Vivemos um tempo em que a palavra paz parece cada vez mais distante da realidade cotidiana. Os conflitos se multiplicam, os arsenais crescem e a linguagem da força ressurge com uma naturalidade que deveria nos inquietar. Nesse cenário, se torna ainda mais necessário parar, refletir e perguntar: é possível outro caminho? Os textos reunidos nesta edição do Caderno Fé e Cidadania partem exatamente dessa pergunta. Os diferentes artigos não se rendem ao pessimismo fácil nem à ingenuidade de quem fecha os olhos para a violência do mundo. Ao contrário, enfrentam a realidade com rigor e honestidade, buscando nela as sementes de uma paz que não seja apenas ausência de guerra, mas construção ativa de justiça, verdade, liberdade e amor. Da análise das estruturas que perpetuam os conflitos às experiências históricas que mostram ser possível superar séculos de ódio, passando pela palavra dos Papas, convidam toda a humanidade a uma verdadeira revolução interior. Não há receitas prontas nem discursos fáceis. Há, sim, um convite sério e urgente à reflexão sobre o mundo que estamos construindo e sobre o tipo de paz que queremos – e que somos capazes de viver.

O mundo vive hoje em crescente tensão. Quase como se quisesse superar os tempos sombrios da Guerra Fria. Nessa conjuntura, parece ressoar com maior vigor o apelo que São João XXIII dirigiu à humanidade há mais de 60 anos. Lá, como agora, a paz parecia buscar apoio no crescente medo do adversário.
Não é despido de valor o roteiro engendrado pela Pacem in terris, que enxerga quatro elementos centrais para o exame da questão. Tais vetores constituem a base moral da convivência humana e das relações entre os povos. Quando a verdade é manipulada, quando a justiça é sacrificada a interesses imediatos, quando a liberdade é negada e o amor social desaparece, o terreno da guerra se torna fértil.
A primeira reação à guerra é a verdade. Quem joga com a verdade não inventa armas que o adversário não possui, tampouco amplifica os arsenais. É a mentira que causou a desastrosa guerra no Oriente Médio, em passado recente e que não difere muito da problemática atual.
Segue-se a questão da justiça. Nenhuma guerra é justa quando se pretende a aniquilação do adversário ou sua rendição cabal ao vitorioso. Não são poucos os que consideram a submissão do vencido na Primeira Guerra Mundial como o estopim que, criando instabilidade em pouco tempo desencadeou o segundo e mais brutal conflito global.
Ademais, ainda em linha com São João XXIII, a busca da liberdade é a via segura para a paz mundial. Liberdade como libertação de todas as necessidades materiais e de todas as restrições à livre manifestação de pensamento e de crença.
Por fim, a paz depende do amor ou, mais precisamente, da busca incessante do que São Paulo VI denominou a civilização do amor.
A paz será possível desde que se respeite e se reconheça a necessidade absoluta de uma autoridade mundial, como instância mediadora de conflitos e de concreto controle dos armamentos, sobretudo das armas nucleares. A escolha consciente dos povos, que querem a justiça, que fortalecem a cooperação, depende de esforços concretos, de pautas e de tempos bem definidos. Quem despreza ou ignora a autoridade mundial engendra e promove a guerra. Desde a sua fundação e nas assembleias anuais, as Nações Unidas têm reiterado a necessidade de limitar e reduzir os arsenais militares, com especial atenção às armas nucleares. Há tratados e mecanismos de controle que urge respeitar nos quais a proliferação nuclear é vedada. Ainda recentemente, o Papa Leão XIV renovou essa súplica pelo desarmamento em forma de oração.
É forçoso reconhecer que os obstáculos se mostram bastante persistentes. Rivalidades históricas, estratégicas e um bastante significativo sectarismo religioso parecem incutir a produção cada vez mais intensa de armamentos, que alimentam a modernização de arsenais e reativam a lógica da dissuasão nuclear. É a volta inaceitável da linguagem da força, em detrimento do diálogo travado no foro apropriado e com estrita observância do regramento do direito internacional. As soluções pacientemente armadas pelos canais diplomáticos parecem ceder passo à brutalidade e às atitudes unilaterais. Tudo a reforçar o que parece consistir em ataque planejado à existência e ao funcionamento dos organismos multilaterais.
Os instrumentos disponíveis para a preservação da paz exigem, como requisito de viabilidade operacional, a boa vontade e o diálogo como único caminho para a solução das controvérsias. Cumpre insistir, oportuna e inoportunamente, com o tema da civilização do amor. Eis o projeto histórico que exige instituições aptas a promover a paz na terra aos homens de boa vontade. De pronto, iniciar o desarmamento, sobretudo o nuclear, como Leão XIV pediu na inspirada oração cunhada para estes tempos.
Enquanto existirem propósitos ocultos ou não tão ocultos de dominação, não haverá ambiente para a construção de um caminho para a paz. A política internacional, animada pelo bem comum universal, como se sabe, não pode prescindir da verdade e dos compromissos éticos.


