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Livro de Daniel: testemunho da fidelidade a Deus e certeza da soberania divina na história glória

Livro de Daniel: testemunho da fidelidade a Deus e certeza da soberania divina na história glória - Jornal O São Paulo
Divulgação

Neste Mês da Bíblia, a Comissão Episcopal para a Animação Bíblico­-Catequética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reco­menda o estudo do Livro de Daniel.

Lido sob a perspectiva cristã, o Livro de Daniel é considerado como um grande testemunho da fidelida­de a Deus em meio às perseguições, da soberania divina sobre a história e da esperança na vitória definitiva do Reino de Deus. Além disso, algumas de suas profecias preanunciam a figu­ra do “Filho do Homem”, Jesus Cristo, o Salvador.

A FIDELIDADE DE DANIEL E SEUS COMPANHEIROS

A narrativa situa Daniel e outros jovens judeus – Ananias, Misael e Azarias – no contexto do exílio na Ba­bilônia (cf. Dn 1-6). Mesmo inseridos na corte de um império pagão, eles procuram permanecer fiéis ao Deus de Israel.

“Daniel e seus companheiros vi­vem entre impérios, convivem com outra cultura, aprendem sua língua e seus conhecimentos, mas conservam o coração voltado para o Deus Altís­simo. Sua fé não os retira do mundo: ensina-lhes uma maneira nova e livre de nele permanecer”, escreveu Dom Leomar Antônio Brustolin, Arcebispo de Santa Maria (RS) e Presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, em ar­tigo publicado no site do Regional Sul 3 da CNBB.

Os episódios mais conhecidos do Livro de Daniel mostram que Deus não abandona aqueles que lhe perma­necem fiéis. Daniel, apesar da proibi­ção real, continua rezando ao Senhor, é lançado na cova dos leões, mas acaba libertado (cf. Dn 6). E os três jovens que se recusam a adorar a estátua de ouro e são lançados na fornalha tam­bém são salvos por Deus (cf. Dn 3).

“Mesmo no perigo extremo, quan­do as chamas já atingem os seus cor­pos, eles [três jovens] encontram a for­ça para ‘louvar, glorificar e bendizer a Deus’ com a certeza de que o Senhor da criação e da história não os aban­donará à morte e ao nada (…) O cânti­co, tradicionalmente chamado ‘dos três jovens’, assemelha-se a uma chama que ilumina a obscuridade do tempo da opressão e da perseguição, um tempo que se repetiu muitas vezes na história de Israel e na própria história do Cristia­nismo”, afirmou São João Paulo II na Au­diência Geral de 19 de fevereiro de 2003.

DEUS É O VERDADEIRO SENHOR DA HISTÓRIA

Um dos temas centrais do Livro de Daniel aparece no sonho de Nabuco­donosor (cf. Dn 2). A grande estátua formada por diferentes metais sim­boliza uma sucessão de reinos huma­nos. Todos eles acabam desaparecen­do. Uma pedra, porém, “não cortada por mão humana”, destrói a estátua e transforma-se em uma grande monta­nha que enche toda a terra. “O Deus do céu suscitará um reino que jamais será destruído” (Dn 2,44).

Na tradição cristã, essa passagem foi frequentemente relacionada ao Rei-no de Deus inaugurado por Cristo e que permanece para sempre.

“Deus está no céu, onde ‘penetra com o olhar os abismos’ (Dn 3,35), mas também se encontra ‘no templo santo e glorioso’ de Sião (Dn 3,53). Ele está sentado no ‘trono do seu rei­no’ eterno e infinito (Dn 3,54), mas é também aquele que está ‘sentado so­bre os querubins’ (Dn 3,55), na arca da aliança colocada no Santo dos Santos do templo de Jerusalém. Um Deus aci­ma de nós, capaz de nos salvar com o seu poder; mas também um Deus pró­ximo do seu povo, no meio do qual Ele quis habitar no seu ‘templo santo e glo­rioso’, manifestando assim o seu amor. Um amor que Ele revelará em pleni­tude, fazendo ‘habitar entre nós’, o seu Filho Jesus Cristo ‘cheio de graça e de verdade’ (cf. Jo 1,14). Ele revelará em plenitude o Seu amor, enviando-nos o Filho para partilhar em tudo, exceto o pecado, a nossa condição marcada pelas provações, opressões, solidão e morte”, disse São João Paulo II na já referida Audiência Geral de 2003.

