
Na era da informação, o que não faltam são dados, estudos e notícias a respeito do impacto da ação humana sobre o meio ambiente. O aumento das problemáticas ambientais, contudo, evidencia algo que o Papa Francisco, já em 2015, indicava na encíclica Laudato si’ (LS): para se alcançar a desejável “cidadania ecológica”, não basta informar sobre o problema, mas sim fomentar mudanças de hábitos, o que passa pela educação ambiental (cf. LS 211).
Também o Papa Leão XIV, na carta apostólica “Desenhar Novos Mapas de Esperança”, de outubro de 2025, apontou que “a responsabilidade ecológica não se esgota em dados técnicos. Estes são necessários, mas insuficientes. É necessária uma educação que envolva a mente, o coração e as mãos; novos hábitos, estilos comunitários, práticas virtuosas”.
Nas últimas décadas, esta temática tem ganhado destaque no Brasil, especialmente após a instituição, em 1999, da Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) – Lei 9.795 – que passou por aprimoramentos em 2024 para a inserção, nos currículos escolares, de temas alusivos às mudanças climáticas, à proteção da biodiversidade e aos riscos e emergências socioambientais no Brasil.
DEFINIÇÃO E RESPONSABILIDADES
Na PNEA, a educação ambiental é definida como os processos por meio dos quais cada pessoa e a coletividade constrói “valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade” (art. 1º).
Entre os objetivos fundamentais da educação ambiental, listados no artigo 5º desta lei, estão o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; a garantia de democratização das informações ambientais; o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social; e o incentivo à participação individual e coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio ambiente, entendendo-se a defesa da qualidade ambiental como um valor inseparável do exercício da cidadania.
O artigo 3º da PNEA aponta que a educação ambiental é tarefa do poder público, mas que também devem promovê-la os meios de comunicação, empresas, entidades de classe, enfim, toda a sociedade, com atenção permanente “à formação de valores, atitudes e habilidades que propiciem a atuação individual e coletiva voltada para a prevenção, a identificação e a solução de problemas ambientais”.

SOB A ÓTICA CRISTÃ
No capítulo VI da encíclica Laudato si’, o Papa Francisco trata especialmente da educação ecológica. Ele observa que hoje já há uma maior consciência ambiental entre aqueles que têm buscado mudanças nos estilos de vida e de consumo (cf. LS 206), mas insiste que, perante a gravidade da atual crise cultural e tecnológica, deve haver alterações de hábitos, como já têm feito, em alguns países, jovens que lutam pela defesa do meio ambiente, “mas que cresceram em um contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação de outros hábitos. Por isso, estamos perante um desafio educativo” (LS 209).
Francisco ressalta que, se antes a educação ambiental centrava-se na informação científica e na consciencialização e prevenção dos riscos ambientais, “agora tende a incluir uma crítica dos ‘mitos’ da modernidade baseados na razão instrumental (individualismo, progresso ilimitado, concorrência, consumismo, mercado sem regras) e tende também a recuperar os distintos níveis de equilíbrio ecológico: o interior consigo mesmo, o solidário com os outros, o natural com todos os seres vivos, o espiritual com Deus” (LS 210).
Em sua encíclica sobre o cuidado da casa comum, o Papa Francisco também destaca que somente se doa em um compromisso ecológico quem cultiva virtudes sólidas e passa a cuidar da criação com pequenas ações diárias, motivadas, justamente, por uma educação que forma um estilo de vida: “A educação na responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos que têm incidência direta e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias…” (LS 211).
MISSÃO COMPARTILHADA
Esta edição do Caderno Laudato si’ – por uma Ecologia Integral trata da educação ambiental, também olhando para a realidade da cidade de São Paulo, na qual há 20 anos existe a Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (Umapaz), e, mais recentemente, o Plano Municipal de Educação Ambiental (PMEA 2024-2034). Também é destacado o trabalho da “Planta Feliz”, uma iniciativa de impacto educacional e socioambiental que transforma resíduos em adubo orgânico.
O papel da família é igualmente enfatizado; afinal, é no seio familiar que se cultivam “os primeiros hábitos de amor e cuidado da vida, como, por exemplo, o uso correto das coisas, a ordem e a limpeza, o respeito pelo ecossistema local e a proteção de todas as criaturas” (LS 213). Por isso, esta edição apresenta uma síntese das recentes orientações da Igreja no documento “A Ecologia Integral na Vida da Família”.
Nas escolas, nas famílias e nas políticas públicas, será sempre atual o alerta do Papa Francisco: “Se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também em difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza” (LS 215).

