O SÃO PAULO apresenta a trajetória do santo que morreu há 800 anos, deixando como legado o carisma franciscano e o louvor à criação a Deus

São Francisco de Assis “manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, sua dedicação generosa, seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo”.
Assim o Papa Francisco sintetiza, no parágrafo 10o da encíclica Laudato si’, as virtudes do Santo que há 800 anos, em 3 de outubro de 1226, falecia, deixando ao mundo o testemunho de quem mudou de vida após converter-se a Cristo e que a Ele foi fiel até o fim.
POR QUE BUSCAR O SERVO EM VEZ DO SENHOR?

Nascido em Assis, entre o final de 1181 e o início de 1182, Francisco aprendeu o ofício do pai, Pedro de Bernardone, um rico comerciante de tecidos, e viveu a juventude em estilo mundano. Aos 20 anos, participou de uma ação militar feudal de Assis contra Perugia, na qual acabou preso. Adoeceu, foi libertado e regressou a Assis, permanecendo acamado durante meses.
Após recobrar a saúde, aderiu às Cruzadas, mas na cidade de Espoleto voltou a sentir-se mal e, conforme relatam diferentes biógrafos do Santo, teria ouvido: “Por que te inquietas em buscar o servo em vez do Senhor?”
CONVERSÃO APÓS O ENCONTRO COM O LEPROSO

De volta a Assis, Francisco se via inquieto diante das dúvidas sobre o caminho a seguir. Em busca de respostas, foi a Roma e no regresso à terra natal intensificou os momentos de oração na pequena e malconservada Igreja de São Damião. Em uma das ocasiões em que se dirigia a cavalo à capela, teve compaixão de um leproso, cuja presença sempre lhe causara nojo: deu-lhe dinheiro e um beijo de amizade.
Essa passagem da vida do Santo foi recordada pelo Papa Bento XVI no Angelus de 12 de fevereiro de 2012: “Ele a resume no início do seu Testamento: ‘Assim o Senhor concedeu-me, a mim Frei Francisco, começar a fazer penitência: porque, quando eu vivia no pecado, parecia-me demais amargo ver os leprosos. E foi o próprio Senhor quem me levou para o meio deles, e fui misericordioso para com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo transformou-se para mim em doçura da alma e do corpo; e depois, detive-me um pouco e saí do mundo’. Naqueles leprosos, que Francisco encontrou quando ainda vivia ‘no pecado’ – como ele mesmo diz – estava presente Jesus; e quando Francisco se aproximou de um deles e, vencendo a própria repugnância, abraçou-o, Jesus curou-o da sua lepra, ou seja, do seu orgulho, convertendo-o ao amor de Deus”
‘VAI E RECONSTRÓI A MINHA IGREJA’

Após o encontro com o leproso, Francisco deteve-se em oração diante do crucifixo na Igreja de São Damião e ouviu: “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas”.
Inicialmente, pensou tratar-se de uma reconstrução arquitetônica, mas a missão era maior, conforme explicou Bento XVI na catequese de 27 de janeiro de 2010.
“Este simples acontecimento da Palavra do Senhor ouvida na Igreja de São Damião esconde um simbolismo profundo. Imediatamente São Francisco é chamado a reparar esta pequena igreja, mas o estado de ruínas deste edifício é símbolo da situação dramática e preocupante da própria Igreja naquele tempo, com uma fé superficial que não forma e não transforma a vida, com um clero pouco zeloso, com o refrear-se do amor; uma destruição interior da Igreja que implica também uma decomposição da unidade, com o nascimento de movimentos heréticos. Contudo, no centro desta Igreja em ruínas está o Crucifixo que fala: chama à renovação, chama Francisco a um trabalho manual para reparar concretamente a pequena Igreja de São Damião, símbolo da chamada mais profunda a renovar a própria Igreja de Cristo, com a sua radicalidade de fé e com o seu entusiasmo de amor a Cristo”.
ENTREGA TOTAL A CRISTO E AOS POBRES

Diante das atitudes de Francisco, o pai, Pedro de Bernardone, impôs-lhe punições e exigiu que devolvesse tudo o que recebera. O jovem, então, em praça pública, e diante do bispo de Assis, despojou-se por completo do que vestia. Deixou a família, passou a servir ainda mais os leprosos, a trabalhar na reconstrução das capelas e oratórios e a mendigar alimento.
“Em 1208, teve lugar outro acontecimento fundamental no itinerário da sua conversão. Ouvindo um trecho do Evangelho segundo Mateus – o sermão de Jesus aos Apóstolos enviados em missão – Francisco sentiu-se chamado a viver na pobreza e a dedicar-se à pregação. Outros companheiros se uniram a ele, e, em 1209, veio a Roma, para submeter ao Papa Inocêncio III o projeto de uma nova forma de vida cristã”, sintetizou Bento XVI na já referida catequese.
A exemplo de seu fundador, os franciscanos continuam a ver o Cristo nos pobres, conforme explicou ao O SÃO PAULO o Frei Marcos de Melo, OFM, conselheiro do Sefras – Ação Social Franciscana: “Ele escolheu estar com aqueles que na sociedade eram os mais afastados, como os leprosos. Essa espiritualidade nos dá suporte e procuramos sempre proporcionar às pessoas o resgate da própria dignidade, como nos trabalhos que fazemos com a população em situação de rua. Para nós, toda pessoa é um ser humano e merece atenção”.
A EXPANSÃO FRANCISCANA

