Livro conta a história de Dom Julio Endi Akamine, primeiro arcebispo nipo-brasileiro

Luciney Martins/O SÃO PAULO/Arquivo

Dom Julio Endi Akamine, SAC, Arcebispo de Sorocaba (SP) e Presidente do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi homenageado com a publicação de um livro que narra momentos importantes da vida e ministério do primeiro e único arcebispo nikkey, como são chamados os descendentes de japoneses.

Escrita por Akira Chinen, presidente da Academia Nipo-Brasileira de Escritores, publicada em português pela AMBE Edições e em japonês pela editora Soul, a biografia “Arcebispo Católico Dom Julio Endi Akamine – Família, Vida e Obra” foi lançada na sexta-feira, 13, na sede da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, no bairro da Liberdade, centro da capital paulista.

“Dom Julio enobrece a nossa comunidade japonesa no Brasil e, por isso, sua história merecia ser conhecida”, afirmou o autor da obra ao O SÃO PAULO, sublinhando que também a comunidade de Okinawa, região de origem dos antepassados de Dom Julio, se orgulha de ter um descendente com a dignidade de arcebispo, o maior cargo eclesiástico exercido por um herdeiro da população dessa ilha japonesa.

Por isso, o mesmo livro foi publicado em japonês, para ser distribuído para a comunidades católicas, escolas e bibliotecas de Okinawa.

A ÁRVORE DA VIDA

Filho do casal Guengio Akamine (falecido) e Teruko Oshiro Akamine, Dom Julio nasceu em 30 de novembro de 1962, em Garça (SP). Porém, para contar a história do prelado nipo-brasileiro, o livro volta a 1930, quando desembarcaram em solo brasileiro os seus avós paternos, Ken Akamine e sua esposa, Maushi Akamine.

Como muitos dos imigrantes japoneses do início do século XX, o casal Akamine também veio para o Brasil em busca de melhores oportunidades econômicas. No entanto, como relatou o próprio Dom Julio, seus avós encontraram algo mais importante.

“Meu avô paterno me contava que, no Japão, havia uma propaganda de que no Brasil havia uma árvore que dava frutos de ouro que, na verdade, era uma metáfora do pé de café. De fato, ele e muitos outros japoneses pensavam que isso era realmente verdade. Porém, ao chegar aqui, não encontrou essa árvore. Só que, na verdade, encontrou a verdadeira árvore, a árvore da vida, a cruz, onde está o fruto de ouro que é Jesus Cristo”.

O Arcebispo salientou que o fenômeno migratório pode ser explicado por meio de fatores sociológicos, econômicos, históricos, mas isso não faz justiça ao mistério de cada pessoa, cuja história é conduzida pelo próprio Deus.

“Atraídos por essa árvore de ouro, provi- dencialmente meus avós encontraram o Cristo”, disse.

TESTEMUNHO DE FÉ

“Eu tenho muita gratidão aos católicos do Brasil que testemunharam com simplicidade e verdade a felicidade de crer em Cristo, trazendo a minha família para o Cristianismo”, acrescentou Dom Julio, observando que a ação missionária não acontece apenas indo a terras distantes, mas acolhendo aqueles que chegam em busca de uma vida nova. “Não houve coação ou algo do tipo, meus avós se sentiram atraídos pela fé cristã vivida pelos brasileiros”, completou.

Foi neste ambiente familiar católico do interior paulista que Dom Julio nasceu e cresceu. “Meu avô era homem muito devoto, de profunda vida de oração. Frequentava a missa e me levava com ele. Também reconheço o testemunho dos meus pais, que me colocaram na catequese, me incentivaram para ser coroinhas e foi neste contexto que nasceu minha vocação para o sacerdócio”, contou Dom Julio, que ingressou no seminário da Sociedade do Apostolado Católico (Palotinos) em 1975.

Ordenado sacerdote em 1988, exerceu inúmeros ofícios entre os Palotinos, inclusive o de Reitor Provincial da congregação, de 2008 a 2011. Neste último ano, ele foi nomeado pelo Papa Bento XVI Bispo Auxiliar de São Paulo, onde atuou como Vigário Episcopal para a Região Lapa, cargo que exerceu até 2016, quando foi nomeado pelo Papa Francisco como Arcebispo de Sorocaba.

CATOLICISMO NO JAPÃO

Embora seus avós tenham conhecido a fé católica no Brasil, o catolicismo no Japão tem raízes profundas, desde a chegada dos jesuítas em meados do século XVI. Enfrentaram mais de 200 anos de rígidas proibições, perseguições e martírios, que levaram muitos a praticarem a religião como kakure kirishitan, isto é, na clandestinidade, após a expulsão dos clérigos do país no século XVII.

Esse testemunho corajoso de fé de seus antepassados também é motivo de admiração para Dom Julio. “Esses católicos conservaram integralmente a fé por sete gerações sem poderem manifestá-la publicamente. Viveram sem sacerdotes, sem missionários, sem culto público, sem imagens sacras, sem Eucaristia e os demais sacramentos, a não ser o Batismo, que eles mesmos celebravam”.

“Por isso, houve também muitos católicos japoneses que decidiram vir para o Brasil, justamente por saberem que aqui era um país católico. Esses não desejavam se enriquecer e voltar para o Japão, mas, sim, lançar raízes em um país católico”, disse, acrescentando que a primeira ação desses imigrantes católicos foi a construção de uma igreja em Lins (SP), erguida com tijolos fabricados pela própria população durante as folgas do trabalho agrícola.

O LIVRO

Os dez capítulos do livro trazem um breve histórico da província de Okinawa e a corrente migratória no Brasil; o ciclo histórico da chegada dos avós de Dom Julio ao País; a trajetória educacional e formativa do Arcebispo; a origem do catolicismo no Japão; o ministério episcopal do Arcebispo, especialmente à frente da Arquidiocese de Sorocaba.

Ao recordar suas origens e sua história vocacional, Dom Julio reconhece que não é cristão apenas para si, mas para aqueles antepassados que não tiveram a oportunidade de conhecer Jesus Cristo e pelos quais oferece suas orações e ministério para que Deus também os alcance com a salvação eterna.

O sucesso da obra foi tão grande que os exemplares da primeira edição do livro se esgotaram nos eventos de lançamento em São Paulo e em Sorocaba. A Academia Nipo-Brasileira de Escritores está preparando uma nova impressão, que em breve será disponibilizada.

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Lucy Maria Gregori de Lima
Lucy Maria Gregori de Lima
6 meses atrás

A humildade serenidade e fé de Dom Júlio é cativante. Conheci dom Júlio na arquidiocese de São Paulo e tive o privilégio de participar de retiros anuais por ele orientado ao grupo das leigas consagradas Ordo Virginum . Parabéns D. Júlio merecida homenagem esse livro. Quando sair a segunda edição quero adquirir para poder aprender ainda mais viver o Evangelho com a ternura de D. Júlio.