Sobram contas a pagar e falta dinheiro, o que fazer?

Renegociar valores e prazos de algumas dívidas e comprar apenas itens essenciais na ida ao supermercado são algumas das alternativas apresentadas por uma economista ouvida pelo O SÃO PAULO. Veja também as recomendações da Associação Brasileira de Educadores Financeiros

Nova rodada do auxílio emergencial começará a ser paga em 6 de abril (foto: Agência Brasil)

O agravamento da pandemia de COVID-19 no Brasil tem gerado não só o colapso do sistema de saúde, mas, também, impactos na renda das famílias, uma vez que mais de 34 milhões de brasileiros, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são trabalhadores informais e, assim, têm sido altamente impactados com as medidas de isolamento social adotadas por governos estaduais e municipais na tentativa de conter a proliferação do novo coronavírus.

Alguns municípios e estados já têm repassado verbas às famílias mais carentes, e na terça-feira, 6, começará a ser pago o auxílio emergencial do Governo Federal a 45,6 milhões de pessoas em situação de maior de vulnerabilidade social, em quatro parcelas, cujo valor médio será de R$ 250 por família, mas haverá variações: R$ 150 para pessoas que moram sozinhas e R$ 375 para família monoparental dirigida por uma mulher.

O recurso ajudará a atenuar as condições de vida dos mais pobres, mas não representará um conforto para sua subsistência, levando-se em conta que, por exemplo, apenas o custo médio de uma cesta básica com 25 itens elementares é de R$ 893,567, conforme dados da Fundação Procon.

Diante da escassez de recursos para colocar alimento na mesa e saldar as dívidas, muitas famílias se veem obrigadas a priorizar alguns gastos e renegociar outros. Em entrevista ao O SÃO PAULO, a economista Cristiane Mancini, mestra em Economia pela PUC-SP e gerente de produto Ceic América Latina, dá orientações sobre como gerir o orçamento doméstico neste momento.

Ao final da reportagem, também é apresentada uma relação de dicas elaboradas pela Associação Brasileira de Educadores Financeiros.

Tarifas de água e energia elétrica: se necessário, pague-as depois

Cristiane Mancini lembra que, embora o não pagamento desses débitos agora possa gerar um descontrole futuro, neste momento é preciso que a família considere que este pode ser um alívio pontual para as finanças, uma vez que o não pagamento, ao menos pelos próximos meses, não levará a cortes no fornecimento.

“Anotemos as contas de água, telefone, luz que não serão pagas no mês corrente (atual) para termos consciência do que ainda nos cabe pagar. Uma vez trazendo ao nosso conhecimento, adquirimos responsabilidade e controle. E, para este momento, utilizaremos o Bolsa Família e o auxílio emergencial para questões relacionadas à alimentação, que nos traz saúde, e para o transporte, que nos contribuirá para o deslocamento para trabalhar”, comenta.

No mercado, compre o essencial

Sobre a ida ao mercado, a economista recomenda: “Elabore uma listinha do que realmente é necessário e daqueles produtos que podem ser substituídos por outros, caso os que se deseja estejam caros. Este é um momento de racionalizar tudo aquilo que não é necessário. Assim, substitua todo produto que estiver caro. É temporário, valerá a pena, para que após esse período a tranquilidade financeira persista”.

Deve-se pagar as dívidas usando o cartão de crédito?

Foto: Memória USP

Cristiane aconselha que o cartão de crédito seja usado somente por aqueles que podem contar com uma renda fixa mensal: “Se o que se ganha não é certo, é indeterminado, como é o caso para a maioria dos brasileiros, fazer compras com o cartão de crédito representa uma cilada. Cartão de crédito não é uma segunda renda. Nunca! E precisamos nos lembrar disso. E ainda: nunca pague o mínimo, pois a sua dívida está passando de mês para mês, acrescida de juros”.

No entanto, se puder, pague agora as dívidas que já tenha no cartão de crédito

Cristiane comenta que os bancos tem oferecido “bons descontos para os que desejam sanar suas dívidas. Então, recomendo altamente que essa negociação seja feita e se barganhe o quanto for necessário, para conquistar um desconto maior. Quanto antes honrar suas dívidas, menos juros incidirão sobre elas. O mesmo vale para quando órgãos como o Serasa divulgarem campanhas de limpeza de nome da pessoa física e jurídica. Fiquem atentos a esse momento que sempre ocorre pelo menos uma vez ao ano. Ter o nome limpo contribui para um novo emprego, um financiamento e/ou tomada de empréstimo”.

