Leão XIV, em sua mensagem para o LIX Dia Mundial da Paz, pediu uma “paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante”, que “provém de Deus, que nos ama a todos incondicionalmente”. Mas será esta uma ilusão utópica, irrealista, ou um ideal orientador, que caminha realisticamente para um mundo mais pacífico?

Vivemos o período de maior instabilidade global desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O mundo enfrenta hoje 61 conflitos armados ativos – o número mais alto registrado desde 1946. Suas consequências diretas atingem centenas de milhões de pessoas submetidas ao horror da violência sistêmica, do deslocamento forçado e da fome severa. Não estamos diante de uma crise passageira: trata-se de uma tendência estrutural, com o número de conflitos tendo quase dobrado nos últimos cinco anos.
No entanto, a percepção pública sobre essa realidade é profundamente filtrada por uma visibilidade assimétrica. Os chamados “conflitos midiáticos”, como a guerra na Ucrânia e o confronto Israel-Hamas, concentram ações diplomáticas e manchetes globais. Embora a gravidade desses conflitos seja inegável, o foco exclusivo sobre eles oculta as “guerras esquecidas”, que acumulam muito mais vítimas em seu conjunto. O silêncio sobre a tragédia no Congo – com 5,4 milhões de mortes estimadas entre 1998 e 2007 – ou sobre conflitos devastadores no Sudão, no Sahel e em Mianmar revela como a geopolítica do interesse molda nossa empatia: o sofrimento humano é hierarquizado conforme a relevância estratégica da região.
O INVESTIMENTO EM DISSUASÃO E GUERRAS PREVENTIVAS É VÁLIDO? Investir em uma escalada armamentista para se mostrar forte e dissuadir inimigos ou atacá-los antes que se tornem perigosos (guerra preventiva) são estratégias válidas para alcançar a paz? Os defensores do autoproclamado “realismo político” afirmam que o poder é a única linguagem que os Estados compreendem. Seus críticos consideram que essa postura intimida populações e instiga a guerra, gerando uma insegurança permanente.
A dissuasão, baseada na força das próprias armas comparadas às do inimigo, orientou a Guerra Fria (1945–1991) e é frequentemente creditada por ter evitado um confronto direto entre EUA e URSS. Crises como a dos mísseis em Cuba (1962) mostraram que a ameaça de aniquilação total funciona como freio de emergência.
Entretanto, a dissuasão pode alimentar uma funesta corrida armamentista. A Guerra do Yom Kippur (1973) provou que a dissuasão falha quando os objetivos políticos e a honra nacional superam o medo da derrota: mesmo diante da superioridade israelense, Egito e Síria optaram pelo ataque. A evidente superioridade militar de Israel não trouxe paz e tranquilidade nem para judeus, nem para árabes – apenas fomenta a busca por formas cada vez mais eficientes e devastadoras de infligir dor ao adversário.
Ainda mais controversa é a lógica da guerra preventiva. A Operação Ópera (1981), em que Israel destruiu o reator nuclear iraquiano de Osirak, é citada como exemplo de sucesso. Mas a Guerra do Iraque (2003) representa o fracasso mais trágico e mais recente dessa lógica: lançada para neutralizar armas de destruição em massa que nunca foram encontradas, a invasão desestabilizou todo o Oriente Médio e criou o vácuo de poder que permitiu o surgimento do Estado Islâmico.
Os argumentos contra a guerra preventiva são devastadores: ela se baseia em lacunas de informação e especulações sobre intenções futuras, é geralmente considerada uma agressão ilegal pelo direito internacional e frequentemente serve de pretexto para encobrir empreendimentos militares com intenções hegemônicas ou interesses econômicos.
A ECONOMIA DA MORTE: O COMPLEXO INDUSTRIAL-MILITAR. O esforço de guerra tem um custo econômico. Em 2024, os gastos militares globais atingiram a marca de 2,7 trilhões de dólares – o décimo ano consecutivo de crescimento e a alta mais acentuada desde o fim da Guerra Fria. Naquele ano, o governo russo, em guerra com a Ucrania, gastou praticamente no esforço de guerra o dobro que com saúde (cerca de 7% contra 3,7% do PIB). O governo de Israel, em guerra com o Hamas, gastou mais com o esforço militar do que com a saúde (8,8% contra 5,2% do PIB).
Dwight Eisenhower, presidente norte-americano (1953–1961) e um dos maiores comandantes militares da Segunda Grande Guerra, considerou o investimento na corrida armamentista um “roubo” contra aqueles que passam fome e frio: estima-se que aproximadamente 14% do gasto militar global anual seria suficiente para a erradicação da pobreza extrema, garantindo também o acesso universal à educação básica e a serviços essenciais de saúde nos países em desenvolvimento.
