
A educação financeira é um tema de crescente atenção no Brasil; afinal, o endividamento atinge 71,7 milhões de pessoas, conforme dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) do mês de agosto, gerando impactos macroeconômicos.
A inclusão deste tema no currículo escolar é vista por educadores como um passo fundamental para a formação de cidadãos conscientes.
DA TRANSVERSALIDADE À DISCIPLINA OBRIGATÓRIA
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabeleceu a educação financeira como um tema transversal. O assunto deve permear diversas disciplinas, como Matemática, História e Geografia, contextualizando o dinheiro e o consumo em dimensões culturais, sociais e políticas.
O Ministério da Educação (MEC) criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) e o Fórum Brasileiro de Educação Financeira (FBEF) em 2020. Também lançou o Programa Na Ponta do Lápis (Portaria nº 502/2025), com o objetivo de garantir que os estudantes compreendam criticamente as relações econômicas e tomem decisões responsáveis.
Algumas redes de ensino avançam, transformando o tema em disciplina obrigatória. Na Escola Estadual Professor Ayres de Moura, na capital paulista, a educação financeira é parte do currículo dos estudantes de período integral desde 2024.
Gabriel Vicente da Silva, professor de História e coordenador de Gestão Pedagógica por Área de Conhecimento (CGPAC) nesta escola, destaca que “a inclusão da disciplina de educação financeira surtiu um efeito importante tanto para os estudantes quanto para as famílias”.
BENEFÍCIOS DO APRENDIZADO PRECOCE: AUTONOMIA E CONSCIÊNCIA
A inserção da educação financeira nos primeiros anos escolares é defendida como uma medida preventiva contra o endividamento futuro e promotora de hábitos financeiros saudáveis.
Gabriel Vicente da Silva explica que o conhecimento financeiro contribui para a formação de um cidadão mais capacitado, influenciando a capacidade matemática, o raciocínio lógico, o planejamento e o consumo consciente. Além disso, fortalece disciplinas como História e Geografia. “Quando falamos dos grandes eventos históricos, como guerras e revoluções, os fatores econômicos são essenciais de serem entendidos, pois refletem de maneira direta nos rumos dos acontecimentos. Entender a economia por trás de um plano de governo, por exemplo, aumenta muito a assimilação e apropriação de um conteúdo pelo estudante”, comentou.
A meta dos educadores é desenvolver a autonomia e responsabilidade para uma vida financeira saudável.
FERRAMENTAS E PROGRAMAS:O APOIO TECNOLÓGICO E PEDAGÓGICO

O mercado, o setor educacional e a academia oferecem ferramentas e programas para apoiar a implementação da educação financeira.
O programa Oficina das Finanças atende da Educação Infantil ao Ensino Médio, oferecendo recursos pedagógicos e utilizando o Método dos 6Gs (Gerar, Guardar, Gastar, Ganhar, Gerir e Gratidão), alinhado às 10 competências da BNCC: Conhecimento; Pensamento científico, crítico e criativo; Repertório cultural; Comunicação; Cultura digital; Trabalho e projeto de vida; Argumentação; Autoconhecimento e autocuidado; Empatia e cooperação; Responsabilidade e cidadania.
O projeto Educa Finanças, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, oferece soluções práticas com oficinas e materiais lúdicos.
Roberto de Gregori, professor associado da instituição e especialista em finanças e contabilidade, explica o foco do projeto: “O Educa Finanças surgiu com a ampliação dos projetos de extensão da UFSM, com a ideia de focar nas crianças e adolescentes. Para que não virem adultos endividados, e saibam desde já que toda decisão, financeira ou não, pode impactar o seu futuro. Os universitários vão às escolas municipais e ministram oficinas com a nossa supervisão. Ensinam temas como planejamento financeiro, orçamento, poupança e empreendedorismo.”
O Educa Finanças já alcançou mais de mil estudantes com oficinas, gerando resultados práticos como projetos de empreendedorismo estudantil. A cartilha do Educa Finanças pode ser acessada pelo YouTube (@educafinancasnasescolas8862) ou no Repositório UFSM: https://repositorio.ufsm.br/handle/1/33586
DESAFIOS E PERSPECTIVAS FUTURAS
A implementação da educação financeira nas escolas enfrenta desafios, como a necessidade de coordenação geral em nível nacional e a falta de material mais lúdico.
O professor Gabriel Vicente da Silva defende a abordagem do tema com cautela no Ensino Fundamental II: “Tudo isso deve ser tratado com muita calma para que o estudante não perca o interesse por algo que terá uma grande importância para sua saúde financeira e até emocional”.
AS VANTAGENS DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA NAS ESCOLAS
- Desenvolvimento de Habilidades Críticas: estimula o pensamento crítico, a tomada de decisões e a resolução de problemas;
- Formação Cidadã: direciona para o consumo consciente, ensinando a avaliar o custo-benefício e as consequências do crédito.
- Impacto Acadêmico: fortalece o aprendizado em Matemática e Empreendedorismo e facilita a compreensão de contextos históricos e econômicos.
- Saúde Financeira: ajuda a prevenir o endividamento futuro e promove a formação de hábitos de poupança e gestão de gastos.




