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O ouvido do coração: como a escuta transforma a comunicação na Igreja

O ouvido do coração: como a escuta transforma a comunicação na Igreja - Jornal O São Paulo
Nathalia Santos, Carolina Sampaio, Milena Mar­tins e Matheus Vieira, agentes da Pascom da Paróquia Santo Antônio de Lisboa (Arquivo pessoal)

Por Benigno Naveira*

Faz parte da natureza do ser huma­no o dom de comunicar e se expres­sar. Afinal, fomos criados à imagem e semelhança de Deus, que nos enviou Seu Filho para transmitir a mensagem da salvação. Nesse processo, a escuta é o primeiro passo para o diálogo e para a boa comunicação. Não se trata ape­nas de ouvir, mas de escutar com o co­ração. Isso supõe aproximar-se do ou­tro, prestando atenção ao que ele tem a dizer a partir de sua própria realidade existencial.

DIRETRIZES ESSENCIAIS PARA A ESCUTA

Conhecer a realidade da comuni­dade de fiéis e da paróquia é o cami­nho para qualquer comunicação ver­dadeira. A premissa é clara: antes de comunicar, é preciso saber escutar.

É o silêncio da escuta ativa – acolhendo as dores e as alegrias da comunidade – que permite constru-ir uma comunicação consolidada, confiante e fidedigna.

O CÍRCULO DE ARTICULAÇÃO DA PASCOM

De acordo com o número 251 do Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, a Articulação é um dos quatro eixos fundamentais que sustentam a Pastoral da Comunicação (Pascom). Esse eixo tem o objetivo de conectar, integrar e animar as ações de comuni­cação com as demais pastorais, movi­mentos e com a comunidade em geral.

Para que a Pascom não trabalhe isoladamente, mas a serviço de toda a Igreja, é essencial manter um “vínculo de escuta” e diálogo constante com os demais coordenadores. Esse acolhi­mento mútuo promove uma integração planejada com setores como a Cateque­se, Liturgia, Juventude, entre outros.

PAPA FRANCISCO: ‘A ESCUTA CORRESPONDE AO ESTILO HUMILDE DE DEUS’

O ouvido do coração: como a escuta transforma a comunicação na Igreja - Jornal O São Paulo
Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2022, o Papa Francisco exortou os jornalistas e profissionais da área a desenvolverem a capacidade de escutar. Sob o título “Es­cutar com o ouvido do coração”, o Pontí­fice afirmou que a escuta é decisiva para um diálogo autêntico e que a Igreja tem profunda necessidade de exercitá-la.

“Estamos perdendo a capacidade de ouvir a pessoa que temos à nossa frente, tanto na teia normal das rela­ções cotidianas quanto nos debates Igreja

sobre os assuntos mais importantes da convivência civil”, alertou o Papa, reiterando que a escuta “é o dom mais precioso e profícuo que podemos ofe­recer uns aos outros”.

DIÁLOGO COM DEUS E COM A HUMANIDADE

O Papa Francisco ressaltou que, na sociedade atual, a escuta experimenta um novo desenvolvimento no campo comunicativo e informativo. Ele citou o crescimento de podcasts e chats de áudio, como prova de que ouvir con­tinua essencial.

Francisco explicou ainda que, a partir das páginas bíblicas, aprende­mos que a escuta não é apenas uma percepção acústica, mas está ligada à relação de diálogo entre Deus e a hu­manidade. Ele recordou o Shema Israel (“Ouve, ó Israel” – Dt 6,4), que abre o primeiro mandamento, sublinhando que, entre os cinco sentidos, Deus pa­rece privilegiar justamente a audição.

A REALIDADE PRÁTICA: DESAFIOS E VIVÊNCIAS NA VILA EDE

Para compreender como essa te­oria se aplica no cotidiano paroquial, conversamos com a equipe da Pascom da Paróquia Santo Antônio de Lisboa, localizada na Vila Ede, Decanato São Tiago de Zebedeu da Região Santana. Participaram da conversa Milena Mar­tins Marciliano, coordenadora da Pas­com paroquial, e os agentes Matheus Vieira de Oliveira, Carolina Sampaio de Meireles e Nathalia Santos.

Quando questionado sobre o maior desafio atual do grupo, Matheus Vieira apontou a gestão das redes sociais e o alinhamento de tempo com a comuni­dade: “O maior desafio que a Pascom enfrenta hoje na Paróquia é a forma de divulgar as ações e a agenda nas redes sociais. Conciliar a nossa agenda com a dos membros de outras pastorais é difícil, pois dependemos da disponibi­lidade de voluntários. Outro ponto é a inclusão digital: nem todos estão acos­tumados ao manuseio das redes, o que exige que o nosso trabalho de divulga­ção seja ainda mais forte e didático”.

Para Milena Martins, caminhar em sintonia com a Paróquia exige desmis­tificar o papel do comunicador católi­co: “É um trabalho que parece simples, mas é um grande desafio. Ser Pascom não é apenas tirar fotos e gravar víde­os; é fazer com que as pessoas simples entendam, por meio dessas mídias, o que significa ser Igreja. A clareza vem de uma comunicação limpa e sem ru­ídos. Para ter visibilidade, precisamos primeiro nos comunicar bem inter­namente e nos encontros regionais. A ação fala mais alto do que as palavras: nosso papel é dar visibilidade ao outro, antes de nós mesmos”.

Ao falar sobre a percepção dos paroquianos a respeito da Pastoral, Carolina Sampaio destacou que o entendimento ainda é um processo em construção: “Muitas comunidades ainda não compreendem totalmente a importância da Pascom. Nosso papel essencial não é meramente informar, mas sim evangelizar, unir as pessoas e dar voz à Igreja”.

A agente Nathalia Santos enfatizou o papel espiritual da Pastoral como forma de evitar o esvaziamento de sen­tido: “Uma Pascom que não escuta é uma Pascom que não dialoga com o povo de Deus, tornando-se mera buro­cracia. Escutar com o coração é o di­ferencial que nos impede de virar um setor puramente técnico. Quando reza­mos, escutamos melhor; e quando es­cutamos, a comunicação flui melhor”.

Por fim, Milena destacou o apoio fundamental do Padre Maurício José de Lima, Pároco, que incentiva ativa­mente o trabalho da equipe nos meios de comunicação paroquiais, apoio que culminou, recentemente, no lança­mento do novo site da Paróquia.

*Benigno Naveira é jornalista, assessor de imprensa e membro da Pastoral da Comunicação (Pascom) da Região Lapa.

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