Transplante de córnea tem alta de 90% após queda de casos de COVID-19

Médico alerta para os sinais do ceratocone que responde por 70% dos transplantes e é confundido com necessidade de usar óculos

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A pandemia de coronavírus interrompeu o transplante e a captação de córnea várias vezes em 2020. Por isso, entre todos os tipos de transplantes foi o que sofreu a maior queda no Brasil conforme relatório da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Os dados mostram que de 2019 para 2020, o País reduziu o número de transplantes de córnea em 56%, totalizando entre janeiro e setembro, 10.977 e 4.807 transplantes de córnea respectivamente.

A boa notícia é que entre janeiro e setembro deste ano o transplante de córnea quase dobrou no País. Somou 9.137 procedimentos, um crescimento de 90% em relação às 4.807 cirurgias realizadas no mesmo período de 2020.

Segundo oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, presidente do Instituto Penido Burnier, a queda no número de transplantes em 2020, somada à descontinuidade no acompanhamento oftalmológico da saúde ocular explica o aumento de 84% na fila de espera por córnea no País, apesar da retomada das cirurgias e captações este ano.

No ranking da fila de espera os três estados com o maior número de pessoas aguardando pelo transplante são: São Paulo (3,5 mil), Minas Gerais (2,7 mil) e  Rio de Janeiro (2,6 mil).

O especialista ressalta que neste cenário nunca foi tão importante manter o acompanhamento oftalmológico em dia. Isso porque, pode ocorrer uma nova onda da pandemia de COVID-19 e um recente estudo publicado no JAMA, conceituado jornal da Associação Médica Americana, mostra que 55% das córneas de falecidos de COVID-19 carregam partes do vírus e por isso as captações podem diminuir.

CAUSA

O oftalmologista afirma que o ceratocone responde a 7 de cada 10 transplantes de córnea no Brasil. A estimativa do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) é de que 100 mil brasileiros tenham a doença. 

O ceratocone enfraquece e afina a córnea, lente externa do olho que vai tomando o formato de um cone conforme progride. Geralmente surge na infância e adolescência.

“No início, pode ser confundido com astigmatismo. Isso porque, logo que surge pode ser corrigido com óculos, geralmente coexiste com astigmatismo e as duas alterações têm vários sintomas em comum: visão desfocada para perto e longe, fotofobia, ofuscamento e visão embaçada”, salientou.

 A principal diferença é a troca mais frequente dos óculos no ceratocone, sobretudo entre crianças por conta da progressão mais acelerada durante a infância.

Os principais fatores de risco elencados pelo médico são:

·         Casos na família

·         Algum tipo de alergia

·         Síndrome de Down

·         Olho seco

·         Hábito de coçar os olhos

·         Apneia do sono

·         Miopia e alta miopia

Diagnóstico

Queiroz Neto afirma que na mulher o ceratocone pode ser descoberto durante a gravidez. Não quer dizer que a gestação cause a doença. “Significa que a maior retenção de água causada pelas mudanças hormonais altera a refração e pode piorar bastante a visão de gestantes”, comenta.

Por isso, para quem têm astigmatismo ou convive com algum fator de risco, o médico recomenda incluir no planejamento da gestação a tomografia da córnea. Isso porque, o exame avalia milhares de pontos das duas faces da córnea e pode flagrar o ceratocone bem no início “Já atendi pacientes que nem desconfiavam ter ceratocone e a tomografia permitiu o diagnóstico precoce”, afirma.

TRATAMENTOS

O oftalmologista destaca que diversos estudos mostram que geralmente o ceratocone progride mais rápido até a idade de 25 anos. Hoje há tratamentos para impedir o transplante, mas devem seguir protocolos. Um deles é o crosslinking, único que interrompe a progressão do ceratocone em 90% dos casos.

O especialista explica que o procedimento é ambulatorial e feito com anestesia local (colírio). Aumenta em até 3 vezes a resistência da reticulação da córnea.  Consiste na aplicação de vitamina B2 (riboflavina) e luz ultravioleta na córnea. Em 3 dias as atividades podem ser retomadas.

Queiroz Neto ressalta que o croslinking é contraindicado para córnea com espess ura inferior a 400 micras, olhos com cicatrizes e outras alterações externas, portadores de glaucoma e histórico de herpes.

Outra terapia que pode evitar o transplante é o implante de anel intraestromal que aplana a córnea, deixa a lente mais estável no olho e melhora a visão. Para que tem muito desconforto no uso de lentes rígidas para corrigir o ceratocone a alternativa é a lente escleral que invés de ficar apoiada na córnea se apoia na esclera.

“Igual a todas as outras doenças, no ceratocone a prevenção continua sendo o melhor remédio, principalmente porque no transplante pode ocorrer rejeição”, conclui.

Fonte: Assessoria LDC Comunicação

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