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A ecologia humana: do enfrentamento moral à corrupção

Em 2006, realizou-se no Vaticano uma conferência internacional, organizada pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz (atualmente integrado ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral), sobre o tema “A Luta contra a Corrupção”. No texto, ganha destaque o conceito de “ecologia humana”, formulado por São João Paulo II na Centesimus Annus (CA 38-40). O Papa traçava, no documento, um paralelo entre os ecossistemas naturais, nos quais uma série de relações são necessárias para garantir a vida; e um ecossistema humano, em que é imprescindível um “ambiente moral” adequado para o pleno desenvolvimento do ser humano. A pessoa recebe de Deus sua estrutura essencial e uma vocação, que deve ser respeitada e cultivada, não destruída. Isso implica que a família, célula fundamental da sociedade, tenha condições dignas de habitação, trabalho e cultura para florescer, que as relações sociais sejam justas e honestas, para formar pessoas igualmente justas e honestas. É uma visão de ecologia humana que une respeito à criação e justiça social. A seguir, apresentamos alguns trechos da síntese final do encontro sobre corrupção, assinada pelo Cardeal Renato Raffaele Martino (Presidente do Conselho na época) e Dom Giampaolo Crepaldi (Secretário), destacando uma abordagem sobre a ecologia humana.

A ecologia humana: do enfrentamento moral à corrupção - Jornal O São Paulo

O fenômeno da corrupção sempre existiu, mas só foi reconhecido internacionalmente nos últimos anos. […] É um fenômeno que não conhece fronteiras políticas ou geográficas. Existe tanto em países ricos quanto em países pobres. […] Afeta todos os setores da sociedade […] 

Um mal que corrói o espírito dos cidadãos. Se a corrupção constitui um grave dano material e um enorme custo para o crescimento econômico, os seus efeitos sobre os ativos intangíveis, mais intimamente ligados à dimensão qualitativa e humana da vida social, são ainda mais negativos. A corrupção política, como ensina o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, “compromete o bom funcionamento do Estado, influenciando negativamente a relação entre quem governa e quem é governado; introduz uma crescente desconfiança nas instituições públicas, provocando uma progressiva desafeição dos cidadãos em relação à política e aos seus representantes, com o consequente enfraquecimento das instituições […] Desta forma, as escolhas políticas favorecem os objetivos restritos daqueles que possuem os meios para influenciá-las e impedem a realização do bem comum de todos os cidadãos” (CDSI 411) […] A corrupção deve ser considerada “entre as causas que mais contribuem para o subdesenvolvimento e a pobreza” (CDSI 447).

A corrupção priva as pessoas de um bem comum fundamental: a legalidade, o respeito às regras, o bom funcionamento das instituições econômicas e políticas e a transparência. A legalidade é um verdadeiro bem comum com apelo universal. De fato, é uma das chaves para o desenvolvimento, pois permite o estabelecimento de relações adequadas entre a sociedade, a economia e a política […] A prática e a cultura da corrupção devem ser substituídas pela prática e pela cultura da legalidade.

Para superar a corrupção, a transição de sociedades autoritárias para democráticas é positiva. Mas essas transições não garantem ser automaticamente positivas […] Por um lado, a corrupção é autoritária interna e externamente, porque nessas sociedades é mais difícil perceber suas manifestações: os corruptos e os corruptores, na ausência de transparência e de um verdadeiro Estado de Direito, podem permanecer ocultos e até mesmo protegidos […] Por outro lado, mesmo em sociedades com governos e instituições democráticas abertas e livres, os perigos espreitam.

A ecologia humana para uma sociedade moralmente saudável. Para evitar esses perigos, a Doutrina Social da Igreja propõe o conceito de “ecologia humana” (NdE: São João Paulo II usa este conceito para indicar que as virtudes dependem de um “ecossistema moral” que as estimule, cf. Centesimus Annus, CA 38), que também é adequado para orientar o combate à corrupção. As atitudes corruptas só podem ser adequadamente compreendidas se forem vistas como fruto de lacerações na ecologia humana. Se a família não consegue desempenhar seu papel educativo, se leis contrárias ao autêntico bem da pessoa, como as leis contra a vida, deseducam os cidadãos sobre o bem, se a justiça avança com excessiva lentidão, se a moral básica é enfraquecida pela transgressão tolerada, se as condições de vida são degradadas, se as escolas não acolhem e emancipam, não é possível garantir essa “ecologia humana”, cuja ausência também dá origem ao fenômeno da corrupção. Não se deve esquecer, de fato, que a corrupção abrange um conjunto de relações, cumplicidades, obscurecimento das consciências, chantagens e ameaças, pactos e conivências tácitas que envolvem, antes das estruturas, os indivíduos e sua consciência moral. Aqui, com enorme importância, reside a educação e a formação moral dos cidadãos e a tarefa da Igreja, que, presente com suas comunidades, instituições, movimentos, associações e fiéis, pode desempenhar um papel cada vez mais importante na prevenção da corrupção […]

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