Fé e a solidariedade: grandes aliadas para a cura da COVID-19

O Brasil tem confirmado 15 milhões de recuperados da doença; 2,8 milhões são moradores do estado de São Paulo. Três deles compartilham como a vida de fé os ajudou diante das dificuldades impostas pela doença

Silvia Torreglossa e a filha Laura (arquivo pessoal)

Há 13 anos, a professora universitária Silvia Torreglossa, 46, reside na cidade de São Paulo. E foi na capital, distante dos familiares que moram em São José do Rio Preto (SP), sua cidade natal, que ela enfrentou a COVID-19.

Silvia teve os primeiros sintomas da doença no dia 22 de fevereiro. O diagnóstico foi constatado no teste que ela fez em um laboratório drive-thru. Três dias antes, um teste de farmácia tinha dado negativo. “Começou com uma tosse seca que me incomodava muito. Por ser professora, falo bastante e, no fim da noite, tossia ainda mais e ficava muito indisposta. Em poucos dias, já estava completamente prostrada”, relembra.

“Não senti dores, mas não tinha energia para nada. Foi muito complicado e assustador. Tive um acometimento de pulmão, uma pneumonia sem agravantes, por isso não precisei de internação. No entanto, cheguei a ir ao pronto-socorro e tomar soro porque estava muito fraca”, recorda Silvia. “O apetite foi a zero. Não conseguia nem pensar em comer. Tomar banho ou fazer qualquer outra coisa era muito custoso para mim.”

Silvia também submeteu a filha, Laura, de 14 anos, ao teste. Como o resultado deu negativo, durante o período de seu tratamento, a professora a deixou aos cuidados do pai. “Fiquei mais tranquila ao saber que enquanto eu estivesse me cuidando aqui, ela, pelo menos, estaria segura”, recorda.

A professora conta que, desde o início da pandemia, sempre esteve comprometida com a própria segurança e a da família. “Já fazia compras on-line antes da pandemia e assim continuei. Fiquei muitos meses sem sair de casa. Fiz o isolamento social do jeito que eu acreditava ser o mais correto”, afirma.

Como docente, ela passou a trabalhar na modalidade home office. Em novembro de 2020, porém, ingressou em um segundo emprego, na área de marketing, que exigiu trabalho presencial.

“Fiquei muito chateada, porque estou acima do peso e tenho transtorno metabólico. Mas como estava no período de experiência, me protegi com a máscara e fui”, compartilha Silvia, recordando que sempre ficava tensa no horário de almoço, quando precisava tirar a proteção. “Era o momento em que eu percebia que estava me arriscando e não era pela minha escolha.”

Ajuda coletiva

Silvia mora há 11 anos no mesmo prédio, na Vila Gumercindo, zona Sul da capital, e foi surpreendida com o apoio que recebeu de vizinhos, inclusive de alguns que ela nem conhecia.

“Pelo grupo do condomínio, avisei que estava com o vírus, até pela proteção das pessoas. Uma vizinha que é médica veio até minha casa, toda paramentada, para medir minha pressão e a saturação de oxigênio”, recorda a professora. “As pessoas me deixaram comida e até bolo na porta do meu apartamento.”

A solidariedade também partiu de amigos, que, assim como os vizinhos, buscavam saber como ela estava se sentindo, dia após dia. “Uma amiga que mora próximo trouxe refeições prontas”, conta Silvia. “Outra atravessou a cidade para trazer o oxímetro [aparelho que mede o oxigênio] e um medidor de pressão.”

Relato de Silvia Torreglossa

Presença de Deus

A professora se considera uma mulher de fé e conta que, durante todo o período em que esteve enferma, sentiu ainda mais a presença de Deus. “Era como se Ele me dissesse o tempo todo: ‘Não importa o que aconteça, estarei sempre contigo’”, compartilha Silvia. “Tive dificuldades para respirar e houve momentos em que fiquei triste. Mesmo assim, em meu coração sentia isso [que Deus estava comigo].”

Silvia afirma que, mesmo ficando longe da filha e morando distante da família, nunca se sentiu sozinha. “Fiquei com essa frase [‘Estarei sempre contigo’] na cabeça. Com essa sensação de proteção e que mesmo que eu precisasse ir para o hospital e ficar internada, mesmo que necessitasse de muito cuidado, sempre estaria acompanhada de Deus. Ele nunca me abandonou.”

