
“Todo dia, das cinco da manhã às seis da tarde, eu puxava uma bag de Santana até perto do Terminal Princesa Isabel. Lá existia um ferro velho que comprava os recicláveis. Carregava na bolsa uma sacolinha de pão, que recebia de doação. A comida, eu sempre conseguia em algum restaurante, pois o pessoal me dava. Chegava com todo o respeito para pegar latinhas e outras coisas. Eu não bagunçava o lixo”.
Por muitos anos, a coleta de materiais recicláveis foi a única fonte de renda do paraibano Josepho Soares da Silva, 41. Ele viveu em situação de rua em São Paulo por 15 anos, mas aos poucos está virando esta página de sua história: atualmente acolhido em um hotel social da Prefeitura de São Paulo, participa há três meses do Serviço Franciscano de Apoio à Reciclagem (Recifran), mantido pelo Sefras – Ação Social Franciscana, no bairro da Liberdade.
“Ainda hoje, quando estou de folga, vou procurar recicláveis na Avenida Paulista. Tem muitos que criticam o trabalho da gente, falam ‘ô catador de lixo!’ Mal sabem que a gente está fazendo uma limpeza para a sociedade e ajudando o meio ambiente. Mas na visão de muitas pessoas, a gente também é descartável”, desabafa Josepho.
Inclusão social e produtiva

Iniciado nos anos 2000 e com sede fixa desde 2003, o Recifran é um serviço de inclusão social e produtiva, com a capacidade para a participação de até 50 pessoas, que permanecem no projeto entre seis e nove meses.
Mensalmente, o Recifran encaminha um link com as vagas disponíveis para os centros de acolhida, na região central, conveniados à rede de assistência social da Prefeitura de São Paulo e para outros centros de convivência de pessoas em situação de rua. Os interessados se inscrevem e participam da entrevista de seleção.
“A ideia deste projeto é auxiliar as pessoas que estão em situação de rua a ter uma organização pessoal de saúde e de renda, para que consigam, após o período que passarem por aqui, ter um trabalho informal ou formal. A meta é que possam ter autonomia para que se sintam incluídos na sociedade e recuperem a autoestima”, detalha, ao O SÃO PAULO, Gabriela Masteguin, coordenadora do Recifran.
Assim que ingressa no projeto, o trabalhador participa de uma semana de formação, na qual aprende conceitos sobre logística reversa, sustentabilidade, tipos de materiais a serem reciclados e cuidados com o meio ambiente. Ao longo do tempo, também é convidado a pensar seu plano de vida, o que envolve metas de estudo e trabalho.
A gestão dos recicláveis

Papéis, plásticos, vidros e até eletroeletrônicos estão entre os itens que chegam ao Recifran. A maioria é enviada pelo grupo Ambipar, que atua na gestão de resíduos e ações de sustentabilidade. Os materiais são triados conforme suas características e depois separados e compactados. Por mês, são de 15 mil a 20 mil quilos de recicláveis vendidos pelo Recifran a um comprador intermediário, que faz a revenda final às usinas.
“Esse intermediário vem, pesa o material, o avalia e faz o pagamento. O montante arrecadado é repartido igualmente entre os participantes do projeto, o que chamamos de rateio”, conta Gabriela, detalhando, ainda, que o Sefras custeia toda a estrutura do Recifran, e o pagamento da equipe que conduz o projeto, por sua vez, advém de um convênio feito entre a instituição e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania.
Olhar humanizado

As ações do Recifran estão alicerçadas no tripé Acolher, Cuidar e Defender, que são os valores do Sefras.
Frei Marcos Estevam de Melo, OFM, da Província Franciscana da Imaculada Conceição, explica à reportagem que a espiritualidade franciscana prioriza o estar próximo aos mais necessitados, a exemplo do que fez São Francisco de Assis, havendo hoje trabalhos em prol da população em situação de rua, idosos, crianças e adolescentes em risco, acometidos por hanseníase e imigrantes.
O Frade detalha que o “Acolher” envolve não fazer acepção de pessoas; o “Cuidar” contempla olhar as necessidades mais prementes de cada acolhido; e o “Defender” refere-se tanto ao trato com o meio ambiente – “a Casa Comum, que não pode ser vista como mercadoria” – quanto com o ser humano. “A população em situação de rua hoje é como o leproso da época de São Francisco: a sociedade não quer vê-la nem tê-la por perto. E é este sistema de descarte das pessoas que procuramos combater. Elas merecem ser defendidas e trabalhamos para mostrar-lhes os direitos que têm e como devem agir para buscá-los para seu crescimento pessoal e reintegração à sociedade”, enfatizou, destacando haver ainda um amplo trabalho de escuta às pessoas que procuram as casas franciscanas.
A esperança em dias melhores

Cleber Eduardo da Silva, 42, natural de Santos (SP), participa do projeto há seis meses: “Estou arrumando meus documentos e quero conseguir um trabalho fixo”. Na cidade do litoral paulista, ele já trabalhou com reciclagem e viveu situações de preconceito. “Quando eu passava com o carrinho de mercado cheio de recicláveis, e estando com a minha higiene não tão boa, alguns até trocavam de calçada. Aqui no Recifran, entendi o valor do meu trabalho para a sociedade e isso está me ajudando muito, me fortalecendo. Hoje em dia, eu me olho no espelho e me sinto alegre”.
Já o paulistano Gabriel Cunha, 43, que é barman e músico, pela primeira vez está trabalhando com recicláveis: “Aprendo muita coisa aqui e o dinheiro recebido me ajuda bastante. As autoridades deveriam incentivar mais quem faz reciclagem, pois o lixo da nossa cidade é muito rico. Falta uma visão mais ecológica para aproveitar melhor os itens”.
Gabriela Masteguin enaltece aqueles que atuam na linha de frente da reciclagem: “Se não fosse o trabalho que eles realizam na cidade, grande parte desse material que hoje é reciclado iria para os aterros sanitários. Ninguém melhor do que o catador para multiplicar o conhecimento sobre a reciclagem. Assim, é ideal que possam ser reconhecidos como agentes socioambientais urbanos. Também desejamos que sejam mais bem valorizados. Por isso, lutamos com o movimento de catadores para que, futuramente, possam ter uma renda fixa para além daquilo que conseguem coletando recicláveis”
NÃO DESCARTE COM OS RECICLÁVEIS
- Itens de farmácia (medicamentos, ampolas, seringas e fraldas);
- Papelão engordurado (como caixas de pizza);
- Bandejas de isopor ou de plástico que condicionam alimentos (ainda não está amplamente difundida no Brasil a tecnologia para reciclá-las e, assim, são consideradas rejeitos).
*A partir das informações de Gabriela Masteguin, coordenadora do Recifran