A guerra e a manutenção da “paz armada”, baseada em dissuasão e guerras preventivas, são um negócio altamente rentável. O próprio Eisenhower denunciou a existência de um complexo industrial-militar, no qual grandes corporações voltadas à fabricação de armamentos se aliam a chefes militares e lideranças políticas para forçar o aumento de investimentos em armas – valendo-se de financiamentos bilionários a campanhas eleitorais e a influenciadores que exageram ameaças globais para justificar novas armas, além de contratar altos oficiais aposentados para cargos importantes em fabricantes de armas, criando um conflito de interesses estrutural.
Nos Estados Unidos, o setor de defesa gastou 101 milhões dólares em lobby apenas nos primeiros três trimestres de 2022, ano em que o Congresso aprovava o maior orçamento do Pentágono da história até então: 858 bilhões de dolares. Sintomaticamente, entre 1960 e 2026, apesar de o país ter sofrido apenas o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, as tropas norte-americanas estiveram envolvidas em algum conflito militar externo em praticamente todos esses 66 anos. Desde 2001, cerca de 7 mil militares morreram em combate – enquanto mais de 30 mil veteranos de conflitos pós-11 de setembro tiraram a própria vida. São os custos humanos e econômicos da paz armada.

GUERRA, MENTIRA, DESUMANIZAÇÃO E COESÃO. Nenhuma guerra começa sem que o agressor convença sua população de que a paz é mais perigosa do que o conflito. Toda guerra moderna é precedida por uma “máquina de mentiras” que mascara os verdadeiros interesses em jogo. No Iraque, em 2003, a mentira das armas de destruição em massa criou o terror de um ataque iminente que nunca existiu. Na Ucrânia, em 2022, o pretexto da “desnazificação” mascarou ambições imperialistas russas sob uma falsa urgência moral.
Além disso, para que uma sociedade aceite o extermínio, é necessário silenciar a empatia. Não se mata o semelhante – mata-se um “adversário” despojado de humanidade, apresentado apenas como um perigo a ser removido. Não são pessoas, são “terroristas”, “infiéis” ou “agressores”. As mortes de civis são higienizadas sob o eufemismo “danos colaterais”, diluindo a culpa individual e coletiva. Ao transformar o inimigo em um ser sem traços humanos, a propaganda justifica a violência desmedida como ato nobre. É notável como os lados opostos de um conflito frequentemente desenvolvem visões simétricas: ambos se veem como “virtuosos defensores”, enquanto retratam o outro como “loucos violentos”.
A guerra contra o inimigo externo é também um poderoso elemento de coesão interna, oferecendo um senso de identidade e destino comum. A ditadura argentina em crise conclamou a população para enfrentar a Inglaterra nas Malvinas (1982); regimes autoritários do mundo islâmico convocam permanentemente seus cidadãos para resistir à ameaça representada pela cultura ocidental. A verdade é a primeira vítima da guerra – e superar o conflito exige, antes de tudo, desmantelar as narrativas que nos impedem de ver o humano por trás do “inimigo”, os interesses reais por trás dos alegados.
ORIENTE MÉDIO: O FRACASSO DA PAZ ARMADA. O Oriente Médio é a antítese perfeita de um sistema de paz duradoura. O mundo árabe vive um equilíbrio precário, com a legitimidade das fronteiras nacionais constantemente tensionada por identidades transnacionais e pela rivalidade entre potências regionais como Arábia Saudita e Irã. Essa situação de conflito permanente é alimentada pela fragilidade das instituições civis, que leva os Estados a priorizarem o aparato militar em detrimento do desenvolvimento social.
Israel, cercado objetivamente por inimigos que querem seu extermínio, acostumou-se a uma situação de paz armada que se tornou uma permanente condição de pré-conflito ou conflito aberto. Ami Ayalon, herói de guerra israelense e ex-chefe do Shin Bet, um dos serviços de segurança interna mais eficientes do mundo, publicou, em 2020, o livro Friendly fire (“Fogo amigo”), mostrando que as ações militares e os ataques antiterroristas israelenses, apesar de esmagadores em seu potencial de fogo, não conseguem deter seus inimigos – pelo contrário, parecem torná-los mais numerosos. Sua conclusão é devastadora: “Matar líderes terroristas sem considerar o desespero de seus apoiadores é uma missão tola e produz mais frustração, mais desespero e mais terrorismo. Quanto mais ‘vencemos’ uma guerra tão mal concebida, mais transformamos a nossa sociedade em uma distopia orwelliana em que a verdade e a mentira são indistinguíveis”.