Tendo sua missão aprovada pelo Papa em 1209, Francisco e seus companheiros empenharam-se na pregação do Evangelho, atraindo novas pessoas, uma delas a nobre Clara, que em 1212 fundou a segunda Ordem Franciscana, das Damas Pobres (Clarissas). Com a crescente adesão de leigos, surgiu em 1221 a Ordem Franciscana Secular.
Antes disso, em 1218, por meio da bula Cum dilecti, o Papa Honório III apoiou as missões dos frades menores em diversos países da Europa e em Marrocos. No ano seguinte, Francisco foi ao Egito dialogar com o sultão muçulmano Al-Malik al-Kamil, com vistas a pregar o Evangelho de Jesus no Oriente Médio.
Em 1220, o fundador dos franciscanos visitou a Terra Santa e, na volta à Itália, entregou o governo da Ordem ao Frei Pedro Cattani. A partir de então, Francisco passou a redigir a Regra definitiva dos franciscanos, que seria aprovada por Honório III em 1223. Ao final daquele ano, para externar sua alegria pela aprovação, o ‘Pobrezinho de Assis’ encenou na cidade de Greccio a natividade de Jesus, dando início à tradição do presépio de Natal.
OS ESTIGMAS E O CÂNTICO DAS CRIATURAS

Em agosto de 1224, Francisco, na companhia de alguns confrades, subiu o Monte Alverne para um retiro de oração e jejum de 40 dias, preparatório para a festa de São Miguel Arcanjo. Lá recebeu os estigmas de Cristo. A saúde do fundador dos franciscanos pioraria a partir de então. No outono de 1225, já muito debilitado e praticamente cego, isolou-se na Igreja de São Damião, onde escreveu o famoso Cântico das Criaturas, também chamado de Cântico do Irmão Sol, no qual louva a Deus por todas as maravilhas da criação.
“O louvor vem de um homem exausto. Que voz encontra expressão em um Francisco doente, agora consumido por uma vida de peregrinação, oração e pregação? Que voz em um corpo que se torna terra, pó, sombra? Uma voz que, antes de tudo, sussurra: ‘Altíssimo’. Ele era um homem habitado por uma vertiginosa sensação das insondáveis alturas do Mistério”, detalhou o escritor Davide Rondoni, presidente do Comitê Nacional da Itália para o 8º centenário da morte de São Francisco de Assis, em artigo no site do movimento Comunhão e Libertação (www.clonline.org/it).
Rondoni destacou ainda que o Cântico é a voz de um homem “triste e contente”, que “canta louvores à criação, um sinal Dele, não à Natureza como uma entidade per-feita […] o Cântico que se inicia com ‘Altíssimo’ termina com ‘humildade’, e em seu corpo todas as coisas que se manifestam no universo são lembradas com bondade e admiração. Amáveis não porque são minhas, ou boas em si mesmas, mas porque foram criadas. Mesmo a ela, a sempre ofendida, a sempre odiada, a sempre temida, Francisco chama de “irmã”, Irmã Morte. Quem a chamou assim?”
MODELO DE FÉ PARA TODA A IGREJA

Em 3 de outubro de 1226, aos 44 anos de idade, Francisco faleceu na igreja da Porciúncula, nos arredores de Assis. Dois anos depois, em 16 de julho de 1228, seria canonizado.
São João Paulo II, na missa que presidiu na Basílica de São Francisco, em 12 de março de 1982, referiu-se ao fundador dos franciscanos como aquele a quem “o Filho de Deus quis revelar, em medida especial e com especial abundância, aquilo que lhe foi entregue pelo Pai para todos os homens, para todos os tempos”.
Bento XVI, na já mencionada catequese de 2010, recordou a designação de ‘alter Christus’ dada a São Francisco: “De fato, era este o seu ideal: ser como Jesus; contemplar o Cristo do Evangelho, amá-Lo intensamente, imitar as Suas virtudes. Em particular, ele quis dar um valor fundamental à pobreza interior e exterior, ensinando-a também aos filhos espirituais”.
O Papa Leão XIV, na carta aos ministros gerais da Conferência da Família Franciscana, em 10 de janeiro deste ano, destacou que a visão franciscana da paz “não se limita às relações entre os seres humanos, mas abraça toda a criação. Francisco, que chama ao sol ‘irmão’ e à lua ‘irmã’, que reconhece em cada criatura um reflexo da beleza divina, lembra-nos de que a paz se deve estender a toda a família da criação”.
Por fim, Leão XIV fez votos de que “o exemplo e a herança espiritual deste Santo, forte na fé, firme na esperança e ardente na caridade operosa para com o próximo, suscitem em todos a importância de confiar no Senhor, de se dedicar a uma existência fiel ao Evange-lho, de aceitar e iluminar com a fé e com a oração todas as circunstâncias e ações da vida”.
(Com informações de Franciscanos.org.br, Comunhão e Libertação e Vatican News)



