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 A saúde à luz da sabedoria cristã

Às vésperas de mais uma eleição presidencial, a saúde permanece como uma das maiores preocupações dos brasileiros. Pesquisa Datafolha, de março de 2026, apontou a saúde como o maior problema do Brasil para 21% dos entrevistados, tecnicamente empatada com a segurança pública, citada por 19%. Mas essa preocupação não é uniforme. Ela tem rosto, endereço e renda. Segundo o DataSenado, enquanto 36% das mulheres apontam a saúde como sua principal preocupação, esse percentual cai para 21% entre os homens. Como esperado, essa preocupação é maior entre os mais velhos e com menor renda. O divisor de águas mais eloquente, porém, está no acesso ao sistema privado: dos 73% da população que não possuem plano de saúde particular, 80% apontam a saúde como sua principal preocupação; entre os que têm convênio, esse percentual despenca para apenas 19%. A desigualdade no acesso não apenas perpetua a doença – também amplifica o medo. 

 A saúde à luz da sabedoria cristã - Jornal O São Paulo


 Arte: Sergio Ricciuto Conte

 Para a Igreja, a saúde é um direito inalienável, inseparável da dignidade que todo ser humano recebe ao nascer. Como afirma o Concílio Vaticano II na Gaudium et Spes (GS), tudo o que se opõe à vida é uma afronta à dignidade da pessoa (cf. GS 27). Promover a vida digna exige prevenção, atenção integral e saúde mental. A negação dessas condições a grandes parcelas da população não é apenas falha técnica, mas uma injustiça estrutural. Por uma questão ética, que independe das correntes político-ideológicas, exige uma ação responsável por parte do Estado.

São João XXIII afirma, na Pacem in Terris (PT): “Exige o bem comum que os poderes públicos operem positivamente no intuito de criar condições sociais que possibilitem e favoreçam o exercício dos direitos e o cumprimento dos deveres por parte de todos os cidadãos. Atesta a experiência que, faltando por parte dos poderes públicos uma atuação apropriada com ‘respeito à economia, à administração pública, à instrução’, as desigualdades entre os cidadãos tendem a exasperar-se cada vez mais, os direitos da pessoa tendem a perder todo seu conteúdo e compromete-se, ainda por cima, o cumprimento do dever. Faz-se mister, pois, que os poderes públicos se empenhem a fundo para que ao desenvolvimento econômico corresponda o progresso social […] e se desenvolvam os serviços essenciais, tais como: construção de estradas, transportes, comunicações, água potável, moradia, assistência sanitária, condições idôneas para a vida religiosa e ambiente para o espairecimento do espírito. Também é necessário que se esforcem por proporcionar, aos cidadãos, um sistema de seguros e previdência, a fim de que não lhes venha a faltar o necessário para uma vida digna em caso de infortúnio” (PT 63-64).

A saúde não pode ser reduzida a mais uma mercadoria. Em uma economia de mercado, como aquela em que objetivamente nos encontramos, essa afirmação tem consequências práticas, que transcendem idealismos abstratos. Bento XVI explicou que a dignidade humana exige uma lógica que transcenda o mercado. Quando a lógica do lucro domina setores essenciais, a saúde deixa de ser um direito e passa a ser vista apenas como mercadoria – mas, recorda-nos São João Paulo II, existem “bens que, pela sua natureza, não são nem podem ser simples mercadoria” (Centesimus annus, CA 40). Em uma passagem particularmente esclarecedora para o contexto brasileiro atual, Bento XVI explica que, se a lógica do mercado e a do Estado se põem de acordo para manter interesses particulares, sem atentarem para a construção do bem comum, “definha a solidariedade nas relações entre os cidadãos, a participação e a adesão, o serviço gratuito” (Caritas in Veritate, CV 39). 

Não se trata aqui de insistir em debates ideológicos maniqueístas e desfocados da realidade imediata. Bento XVI destacou, ainda, a necessidade de um sistema com três sujeitos: o mercado, o Estado e a sociedade civil, identificando nesta última o âmbito mais apropriado para uma economia da gratuidade e da fraternidade. Salientou que a atividade econômica não pode prescindir da gratuidade, que difunde e alimenta a solidariedade e a responsabilidade pela justiça e o bem (CV 38). Sem negar a justa responsabilidade do Estado, em sua função de garantir, com a justiça, a realização do bem comum, Bento XVI convidava cada um de nós a sermos protagonistas em uma sociedade que se organiza em função da solidariedade e não de interesses particulares, na qual se busca a realização do direito à saúde integral para todos.

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