Psiquiatras que estudam o tema explicam que a hiperestimulação constante das redes sociais faz o cérebro exigir cada vez mais estímulos para sentir a mesma satisfação e isso está mudando profundamente a forma como as pessoas pensam, relacionam-se e constroem sua própria identidade

O sinal toca, a aula termina, mas o pensamento já estava longe. Antes de sair da sala, o adolescente já está com o celular na mão. O que parece um hábito comum revela algo muito mais profundo: a tecnologia digital está reconfigurando nosso cérebro e capturando nossa atenção de forma sistemática e deliberada.
Esse gesto automático esconde um processo neurobiológico complexo e preocupante. O uso intenso de tecnologias, especialmente aquelas desenhadas para prender o foco, reestrutura as vias cerebrais e altera fundamentalmente como processamos informações.
Não se trata apenas de falta de disciplina ou fraqueza de caráter. A dependência digital já é uma condição clínica reconhecida pela comunidade científica internacional, afetando cerca de 8% da população global, com padrões de uso problemático.
O SISTEMA DE RECOMPENSA SOB PRESSÃO CONSTANTE
Tal qual uma dependência química, como de álcool ou drogas, comportamentos muito estimulantes também desencadeiam respostas patológicas no sistema de recompensa cerebral, a área responsável pela sensação de prazer e de satisfação.
“Esse sistema primitivo não consegue diferenciar se o prazer está vindo de comida, bebida, sexo, drogas ou games! Ele é estimulado em variadas intensidades”, dizem os psiquiatras Rodrigo Machado e Emílio Tazinaffo, pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Eles coordenam o primeiro programa científico brasileiro especializado em tratamento de dependências digitais na Clínica Elibrè (https://elibre.com.br), que será apresentado em um congresso mundial sobre dependências comportamentais na Turquia.
O uso constante da tecnologia funciona como “alimentos ultraprocessados” na mente humana. Por exemplo: quando comemos um brócolis, isso não causa compulsão porque seu estímulo é insuficiente para ativar o sistema de recompensa. Já um doce ativa esse sistema de prazer em uma intensidade capaz de gerar comportamentos compulsivos. As tecnologias digitais foram otimizadas e testadas extensivamente para estimular o cérebro em níveis que ultrapassam qualquer estímulo natural.
DOPAMINA: O NEUROTRANSMISSOR DO DESEJO E DA CAPTURA
O segredo dessa captura neurobiológica é a dopamina, o neurotransmissor do desejo e da motivação. Os dois psiquiatras explicam que o ciclo entre o pico de dopamina e o retorno do prazer é muito curto nas telas digitais.
“Poucas coisas no mundo real estimulam esse circuito com tanta intensidade e rapidez, a não ser substâncias químicas”, afirmam Machado e Tazinaffo.
Eles ressaltam ainda que atividade natural alguma é capaz de competir com a intensidade de estímulo que as plataformas digitais oferecem. A música, o esporte, a leitura, nenhuma dessas atividades consegue gerar picos de dopamina tão rápidos e constantes quanto as redes sociais.
Essa hiperestimulação contínua tem um preço alto e duradouro: o cérebro passa a exigir cada vez mais para sentir a mesma satisfação. O sistema de recompensa fica cada vez mais ávido por prazer, mas o prazer em si vai se tornando menos prazeroso. Pessoas que usam muitos filtros em selfies, por exemplo, tendem a apresentar pior autoestima e buscam mais procedimentos estéticos, precisando sempre de novos estímulos.
O DESIGN DA MANIPULAÇÃO

A tecnologia contemporânea incorporou elementos conhecidos como “dark patterns” ou design de manipulação. Essas estruturas não são erros de engenharia, mas escolhas deliberadas, testadas e otimizadas para prender o usuário o máximo de tempo possível. Rolagem infinita, algoritmos personalizados que aprendem seus gostos e notificações estratégicas são ferramentas usadas para capturar e manter a atenção.
Os adolescentes sofrem muito mais com essas técnicas de manipulação. “O cérebro adolescente busca prazer intensamente, mas a área que avalia riscos e toma decisões (o córtex pré-frontal) é a última a amadurecer, só terminando seu desenvolvimento aos 25 anos”, explicam os especialistas. É um cérebro que está acelerando em busca de sensações enquanto os freios ainda estão em formação.
ADOECIMENTO E RESPONSABILIDADE DAS PLATAFORMAS
A perda de controle e o prejuízo na vida diária são os principais sinais de alerta para identificar a dependência digital. “O uso começa a dominar espaços que não deveria, prejudicando os estudos, o trabalho e as relações sociais reais”, dizem os psiquiatras. A pessoa planeja usar o celular só um pouco, mas quando percebe já perdeu completamente o controle do tempo.
Como isso virou um problema de saúde pública, ganha cada vez mais força a discussão sobre a necessidade de se regular as plataformas digitais. O sociólogo Richard Miskolci, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), enfatiza: “As empresas de internet não são neutras, nem meras distribuidoras de conteúdo. Elas são responsáveis pelos conteúdos e suas consequências econômicas, políticas e de segurança”.
AS REDES SOCIAIS E OS ‘CONTATOS SEM LAÇOS’

Publicado neste ano, o documento “Quo Vadis, Humanitas?”, produzido pela Comissão Teológica Internacional, do Vaticano, traz uma reflexão sobre esse tema. Sem condenar a tecnologia, o texto alerta para os riscos significativos à dignidade e à identidade humanas na era digital.
O documento destaca como as redes sociais criaram “contatos sem laços” e “relações sem solidariedade real”. As pessoas se sentem perdidas em um mar incontrolável de informações, gerando ansiedade, insegurança e solidão. Isso confirma precisamente o que os psiquiatras ouvidos nesta reportagem descrevem sobre a hiperestimulação constante.
A Comissão Teológica Internacional também aponta como os algoritmos manipulam as escolhas humanas para gerar lucro, tratando os usuários como produtos. A necessidade constante de aprovação por meio de “likes” cria uma identidade frágil, baseada na aparência e não em relações reais e autênticas. Para os jovens, a internet virou um “território de solidão, manipulação e exploração”.
O documento indica, ainda, que nesse contexto social e comunicativo, “enfraquece-se a confiança na capacidade de cada pessoa de interpretar e moldar o mundo, que escapa à compreensão prática e ao controle social, deixando-o nas mãos de burocracias gigantescas e sobrecarregadas de informação graças a sistemas tecnológicos complexos, interdependentes e ingovernáveis, pelos quais o indivíduo se sente frequentemente assediado e ameaçado. A dependência total desses sistemas complexos e sofisticados, sobre os quais o indivíduo não tem influência, cria sensações de impotência e leva a fechar-se em horizontes de sentido e de vida limitados e protegidos. A realidade torna-se uma conexão, por meio da qual se entra em uma rede de contatos e encontros que exigem agilidade, rapidez, reações imediatas, mais do que reflexividade e espírito crítico”.
Diante disso, a solução não é o abandono da tecnologia, mas, sim, o seu uso a serviço da dignidade humana, uma vez que a verdadeira realização não vem das telas, mas de relações autênticas, do encontro real e da busca de um sentido maior da própria vida e de solidariedade com o próximo.