Ela continua alimentando sua fé e agradecendo a Deus a cura da doença. “Vendo a realidade de muitas pessoas, sinto que fui poupada. Hoje, tenho muito mais energia e quero fazer com que minha vida valha a pena sempre. Espero realizar coisas muito boas.”

Alan Mendes (arquivo pessoal)

Surpreendido pelo diagnóstico positivo

O empreendedor digital Alan Mendes, 27, morador do Jardim Damasceno, zona Noroeste de São Paulo, revela que quando recebeu o diagnóstico positivo para a COVID-19, no fim de março deste ano, ficou com o emocional abalado. “Foi um choque e, ao mesmo tempo, um desespero, porque eu havia tido contato com todos da minha família – meus pais, irmão e cunhada. Além da minha noiva e meus sogros. Minha maior preocupação não era comigo, mas com eles”, salienta.

Mendes conta que quando começou a sentir os primeiros sintomas não os associou à COVID-19. “Em uma sexta-feira, meus olhos começaram a doer, bem lá no fundo. Pensei que fosse cansaço porque tinha dirigido muito”, lembra.

No dia seguinte, ele começou a sentir desconforto no nariz. “Também pensei não ser nada, pois tenho rinite alérgica”, pontua Mendes.

No domingo, porém, ele perdeu o olfato e o paladar. “Comecei, então, a achar muito estranho. Por isso, no outro dia fiz o exame do PCR, que deu positivo”, relembra. Nenhum de seus familiares teve sintoma, e sua noiva, que também fez o teste, não contraiu a doença.  

Lidando com os medos

Para Mendes, os primeiros dias de infecção foram os mais difíceis. “Fiquei com bastante incômodo no nariz e na garganta. Mas tive que manter a calma, pois o isolamento te consome aos poucos”, relata.

Ele também comenta sobre seus medos. “O que eu mais temia era como estaria no dia seguinte. Perguntava-me se estaria bem ou mal. Tinha medo de sentir falta de ar, ainda mais por causa dos relatos de pessoas que descreviam o quanto isso era horrível.”

Apesar das angústias, os sintomas da COVID-19 não evoluíram para um quadro grave. Com o apoio dos pais, ele conseguiu cumprir 15 dias de isolamento. “Tenho meu próprio quarto e próprio banheiro, o que facilitou muito”, analisa Mendes. “As minhas refeições eram deixadas por meus pais na porta do meu quarto. Lembro que nesses momentos meu pai gritava ‘Ifood’, tentando brincar comigo.”

Equilíbrio emocional por meio da fé

“Minha fé me fez continuar firme e não entrar em desespero”, afirma Mendes. “Também sou músico e, por isso, sempre que a ansiedade batia e coisas negativas queriam surgir em minha mente, pegava meu violão e começava a louvar.”

Cantar e também ouvir músicas da igreja, durante a recuperação, fez com que o empreendedor se sentisse mais calmo e próximo de Deus. “Uma das músicas que mais cantei dizia: ‘Em teus braços é o meu descanso’. Essa letra me revigorava. Ao cantar, sentia que Deus estava me acolhendo em Seus braços”, relata Mendes.

Ele também recorda que, enquanto esteve infectado, em comunhão com a família rezou o Santo Terço todos os dias. “Eu acompanhava pela Rede Vida, às 18h, com o Padre Lúcio. O mesmo fazia minha avó, da casa dela. Já meus pais rezavam ao longo do dia.”

Passada a fase difícil, Mendes continua agradecendo e rezando por sua saúde e a de seus entes queridos. “Graças a Deus, todos estão bem, meus avós vacinados, meu pai já tomou a primeira dose e minha mãe tomará logo mais. Deus está sendo muito bom conosco. Nossa fé é o que nos motiva para continuar”, assegura.

Ciente de que precisa continuar se cuidando, o empreendedor ainda compartilha o que aprendeu com tudo o que passou. “A maior prova que tirei dessa experiência é que precisamos valorizar ainda mais o hoje. Devemos falar ‘eu te amo’ para as pessoas amadas e exercitar o perdão”, finaliza.

