O Papa, em sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz, da qual extraímos os trechos a seguir, lembra-nos do que considera uma “revolução silenciosa” trazida por Cristo: “A paz esteja convosco”.

“A paz esteja contigo!” Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. “A paz esteja convosco!” ( Jo 20,19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. […] E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente.
[…] A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade […] Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. […] “Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa” (Sermão 357) […] Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. […] É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. Também nos lugares onde só restam escombros e onde o desespero parece inevitável, ainda hoje encontramos quem não esqueceu a paz.
[…] Jesus disse aos que estavam com Ele: “Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou”. E imediatamente acrescentou: “Não se perturbe o vosso coração nem se acovarde” (Jo 14, 27). […] O caminho de Jesus continua a ser motivo de perturba-ção e medo. E Ele repete com firmeza àqueles que gostariam de defendê-Lo: “Mete a espada na bainha” (Jo 18,11; cf. Mt 26,52). A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta.
[…] Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la […] No plano político, essa lógica, muito além do princípio da legítima defesa, é o dado mais atual em uma desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível […]Ao longo de 2024, as despesas militares em nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 bilhões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial.
[… Estamos vendo] um realinhamento das políticas educativas: em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos […] que difundem a percepção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada. Todavia, “quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz” (SANTO AGOSTINHO, op. cit.) Assim, Santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões, preferindo a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros.
[…] A bondade é desarmante. Talvez por isso, Deus se tenha feito criança. […] “Paz na terra”, cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando Dele (cf. Lc 2,13-14) […] São João XXIII foi o primeiro a introduzir a perspectiva de um desarmamento integral, alcançado somente por meio da renovação do coração e da inteligência […] “Nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação […] se pode levar a efeito, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito” (Pacem in terris, PT 113).
[…] Mais do que nunca, é necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecumênico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas. Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma “casa de paz”, na qual se aprende a neutralizar a hostilidade por meio do diálogo, na qual se pratica a justiça e se conserva o perdão [..] Aqueles que são chamados a assumir responsabilidades públicas […] investiguem a fundo qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial […] É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional.
[…] Como viver em um tempo de desestabilização e conflitos, libertando-se do mal? É necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança […] Que isso seja um fruto do Jubileu da Esperança […]


