Magna da Rocha: ‘O professor precisa exercitar uma renovada abertura a Deus, ao outro, ao mundo e à própria interioridade’

A edição do jornal O SÃO PAULO publicada na quarta-feira, 30 (ed. 3389) apresenta a reportagem “Ensino da religião na escola: um bem para a humanidade, na qual se reflete sobre o quanto o ensino religioso é fundamental para a formação integral dos estudantes.

Uma das pessoas entrevistadas foi Magna Celi Mendes da Rocha, mestre e doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP, com Pós-Doutorado em Teologia pela PUC-PR. Atual assessora da Pastoral Universitária da PUC-SP,  professora convidada da Faculdade de Teologia desta mesma universidade e do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, ela dedica-se ao estudo e difusão da obra pedagógica de Edith Stein – Santa Teresa Benedita da Cruz. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Magna da Rocha: ‘O professor precisa exercitar uma renovada abertura a Deus, ao outro, ao mundo e à própria interioridade’
Foto: Arquivo pessoal

Em relação à dinâmica das aulas de ensino religioso, de quais instrumentais o professor pode se valer para não seja apenas algo expositivo e teórico e desperte o interesse dos estudantes?

Gosto de um exemplo mencionado pelo Papa Francisco na Chistus Vivit (n. 223), em que utiliza dois personagens da mitologia grega, Ulisses e Orfeu. Ambos precisavam resistir ao encanto das sereias, que seduziam e faziam os marinheiros espatifar-se nas rochas e morrerem afogados, enganados pelos seu belo canto. Ulisses, para escapar da armadilha, se amarrou ao mastro do navio e cobriu os ouvidos dos seus companheiros de viajem. Orfeu, por sua vez, para contrastar a música das sereias, entoou uma melodia mais bonita, que encantou as sereias.

São inúmeras as propostas que esvaziam, destroem e despersonificam nossas crianças, adolescentes e jovens. Precisamos pedir sempre ao Espírito Santo que nos renove a criatividade para que ao invés de ficarmos em uma postura reativa ou defensiva, sejamos propositivos, abertos, dinâmicos, na realidade em que nos encontramos.

O professor precisa exercitar uma renovada abertura a Deus, ao outro, ao mundo e à própria interioridade. Essas quatro aberturas devem se traduzir na forma como prepara suas aulas, buscando aliar os conteúdos das aulas às vivências pessoais, às dos alunos e o que se passa no mundo.

Além das aulas expositivas, podemos realizar rodas de conversa temáticas, visitas a lugares históricos e sagrados, visita a lugares de sofrimento, participação e preparação em celebrações e momentos litúrgicos fortes (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa). 

Embora a oferta de ensino religioso na escola pública de ensino fundamental esteja prevista no Art. 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), um levantamento feito pelo Vicariato Episcopal para a Educação e Universidade feito em 2020, antes do começo da pandemia, mostrou que efetivamente não há a oferta de ensino religioso em escolas públicas. Na avaliação da senhora, o que pode ser feito para que essa disciplina seja efetivamente ofertada aos estudantes na escola pública? Como os católicos, em especial professores e as famílias católicas, podem colaborar para que esse direito seja cumprido pelo Estado?

Precisamos avançar na formação e capacitação de professores que saibam da importância de seu papel também nesse espaço. Para isso, estamos promovendo o curso de especialização em Teologia e Ensino Religioso, uma parceria da Faculdade de Teologia da PUC-SP e do Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade, com início previsto para o mês de abril, em continuidade a um trabalho em nível de extensão, desde 2016.

É necessário também que os pais que compreendem a importância da formação religiosa para seus filhos reivindiquem junto aos diretores das escolas esse direito assegurado. É necessário, ainda, que as autoridades religiosas de cada diocese reivindiquem esse direito junto às secretarias de Educação, aos políticos responsáveis. Enfim, é uma mobilização em várias frentes: tanto de capacitação quanto de base e das instâncias superiores, tudo isso para que nossas crianças, adolescentes e jovens tenham acesso a uma formação que os ajude a desenvolver um aspecto tão essencial de sua vida, sempre de uma forma propositiva, nunca impositiva.

No já referido Art. 33 da LDB, se afirma que o ensino religioso deve assegurar “o respeito à diversidade cultural e religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. É possível dar uma boa aula de ensino religioso sem entrar nos detalhes que envolvem determinada crença? Não se corre o risco de “criar confusão ou gerar um relativismo ou indiferentismo religioso se o ensino da religião estiver limitado a uma exposição das várias religiões de modo comparativo e ‘neutro’”, como apontado em uma carta circular da Congregação para a Educação Católica de 2009 sobre o ensino da religião na escola?

O Ensino Religioso nunca será neutro. Sempre parte de uma visão de mundo, de homem e de Deus, nem sempre explicitados.

A BNCC do Ensino Religioso, por exemplo, embora não explicite, tem por fundamento a concepção histórico-cultural ou sócio-histórica, cujo principal representante é L.S.Vigotski, psicólogo russo que viveu entre 1896 e 1934. O autor não é citado, mas as palavras norteadoras de sua teoria (contexto histórico-cultural, apropriação e produção cultural, sentidos e significados; símbolos, mediação) estão presentes em todo o documento. A pesquisadora Sônia Shima, em 2007, defendeu sua tese de doutorado com título “A educação especial do novo homem soviético e a psicologia do de L. S. Vigotski: implicações e contribuições para a psicologia e educação atuais”. Na tese, a autora reivindica as bases marxistas do pensamento do autor. Recorda que Vigotski tinha por missão, dar as bases formativas do novo homem para uma nova sociedade, a sociedade comunista. Para além da discussão comunismo versus capitalismo, que não nos interessa aqui, convém saber que nessa concepção, cuja ênfase recai quase absolutamente sobre o aspecto cultural e as relações sociais, a dimensão religiosa se dá como uma construção cultural.  Simplificando muito, para não ser exaustiva, Deus é uma criação do homem, uma criação da cultura. Não precisa ser um grande teólogo para entender que faz diferença na forma de abordagem do Ensino Religioso se Deus é uma criação do homem ou se o homem foi criado por Deus. Isso tem impacto no conteúdo e nas práticas pedagógicas.

Com isso, não estamos propondo abolir a BNCC, mas explicitar seus fundamentos e dizer que se temos fundamentos cristãos, vamos buscar várias coisas semelhantes, como educação integral, inclusiva, que valoriza e respeita as diferenças, a alteridade, mas compreendendo que nosso olhar e ação sobre essas questões se dá a partir de uma ótica cristã, e não ateia.

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