’- por uma Ecologia Integral dá voz aos catadores de materiais recicláveis em São Paulo, a fim de entender seus anseios e dificuldade. Também se des­taca o Recifran, serviço de inclusão social e produtiva mantido pelo Sefras – Ação Social Franciscana, no qual o trabalho com a reciclagem ajuda a re­construir histórias de vida; e, por fim, é mostrado que o descartável pode ser matéria-prima para se fazer arte.

As narrativas apresentadas nas pá­ginas a seguir fazem ressoar muitos dos apontamentos feitos pelo Papa Francisco em sua encíclica sobre o cui­dado da Casa Comum, entre os quais a “cultura do descarte, que afeta tanto os seres humanos excluídos quanto as coisas que se convertem rapidamente em lixo” (LS 22); a urgência de ações políticas locais “para a alteração do consumo e o desenvolvimento de uma economia de resíduos e reciclagem” (LS 180); e a busca de “um percurso de desenvolvimento produtivo mais criativo e mais bem orientado [que poderia] gerar formas inteligentes e rentáveis de reutilização, recuperação funcional e reciclagem” (LS 192).

Estes apelos, ainda muito atuais passados 11 anos da publicação da encíclica, também reforçam o cha­mado feito pelo Papa Leão XIV ao inaugurar em Castel Gandolfo, em se­tembro de 2025, o Borgo Laudato Si’, um centro de formação em ecologia integral e sustentabilidade: “O cuida­do da criação representa uma verda­deira vocação para cada ser humano, um compromisso a desempenhar no âmbito da própria criação, sem nunca esquecer que somos criaturas entre as criaturas, não criadores”.

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