Entenda os passos do processo de beatificação do Padre Cícero Romão Batista

Entenda os passos do processo de beatificação do Padre Cícero Romão Batista, Jornal O São Paulo
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A Diocese do Crato (CE), onde viveu o Padre Cícero Romão Batista, anunciou que está autorizada a abrir a primeira fase do processo de beatificação do famoso sacerdote nordestino. Ele viveu entre 1844 e 1934, no Ceará, e se tornou figura de grande devoção popular. 

Em missa no sábado, 20, Dom Magnus Henrique Lopes, Bispo do Crato, disse que o Dicastério para as Causas dos Santos enviou carta oficial declarando não ver empecilhos para a abertura do processo. Como de praxe, o processo que pode levar à beatificação e, se houver dois milagres, à canonização, começa em nível diocesano. 

São levantados dados e evidências das virtudes heroicas da pessoa a ser analisada. A partir de agora, o Padre Cícero pode ser chamado “servo de Deus”. Com a formação de um dossiê sobre sua vida, o Papa pode reconhecer suas virtudes, autorizando que sejam estudados também eventuais milagres realizados por sua intercessão – após a sua morte. Não há um prazo para que as etapas sejam cumpridas. 

HISTÓRIA E RECONCILIAÇÃO 

Padre Cícero ficou famoso na região de Juazeiro, no município do Crato, onde atraiu – e ainda atrai – muitos seguidores, especialmente entre os mais pobres. Com seu jeito carismático e incisivo, ele trabalhou durante toda a vida visitando as populações e dando conforto material e espiritual. Para muitos, ele é o “Padim Ciço”. 

Ele também ficou conhecido pelos fortes discursos contra a vida noturna, a bebida e os “arruaceiros”, e por isso era muito respeitado. Era um renomado confessor. 

Seu caráter polêmico, no entanto, foi notável por dois motivos. Primeiro, pelo chamado “milagre da hóstia”, em 1889. Segundo relatos populares, a hóstia consagrada “sangrava” ao ser colocada pelo Padre Cícero na boca de uma fiel, Maria de Araújo. A Igreja à época investigou, mas não reconheceu esse fenômeno como milagroso. 

Mesmo assim, milhares de pessoas peregrinavam a Juazeiro em busca de graças. Padre Cícero organizava grandes romarias e insistia na veracidade do relato, algo que gerou conflitos entre autoridades da Igreja. 

Outro ponto polêmico foi seu envolvimento na política. Ele chegou a ser prefeito de Juazeiro por 12 anos e tinha muita influência local e nacional. Contribuiu muito para o desenvolvimento da região, à época marginalizada e de pouco interesse para os mais poderosos. Porém, ao mesmo tempo, era muito próximo dos coronéis do sertão cearense, que trocavam benefícios entre si e, muitas vezes, usavam estratégias violentas para alcançar seus objetivos. 

Por essas situações, Padre Cícero perdeu o “uso de ordem”, ou seja, o direito de celebrar publicamente os sacramentos e de falar em nome da Igreja. Ele morreu, aos 90 anos, nessa condição de rompimento. 

Porém, em 2015, por vontade do Papa Francisco, ele foi postumamente reconciliado. “É inegável que o Padre Cícero Romão Batista, no arco de sua existência, viveu uma fé simples, em sintonia com o seu povo e, por isso mesmo, desde o início, foi compreendido e amado por este mesmo povo”, diz carta assinada pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, em nome do Papa. Essa abertura permitiu o avanço do processo de beatificação em seu favor.

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