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‘O fortalecimento da categoria dos catadores vai beneficiar toda a sociedade’

‘O fortalecimento da categoria dos catadores vai beneficiar toda a sociedade’ - Jornal O São Paulo
Alexandre Domingos

Filho de nordestinos, nascido e criado na zona Norte de São Paulo, Alexandre Domingos puxou uma car­roça com recicláveis pela primeira vez aos 8 anos de idade para ajudar no or­çamento da família. Depois de ter ou­tros empregos, voltou a ser catador de materiais recicláveis em 2013 e, desde então, tem buscado aperfeiçoamentos para si e para os colegas de profissão.

Hoje, aos 49 anos, ele concilia o ofício com muitas outras atividades: contratado pelo Programa Opera­ção Trabalho (POT), da Prefeitura de São Paulo, trabalha no Parque Li­near do Córrego do Bispo; também é educador na Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (Umapaz); mobilizador social na ONG Pimp My Carroça; e atuante em projetos de economia solidária, visitando cooperativas para conhe­cer as demandas de cada grupo e cadastrar os coletivos informais. Além disso, participa da Unicata (@unicata_brasil), uma universida­de exclusiva para catadores. “Todo catador conhece as carac­terísticas do bairro em que trabalha, mas muitas vezes não entende bem seu papel na sociedade, pois está pre­ocupado com sua sobrevivência no dia a dia. A gente precisa se reconhe­cer como importante pelo que faz na gestão dos resíduos, e necessitamos de uma estrutura humanizada, de bons equipamentos e ferramentas, e pa­gamento digno pelo nosso trabalho”, avalia Alexandre ao O SÃO PAULO.

Falta de reconhecimento

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O experiente catador lamenta que uma parcela significativa da sociedade não reconheça a ação dos catadores como agentes socioambientais: “Para aqueles que não apoiam a gente ou vi­vem nos criticando, lixo é lixo, e quem trabalha com lixo é fracassado”.

“As pessoas deveriam entender que o fortalecimento da categoria dos ca­tadores vai beneficiar toda a socieda­de. A maioria do material que chega às indústrias de reciclagem passa pelas mãos dos catadores. Então, por que não dar a devida qualificação pra gen­te? Colocar a gente na economia cir­cular, gerando renda também para o município?”, indaga Alexandre, enfa­tizando que o ideal seria as diferentes instâncias de governo “capacitarem os catadores, arrumar a documentação de quem precisa, ver entre nós quem realmente quer continuar na categoria e garantir uma remuneração justa”.

Alexandre também critica o fato de que boa parte dos lucros da cadeia de reciclagem não fique com quem vive da reciclagem: “O trabalho do catador gera um impacto ambiental, social e econômico gigante, mas nem sempre ele tem a noção do seu papel. Por ou­tro lado, há grandes empresários que entenderam que a economia circular e o ESG são um mercado gigantes­co, mas nessa equação não entra o ‘c’, de catador. As grandes empresas e as startups estão usando a bandeira da sustentabilidade, do verde, como um nicho econômico. Ganham muito di­nheiro com isso, e daí eu sempre pen­so ‘lá vamos nós, de novo, ficar apenas com as migalhas da mesa’”.

Busca de apoio governamental

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Junto com outros colegas de pro­fissão, Alexandre tem buscado dialo­gar com vereadores da capital paulista para a elaboração de um projeto de lei segundo o qual os catadores de ma­terial reciclável sejam integrados aos ecopontos nos territórios em que atu­am: “Não queremos brigar com o po­der público, mas apenas ser inseridos e pagos pelo nosso trabalho”.

Alexandre lamenta que haja pro­jetos de instalação de incineradores de lixo (tecnicamente chamados de unidades de recuperação energéti­ca) em bairros periféricos: “Com esta medida, se pegará a fonte de renda de quem sobrevive coletando recicláveis e não se resolverá o problema de lim­peza urbana como se tem dito, já que se as pessoas não souberem usar bem os recursos naturais, os impactos am­bientais só aumentarão, pois o resíduo não poderá ser reciclado nem reutili­zado e será preciso extrair ainda mais os recursos do planeta”.

‘A sociedade precisa repensar hábitos’

Como educador socioambiental, Alexandre Domingos enfatiza que “a sociedade precisa repensar hábi­tos tanto sobre seu consumo quanto no que se refere a tratar os resíduos. Também as indústrias devem ter mais responsabilidade com as leis vigentes, como a de logística reversa e de pro­dução de embalagens”.

Ao consumidor final, que descar­ta resíduos após consumir algo, Ale­xandre recomenda simples atitudes: “Limpe as embalagens antes de des­cartá-las. Isso colabora demais com o nosso trabalho. E não custa nada para ninguém separar o resíduo seco, limpo, em um saco, e o resíduo orgânico em outro, mas é bom lem­brar que este resíduo é diferente dos rejeitos, como fraldas, absorventes e papel higiênico, que não entram na cadeia de reciclagem nem vão para a compostagem”.

Alexandre, por fim, conta que pla­neja iniciar uma consultoria ambien­tal sobre gestão de resíduos, tendo os catadores de materiais recicláveis como protagonistas: “A meta é fa­zer a inclusão social dos catadores, por meio de uma linguagem que seja entendida por quem está na rua, em situação de vulnerabilidade, e que te­nha necessidades primárias, como eu ainda tenho. É ‘muito louco’ quando ouço sobre os milhões ganhos pela in­dústria com a reciclagem, e no mesmo dia fico sabendo que tem um catador precisando de R$ 10 para comprar uma mistura para comer”.

‘O que ganho com a reciclagem não dá para pagar o aluguel’

A história de Fábio Zula Tavares é comum à de muitos catadores de ma­teriais recicláveis em São Paulo. Até abril do ano passado, ele e a esposa moravam em uma casa alugada, mas a mulher, que é diarista, precisou vol­tar à cidade natal para cuidar da mãe adoentada.

“Um tempo depois disso, fui mo­rar na calçada lá na zona Leste. Eu passo o dia pegando recicláveis: um pouco em Santana, aqui em Pinhei­ros, também no Belém, e vendo para um ferro velho. Eu pagava R$ 900 de aluguel e a minha mulher também me ajudava com as contas de água e luz. Agora, sozinho, só com o que eu ganho com a reciclagem, não dá para pagar o aluguel; por isso, tive de sair da casa”.

Fábio conversou com o O SÃO PAULO no fim de fevereiro, enquanto aguardava pelo jantar que é servido gratuitamente na Casa Padre Vitor Bertoli, em Pinheiros, no “Projeto Rango”, mantido pela Paróquia Se­nhor Bom Jesus dos Passos. Nem sempre, ele consegue comer digna­mente como naquele dia.

“Se alguém descarta uma comida, eu pego e como. Se jogam fora um copo com um pouco de milk-shake, eu tomo; se vejo sobra de batata frita, também como. Algumas pessoas até me dão lanche, mas comida mesmo [refeição], como tem aqui, é difícil conseguir”, detalhou.

Apesar das dificuldades, o homem de sorriso tímido e comedidas pala­vras manteve o brilho no olhar ao fa­lar do futuro: “Quero ter um cantinho para morar, nem que seja de aluguel. Quando a minha companheira voltar, a gente vai conseguir!”

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