Analise a real necessidade de adquirir um empréstimo financeiro

A economista recomenda que antes de recorrer a um empréstimo em banco ou instituição de crédito, as famílias e as pessoas físicas em geral, “consultem parentes próximos que possam ajudá-los neste momento. Dessa forma, receberão a ajuda necessária, mas não precisarão pagar juros, como ocorreria caso se tomasse empréstimos de bancos ou outras instituições”.

No caso de instituições, porém, o empréstimo é uma alternativa a ser considerada: “Se uma empresa necessitar da tomada de empréstimo para honrar os salários de seus colaboradores, eu recomendo. Atualmente, já existem microcréditos com baixas taxas de juros para esse momento. O mesmo ocorre se houver a necessidade de troca de equipamentos ou maquinários que estiverem obsoletos ou quebrados”.

E se o aluguel não couber mais no orçamento?

Cristiane recomenda que a primeira atitude a ser feita é tentar a renegociação com o dono do imóvel: “Explique o momento que está atravessando. Se for um bom pagador, mencione esse ponto com o proprietário”.

No entanto, “caso a renegociação não seja possível, recomendo totalmente que se mude para outro imóvel. Pesquise diversas opções, como bairros diferentes e/ou imóveis menores, para que caiba em seu orçamento e que não seja um desafio a mais nesse momento incerto e delicado”.

É hora de usar a reserva financeira para empreender a partir de casa?

Neste tempo de recursos escassos, muitos têm investindo em alternativas de geração de renda a partir do ambiente doméstico, fazendo o uso de alguma reserva financeira para empreender.

“Toda renda extra é sempre bem vinda”, observa Cristiane. Ela lembra, porém, que alguns segmentos, como o de alimentação, já estão inflados, de maneira que é preciso se pensar em alguma diferenciação do produto para haver algum lucro.

“Por exemplo: se você escolhe vender brigadeiros, precisa que esse seja diferenciado, tenha algo que os outros não possuem. Não digo aqui de ingredientes caros, mas, por exemplo, se os brigadeiros têm um formato diferente, são entregues com um ‘bilhetinho; ou seja, você está agregando valor a esse produto que parece simples e comum aos concorrentes. Isso se faz necessário, porque tenho certeza que muitos terão a mesma ideia. Então, faça algo diferenciado. Do contrário, o brigadeiro será o mesmo que os demais e o custo que obteve para fazê-lo será igual ao que receberá, não haverá lucro”.

Tenha controle do que gasta

Foto: Pixabay

A economista considera fundamental que as pessoas tenham controle dos gastos que realizam, o que não necessariamente precisa ser feito no ambiente on-line ou no computador, uma vez que, conforme recordou, 46 milhões de brasileiros não têm acesso à internet ou não dispõem de computadores, tablets ou telefone celular.

“Basta que se registre tudo em um simples papel. E para aqueles que possuírem internet, recomendo o Mobills, o MoneyWise e o Minhas Economias, que são gratuitos, de fácil acesso e registro. Para os que desejarem que a sua conta corrente esteja interligada ao aplicativo, o GuiaBolso pode ajudar”, concluiu.

DICAS DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDUCADORES FINANCEIROS
 
1) Reúna a família, exponha a realidade e pense em ações conjuntas de redução de gastos;
 
2) Foque a alimentação básica, sem luxos e supérfluos; opte pelos produtos básicos, com custos menores e esqueça marcas e outras questões que possam elevar o preço;
 
3) Proteja a reserva financeira, caso a tenha, pois o dinheiro vale muito mais nesses momentos;
 
4) Avalie a possibilidade de postergar o pagamento das contas de energia elétrica, água e gás;
 
5) Busque suspender pacotes de TVs a cabo e reduzir os pacotes de telefone e internet. O ideal é a redução sem cortes;
 
6) Busque por atividades que não envolvam custos;
 
7) Evite comprar coisas que não sejam essenciais;
 
8) Analise cada uma das dívidas e, se possível, suspenda o pagamento ou renegocie as prestações;
 
9) Busque produzir produtos em casa que possam ser vendidos, a fim de se arrecadar algum dinheiro, mesmo que seja um valor baixo; use ambientes de venda on-line;
 
10) Se tiver cartão de crédito e faturas que não tenha como saldar ou que vão comprometer seu caixa e sua reserva, o melhor a fazer é postergar o pagamento;
 
11) Caso necessite fazer empréstimos, evite a qualquer custo linhas como cheque especial e cartão de crédito que possuem juros exorbitantes;
 
12) Busque por uma possibilidade de renda mesmo estando dentro de sua casa.
 
Fonte: Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (ABEFIN)

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