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Caminhos de uma solidariedade realista na economia

Em que a sabedoria cristã pode ajudar o Brasil a vencer seus grandes desafios econômicos? A Doutrina Social da Igreja (DSI) não oferece um modelo econômico específico ou um conjunto de políticas públicas, mas critérios de discernimento para orientar a vida econômica em função do bem comum

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A economia está a serviço da dignidade da pessoa e do bem comum – nunca a pessoa a serviço do crescimento econômico (cf. Gaudium et Spes, GS 63; Evangelii gaudium, EG 203; Oeconomicae et pecuniariae quaestiones, OPQ 9). Essa é a premissa básica da Doutrina Social da Igreja em relação à economia, um dos princípios irrenunciáveis com que os católicos devem julgar a política. A tão debatida responsabilidade fiscal, por exemplo, é sempre necessária, mas não é um fim em si mesma. Nem deve visar apenas ao lucro de poucos, mas sim à construção do bem comum – a dívida excessiva compromete a capacidade do Estado de cumprir suas funções sociais.

Bem aplicadas, a solidariedade e a opção pelos pobres, enfatizada na Dilexi te, não são um obstáculo; pelo contrário, permitem que o desenvolvimento socioeconômico e a superação de crises se deem com mais rapidez e eficiência (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, CDSI 193). Priorizar os mais frágeis não exclui os demais: como dizia Francisco, para “ser irmão de todos” é preciso começar por “ser irmão dos últimos” (cf. Fratelli tutti, FT 287). Mas a solidariedade deve vir combinada com a subsidiariedade: a função do Estado é apoiar, não controlar, a vida social, o protagonismo pessoal e o empreendedorismo. Daí a formulação de Caritas in Veritate sobre um sistema com três sujeitos – mercado, Estado e sociedade civil (CV 38). O mercado é o espaço por excelência do protagonismo empreendedor, mas não pode prescindir do acompanhamento do Estado e da sociedade civil, sob risco de deixar de servir ao bem comum e permitir que poucos destru-am a própria liberdade econômica (CDSI 351-352).

Por fim, a DSI se orienta por um pragmatismo que não se sujeita a esta ou àquela corrente político-econômica, mas busca na prática o que constrói o bem comum. Reconhece que, na economia como na medicina, o que cura também pode matar, conforme a necessidade do paciente e a dosagem aplicada. Por isso, rejeita soluções categóricas e preconcebidas, como “o Estado sempre deve diminuir” ou “só o Estado garante o bem comum”. Da mesma forma, em um contexto de grande desigualdade econômica, enfatiza os direitos dos pobres e dos trabalhadores diante do poder econômico; em um contexto de autoritarismo estatal, a liberdade dos grupos sociais e dos agentes econômicos.

Na prática, a aplicação da DSI deve dialogar com a realidade histórica e a teoria econômica – nunca de modo dogmático, sempre ciente de que a economia é meio, não fim em si mesma, com mecanismos que não podem ser ignorados em nome de um voluntarismo autocentrado, ainda que bem-intencionado.

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