É aqui que a retórica da “guerra justa” é mais manipulada para justificar ataques desproporcionais: a segurança buscada apenas pela força será sempre uma trégua violenta à espera do próximo ataque.
O EXEMPLO EUROPEU. Em contraposição ao Oriente Médio, a Europa do pós-guerra oferece um roteiro para a “paz desarmante”. O continente vinha de uma “guerra mundial com cerca de 60 milhões de vítimas, a maioria civis. De 1870 a 1945, só França e Alemanha haviam entrado em guerra três vezes. Era um continente exausto de violência que, paradoxalmente, parecia incapaz de encontrar paz.
O milagre europeu foi fruto de uma arquitetura política que privilegiou a integração e a interdependência, sob a liderança de três estadistas católicos: Konrad Adenauer (Alemanha), Robert Schuman (França) e Alcide De Gasperi (Itália). A partir de sua formação cristã, perceberam que a paz só poderia ser alcançada com a superação dos ressentimentos, o perdão e a fraternidade. Realistas, construíram instrumentos políticos concretos; homens de fé, compreenderam que essa construção implicava também uma mudança de mentalidade.
O ponto de virada foi a Declaração Schuman de 1950: em vez de humilhar a Alemanha derrotada, a França propôs colocar toda a produção de aço e carvão – a base da indústria bélica – sob uma autoridade supranacional comum, tornando a guerra não apenas impensável, mas “materialmente impossível”. Desde então, a Europa Ocidental vive seu mais longo período de paz documentado. O modelo substituiu a dissuasão pela interdependência e combateu a desumanização pelo convívio – inclusive com programas como o Erasmus, que promove o intercâmbio estudantil entre países-membros. Em vez de exércitos nas fronteiras, criaram-se tribunais comuns, moeda partilhada e redes de cooperação que tornaram a agressão um suicídio econômico para qualquer Estado-membro.
CAMINHOS PARA UMA PAZ DESARMANTE. A “paz desarmante” não é uma ilusão utópica, mas um ideal orientador que pode guiar povos e nações para a construção de uma paz verdadeira. Ela não começa nas altas esferas da política internacional, mas no coração de cada pessoa, ganhando paulatinamente novas camadas. Começa com o reconhecimento da humanidade do outro: A guerra se inicia quando o adversário deixa de ser reconhecido como gente e a propaganda que o desumaniza é aceita sem questionamento. Combater esse mecanismo exige promover uma cultura do encontro, na qual o diferente seja reconhecido em sua dignidade e o ressentimento ceda lugar ao perdão – não como esquecimento da injustiça, mas como recusa a deixar que o passado aprisione o futuro. Sem esse trabalho paciente de reconciliação, qualquer acordo de paz não passa de uma trégua armada.
Vivemos na era da desinformação industrializada, em que algoritmos amplificam o ódio e influenciadores se tornam, voluntária ou involuntariamente, peças de máquinas de propaganda. Meios de comunicação, plataformas digitais e criadores de conteúdo têm a responsabilidade de verificar os fatos, denunciar manipulações e não transformar narrativas convenientes em verdades absolutas.
No plano interno, a democracia é a maior garantia da vocação pacífica de uma nação: não existe povo que queira a guerra quando compreende seus custos reais – os filhos que não voltam, as cidades que viram escombros, as economias que colapsam. Fortalecer o Estado democrático, com eleições livres, parlamentos independentes e controle transparente dos recursos públicos, é um ato de resistência à cultura da guerra.
No plano internacional, é preciso valorizar a interdependência em vez da concorrência. Nações que compartilham recursos, mercados e projetos comuns têm incentivos concretos para não se destruir. Construir vínculos de cooperação e solidariedade transforma a lógica do confronto em lógica do benefício mútuo. – e numerosos acordos de cooperação internacional atestam isso por todo o mundo.
Por fim, é indispensável fortalecer as instituições internacionais. São imperfeitas e contestadas, mas a solução não está em abandoná-las – e sim em aperfeiçoá-las, dotando-as de mais capacidade para mediar conflitos, proteger populações civis, responsabilizar agressores e defender as nações menores frente às potências. A soberania deve ser respeitada, mas não pode ser escudo para a agressão ao outro.
É um caminho longo, mas viável – mais do que viável, necessário, para chegarmos a uma paz verdadeira.