A GRANDE VISÃO DO ‘FILHO DO HOMEM’

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Ao longo do livro, Daniel contem­pla quatro grandes animais, repre­sentando poderes terrenos. Depois aparece diante do “Ancião de muitos dias”, uma figura misteriosa: “Eis que vinha sobre as nuvens do céu alguém semelhante a um filho de homem” (Dn 7,13). A ele são dados domínio, glória e reino, e todos os povos, na­ções e línguas o servem. Seu domínio é eterno (Dn 7,13-14).

Jesus aplica repetidamente a si mesmo o título Filho do Homem (cf. Mt 26,64). Assim, em Daniel 7 há uma das grandes chaves veterotesta­mentárias para compreender a iden­tidade e a missão de Cristo: Jesus é o Filho do Homem glorioso, a quem o Pai entrega o Reino definitivo.

O REINO DE DEUS SE INSTALA E PERMANECE

A segunda metade do livro (cf. Dn 7-12) contém visões apocalíp­ticas, remetendo a animais, chifres, reis, guerras e perseguições, uma lin­guagem simbólica, mas que reforça uma convicção: a história jamais esca­pa das mãos de Deus.

Padre Mauro Negro, da Congrega­ção dos Oblatos de São José, Mestre em Teologia Sistemática com concentra­ção em estudos bíblicos pela PUC-SP, comenta que é fundamental entender as visões proféticas de Daniel “como metáforas, indicações de circunstân­cias particulares. E são também pró­prias de um tempo e uma mentalida­de. Um ouvinte ou leitor moderno de Daniel deve fazer as devidas interpre­tações. É o que a Igreja faz ao procla­mar Daniel na Liturgia e o que se faz em cursos e artigos”.

“De fato, os últimos capítulos de Daniel são histórias exemplares, nas quais a vitória da fidelidade ao Deus da Aliança é insistentemente valoriza­da”, ressaltou o Sacerdote.

Daniel também reza, confessando os pecados de Israel e pedindo miseri­córdia, e o anjo Gabriel lhe anuncia a misteriosa profecia das setenta sema­nas (cf. Dn 9,24-27), frequentemente entendida na tradição cristã em senti­do messiânico, como a expectativa da vinda de um “Ungido”, o Cristo, por meio do qual o pecado será vencido, a justiça de Deus se manifestará e Seu Reino se instalará para sempre.

“Daniel nos recorda de que a es­perança cristã não consiste em negar a dureza da história, mas em atravessá­-la na certeza de que Deus permanece fiel e seu Reino não terá fim”, escreveu Dom Leomar, no já referido artigo no site do Regional Sul 3 da CNBB.

A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

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Reprodução CNBB

No Livro de Daniel está uma das mais explícitas afirmações do Anti­go Testamento sobre a ressurreição: “Muitos dos que dormem no pó da terra despertarão: uns para a vida eter­na, outros para a vergonha e a infâmia eterna” (Dn 12,2). Além disso, “os que tiverem sido sábios brilharão como o esplendor do firmamento” (Dn 12,3).

Na Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, portanto, está a esperança de que o destino último do homem não é simplesmente a morte: haverá ressur­reição, juízo e vida eterna.

Padre Mauro Negro cita como “ex­traordinário e inspirador” o que se lê em Daniel 12,3: “‘Os que são esclare­cidos resplandecerão, como o resplen­dor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça, hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade’. Ser ‘es­clarecido’ quer dizer estar sob alguma luz. A Luz, para os cristãos, é Cristo Jesus. Esta Luz é a Graça, sobre a qual São Paulo tanto insiste em seus escritos e a Igreja sempre oferece aos seus filhos. E depois o ato de ensinar, por parte dos ‘que ensinam a muitos a justiça’, é a missão que todo crente (pessoa que crê) tem, por força de seu Batismo. Ensinar a fé, a esperança, a superação das difi­culdades pela fidelidade, o olhar não somente para as aparências, mas para o essencial das pessoas e da História”.

(Apuração e redação: Padre Michelino Roberto e Daniel Gomes)

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