Maria do Socorro (arquivo pessoal)

Do diagnóstico positivo à internação

A aposentada Maria do Socorro Silva de Souza, 66, mora no Jardim São Paulo, em Perus, noroeste da capital. Em 2020, ela passou mais de 90 dias internada em decorrência da COVID-19.

Silvia, como é mais conhecida, divide como foi esse período tão difícil que a deixou com 15 quilos a menos e sequelas.

Na tarde do dia 28 de agosto do ano passado, ela procurou atendimento médico na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro em que mora porque estava com febre e sensação de moleza.

O teste para COVID-19 deu positivo. “Fiquei em observação e logo fui informada de que ficaria internada. No mesmo dia, fui transferida para o Hospital da Brasilândia”, conta.

Silvia relata que teve rápida piora, por isso foi entubada logo que deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital, na zona Norte da cidade, que tem sido referência para o atendimento de pacientes com COVID-19.

“A partir daí, não lembro muita coisa. Não sei ao certo quanto tempo fiquei entubada, mas fiquei com a traqueostomia por quase todo o tempo em que estive internada”, pontua Silvia.

A traqueostomia é uma forma de ventilação mecânica. É um procedimento cirúrgico em que é feita uma abertura na região da traqueia para facilitar a entrada de ar nos pulmões.

Delírios e espiritualidade na UTI

Silvia expôs que, na UTI, teve inúmeros momentos de confusão mental. “Eu via meu marido e meus dois filhos, além de outros familiares, cuidando de mim. Levou tempo para que eu percebesse que, na verdade, eram os médicos e enfermeiros que estavam comigo”, relembra.

Devota de Nossa Senhora Aparecida, há quatro anos Silvia integra um grupo de sua paróquia dedicado à Mãe Peregrina, que reza o Santo Terço semanalmente. Outro delírio que ela afirma ter tido com frequência foi ver uma de suas amigas de Terço próximo de seu leito.

“Eu a via passando diante de mim com o quadro da Mãe Rainha. Porém, ela não chegava perto de mim. Apenas passava”, recorda. “Via também minhas primas e outros familiares passando em direção a um altar de Nossa Senhora que eu achava que tinha no fim do corredor.”

Silvia também diz que em meados de novembro começou a ter um pouco mais de consciência da situação que estava vivendo e se apegou ainda mais à sua fé e ao pensamento positivo de que sairia daquela situação.

“Eu não estava com meu Terço lá, mas no meu pensamento agradecia sempre a Deus e a Nossa Senhora Aparecida por estar viva e sendo cuidada. Também pedia bênção a toda a equipe médica”, diz a aposentada, lembrando que um dos piores momentos foi quando percebeu que tinha perdido todos os movimentos.

Silvia também comenta que, mesmo sem conseguir falar por causa da traqueostomia, ouvia incentivo dos profissionais da Saúde que a acompanhavam, o que também a fortalecia. “Eu sempre escutava eles dizendo que eu era uma guerreira, vitoriosa e inspiração para todos”, narra a aposentada.

Somente em casa, Silvia teve conhecimento de que houve dias em que os médicos disseram ao marido e aos filhos que “não podiam fazer mais nada” por ela. 

Relato de Maria do Socorro Silva de Souza

A recuperação em casa

“Nasci de novo em 2 de dezembro de 2020, quando saí do hospital”, exalta Silvia, que voltou para casa sem conseguir se mexer.

Por ter problemas vasculares que foram intensificados durante a internação, ela ainda não pode ficar de pé, mas já recuperou muitos movimentos.

“No começo era bem pior. Não conseguia me deitar sozinha na cama. Para tomar sopa, meu marido colocava em uma caneca com canudo e ficava segurando até eu conseguir me alimentar”, detalha.

Com o auxílio de fisioterapia, ela tem readquirido a autonomia aos poucos. “Já como sozinha. Com a assistência de uma cadeira, consigo ir até a cozinha, lavo louça e passo roupas sentada. Também já lavo meu cabelo”, comemora.

Ela continua a alimentar sua fé, acompanhando celebrações e missas pela televisão, e agradecendo a Deus pela vida e pela solidariedade dos vizinhos, que têm ajudado o marido dela a tirá-la de casa para ir às consultas, pois para isso ela precisa passar por 21 degraus.

“Para descer, preciso da ajuda de pelo menos três pessoas. Para subir é preciso ter duas atrás e duas na frente puxando a cadeira”, explica.

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