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A frustração com a corrupção e a ilusão populista

Líderes sábios e virtuosos, ao combaterem a corrupção, buscam fortalecer as instituições

A frustração com a corrupção e a ilusão populista - Jornal O São Paulo
Imagem criada por IA: Google Gemini

O populismo é um fenômeno político muito tentador, mas profundamente contrário à Doutrina Social da Igreja (DSI). É tentador porque o líder populista se apresenta sempre como defensor dos desamparados, idôneo e honesto ou, ao menos, alguém que comete apenas deslizes desculpáveis, se comparados aos de seus adversários. Mas o populismo é contrário à DSI porque desestimula o protagonismo e a participação política das pessoas e a ação dos corpos intermediários, princípios fundamentais da DSI, como lembra o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI 105-106, 190-191, 393-395). Tudo passa a ser centralizado e determinado pelo líder populista e seus quadros

Por isso, o Papa Francisco sublinhou a diferença entre os líderes populares, que procuram a participação e a justa expressão dos movimentos populares, e o populismo como prática que se arvora em única voz legítima do povo e acaba por substituí-lo (Fratelli tutti, FT 156-161).

O populismo e a corrupção. Todo líder populista se apresenta como ferrenho inimigo da corrupção. Contudo, pela própria dinâmica do sistema populista, ele certamente combaterá a corrupção praticada por seus adversários, mas nem sempre será igualmente assertivo com seus aliados e consigo mesmo.

O problema está na dinâmica do populismo: para ser bem-sucedido, o líder populista precisa apresentar-se como absolutamente confiável pa-ra seus seguidores, enquanto realiza acordos e conchavos para garantir-se no poder. Mais do que uma ideologia, o populismo é uma forma de gerir o poder, transversal à direita e à esquerda, que divide a sociedade entre um “povo puro, honesto e trabalhador” (que, hoje em dia, abrange inclusive as classes médias) e uma “elite corrupta”. Seu líder pretende ser o único representante e defensor do povo, deslegitimando adversários, tribunais, imprensa e demais corpos intermediários (forças sociais que poderiam limitar e denunciar seus abusos), ao mesmo tempo em que realiza pactos com as elites que publicamente diz combater.

Um desafio não só pessoal, mas sistêmico. O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) 2025, da Transparência Internacional, demonstrou que existe no mundo uma percepção generalizada do aumento da corrupção, que mina a confiança nos agentes públicos e gera ressentimento. Cria-se, assim, um contexto favorável a soluções autoritárias: alguém que finalmente castigará os corruptos e evitará que o dinheiro dos impostos vá parar no bolso dos aproveitadores. Contudo, a corrupção quase sempre é sistêmica, integra o que São João Paulo II chamou de “estruturas de pecado” (Sollicitudo Rei Socialis, SRS 36), “distorce na raiz a função das instituições representativas”, fazendo as escolhas políticas favorecerem apenas quem tem meios de influenciá-las (CDSI 411). Por isso, propostas centradas em condenar este ou aquele corrupto, sem criar as bases para erradicar o sistema que fomenta a corrupção, frequentemente fracassam assim que os aliados do líder no poder passam a ser investigados.

Instituições fortes: o combate que dura. Não existe combate à corrupção sem uma decisão moral firme de buscar o bem comum, a justiça e a verdade (cf. Pontifício Conselho Justiça e Paz. A luta contra a corrupção, nº 9). Porém, o agente público honesto – seja político, seja funcionário, seja magistrado – reconhece as limitações e os constrangimentos a que está sujeito. Sabe que o combate à corrupção não será bem-sucedido apenas com a perseguição aos corruptos. É necessário dedicar-se ao desenvolvimento das instituições – tribunais independentes, parlamentos plurais, imprensa livre, universidades e demais corpos intermediários – para que se tornem cada vez mais transparentes e robustas. É justamente por enfraquecerem tais instituições, responsáveis por intermediar e limitar o poder, que os populismos se consolidam; fortalecê-las não é apenas boa prática administrativa, mas uma das formas mais eficazes de conter o próprio fenômeno populista.

Por isso, os grandes políticos que se inspiraram no pensamento social cristão sempre procuraram criar obras e desenvolver instituições em que a busca pelo bem comum e a probidade no uso dos recursos fossem cada vez maiores. Quem afirma querer combater a corrupção sem aperfeiçoar as instituições acabará por combater apenas a corrupção dos adversários políticos, mas não terá como combater a corrupção praticada por seus próprios aliados.

Nossa responsabilidade. Diante da corrupção, todo cidadão é chamado a uma conduta ética: não só não corromper e não se deixar corromper, mas não se deixar convencer por promessas vazias, nem permitir que o ressentimento turve sua visão, levando a condenar adversários e absolver aliados igualmente corruptos.

Aqui a conversão cristã pode desempenhar um papel fundamental, raras vezes percebido. Quem se descobre amado e perdoado por Deus tem mais facilidade para olhar o mundo com sinceridade, buscar a verdade e a justiça, amar os pobres, sem apegar-se a posições ideológicas ou partidárias. “Aquele que ama a Cristo é livre: liberta-se da autoafirmação e do egoísmo” (Deus caritas est, DCE 6). Citando a Gaudium et Spes (GS 10), o Papa Francisco lembrava que “os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados àquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração humano” (Dilexit nos, DN 29), de modo que “o nosso coração unido ao de Cristo é capaz deste milagre social” (DN 28).

As nossas maiores ameaças “não vêm de fora” (perseguição, hostilidade), pois estas o próprio Evangelho nos ensina a não temer: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28). Os piores ataques são aqueles que minam por dentro nossa confiança em Deus, que nos fazem perder tanto a unidade, que é sinal de Cristo presente, quanto o discernimento, que nasce da caridade e da busca sincera pela verdade.

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