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Corrupção: desafio brasileiro e mundial

No mundo, a corrupção parece ter aumentado nos últimos anos, apesar de uma percepção cada vez maior de seus males. Para enfrentá-la, não basta encontrar e condenar os corruptos; é necessária uma estratégia global de avanços sociais e institucionais.

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Imagem feita por IA

A corrupção figura entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento humano no século XXI – e não é um problema só do Brasil. Muito além dos prejuízos econômicos que provoca, a corrupção deteriora a confiança entre governantes e governados, reduz a credibilidade das instituições públicas, compromete a qualidade das políticas governamentais e atinge de maneira especialmente severa os grupos socialmente mais vulneráveis. O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) 2025, elaborado pela Transparência Internacional, registrou piora da percepção global pela primeira vez em mais de uma década. A corrupção é um dos principais fatores associados à pobreza persistente, à baixa qualidade institucional e à fragilidade democrática.

O que piora a corrupção? De modo geral, o IPC mostra uma correlação entre riqueza, estabilidade institucional e menor percepção de corrupção – daí o topo do ranking ser ocupado por democracias consolidadas. Já os piores escores – Sudão do Sul, Somália e Venezuela – concentram instabilidade política, conflito armado e colapso institucional.

Contudo, o aumento recente na percepção da corrupção vem acontecendo também em democracias consolidadas, como Estados Unidos (que teve a pior nota histórica do país), Reino Unido, França, Canadá, Nova Zelândia e Suécia. O relatório associa isso a um enfraquecimento deliberado de mecanismos de fiscalização, normalmente sob a justificativa de que as leis anticorrupção prejudicam a competitividade econômica ou criminalizam profissionais íntegros. Esse padrão se aproxima do que a ciência política chama de “captura do Estado” – quando grupos de interesse conseguem moldar a seu favor as próprias regras e órgãos encarregados de fiscalizá-los.

Além disso, há uma correlação direta entre queda no índice e restrição ao espaço cívico: desde 2012, 36 dos 50 países com maior queda também reduziram liberdades de expressão, associação e imprensa, ou aprovaram leis para sufocar ONGs fiscalizadoras. Desde 2012, 150 jornalistas que cobriam corrupção foram assassinados fora de zonas de conflito, mais de 90% deles em países com pontuação abaixo de 50. Essas restrições ocorrem sob governos de orientações políticas distintas, da Geórgia à Indonésia, passando pela Venezuela: o padrão comum não é a ideologia, mas o autoritarismo que concentra poder e hostiliza contrapesos institucionais.

Desde 2012, apenas 31 países tiveram melhora significativa no combate à corrupção (como a Estônia e a Coreia do Sul), geralmente com a digitalização de serviços públicos e a profissionalização do funcionalismo), contra 50 que pioraram estruturalmente (Turquia, Hungria e Nicarágua entre os piores exemplos).

Como enfrentar a corrupção? Existe uma relação entre fatores institucionais e morais. Instituições degradadas aumentam as oportunidades de corrupção, mas não obrigam ninguém a agir corruptamente. Por outro lado, pessoas honestas, inseri-das nesses ambientes degradados, encontram enormes dificuldades para manter padrões éticos elevados por longos períodos. Entre os dois extremos corre ainda um terceiro fio: a corrupção corrói a confiança institucional, a perda de confiança reduz a disposição de cumprir normas espontaneamente, e esse enfraquecimento abre novas oportunidades de corrupção – um ciclo que só se rompe quando instituições, cultura cívica e responsabilidade pessoal avançam juntas

Na luta contra a corrupção, apesar da necessidade inegável de responsabilizar e condenar corruptos e corruptores, o mero endurecimento penal ou a truculência política podem parecer eficientes em curto prazo, mas – isolados – tendem a fracassar no médio e longo prazo. A operação Mani Pulite, iniciada em 1992 na Itália, resultou em 1.254 condenações e provocou o colapso do sistema partidário do país. As pesquisas sobre o legado da operação, contudo, mostram que a corrupção recuou nos anos imediatamente posteriores, mas voltou a crescer no final dos anos 2000. A lição não é que a repressão penal seja inútil, mas que ela dificilmente basta sozinha.

Essa constatação é relevante também para compreender a experiência brasileira. O Brasil registrou, no IPC 2025, sua segunda pior nota da série histórica. Independentemente das avaliações políticas sobre operações anticorrupção específicas das últimas duas décadas, esse dado sugere que o País ainda não conseguiu traduzir um período de intensa atividade investigativa em ganhos institucionais duradouros. A pergunta relevante não é apenas quantos agentes públicos foram investigados ou presos, mas se o País reduziu, de fato, os incentivos à corrupção e fortaleceu a legalidade institucional – o que os indicadores disponíveis sugerem não ter acontecido. O que não foi feito (ou não foi feito na intensidade necessária) no Brasil? Combinar mecanismos de responsabilização com reformas institucionais; a valorização e o aperfeiçoamento do serviço público; transparência administrativa, e mobilização da sociedade civil, por longos períodos.

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