De Getúlio Vargas a Lula, passando pelo período militar, a dívida que ergueu a indústria transformou-se na dívida que hoje assombra o País, enquanto a manufatura perde espaço para o mesmo modelo agroexportador que o Brasil tentou superar há quase cem anos

Para entender por que o Brasil discute hoje juros tão elevados, uma dívida pública em expansão e uma indústria que perde espaço na economia, é preciso retornar ao momento em que o País decidiu, pela primeira vez de forma deliberada, que seria o Estado – e não apenas o mercado externo de café, principal produto de exportação à época – a alavancar o desenvolvimento.
O Estado como motor e a substituição de importações. O projeto de industrialização brasileira nasceu, em grande parte, como resposta à crise de 1929, que havia derrubado o preço do café e escancarado os limites de uma economia agroexportadora dependente de um único produto. A partir de 1930, os governos passaram a estimular deliberadamente a produção interna de bens que antes eram importados e criaram estatais em setores considerados estratégicos: a Companhia Siderúrgica Nacional, em 1941, e a Petrobras, em 1953. A lógica era que setores pesados de infraestrutura e insumos básicos exigiam capital e prazo de maturação que o setor privado brasileiro, ainda incipiente, não tinha condições de bancar sozinho, enquanto a industrialização viria com a substituição de bens importados por aqueles produzidos no País.
Juscelino Kubitschek deu a essa estratégia uma versão mais ambiciosa. O Plano de Metas, de 1956, prometia “cinquenta anos em cinco”, atraindo montadoras estrangeiras para o País, construindo Brasília como símbolo de um Brasil que se industrializava e se interiorizava ao mesmo tempo. O regime militar, instaurado em 1964, manteve e radicalizou o mesmo receituário: entre 1968 e 1973, o chamado “milagre econômico” fez o PIB crescer a taxas superiores a 10% ao ano, financiado por endividamento externo abundante em um mundo com juros internacionais baixos. Quando o choque do petróleo de 1973 encareceu a energia e ameaçou interromper essa trajetória, o governo dobrou a aposta em vez de recuar: o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), de 1974, aprofundou a substituição de importações rumo a bens de capital e insumos básicos, aumentando ainda mais a dívida externa para sustentar o projeto – uma decisão que pareceria acertada por alguns anos, mas catastrófica logo em seguida.
O contraponto asiático: a industrialização voltada para fora. Enquanto o Brasil e outros países da América Latina apostavam em proteger seu mercado interno da concorrência externa, Coreia do Sul, Taiwan e Japão adotaram uma estratégia diferente: a industrialização orientada para a exportação. Essas economias tiveram planejamento industrial tão ou mais intervencionista que o brasileiro, com crédito direcionado e metas setoriais, mas lá o Estado cobrava resultados, eficiência e competitividade internacional, e não apenas produção voltada para dentro.
Essas diferenças não se devem apenas a uma “vontade política” diversa. Tanto por projeto próprio quanto por pressão de patrocinadores norte-americanos, a ajuda vinha condicionada a um bom desempenho. Uma reforma agrária, no Japão e depois na Coreia do Sul e em Taiwan, havia destruído o poder de oligarquias que, no Brasil, sobreviveram e capturaram o próprio Estado desenvolvimentista para proteger seus interesses. O mercado interno pequeno dessas economias tornava a exportação a única saída, enquanto Brasil, México e Argentina se permitiram a ilusão de crescer apenas para dentro.
A dívida pública: da crise externa dos anos 1980 ao atual arcabouço fiscal. Do endividamento do II PND nasceu a primeira grande crise fiscal contemporânea do Brasil: quando os Estados Unidos elevaram os juros no fim dos anos 1970, o custo da dívida externa disparou, e o País quebrou em 1982. Seguiu-se a “década perdida”, com estagnação e inflação não resolvida, apesar de planos como Cruzado, Bresser, Verão e Collor.
A estabilidade monetária só veio com o Plano Real, em 1994. Este não resolveu, porém, a fragilidade fiscal: o déficit deixou de ser “pago” pela inflação e passou a ser financiado por dívi-da sustentada a juros reais altíssimos. Isso forçou o País, a partir de 1999, a gastar menos do que arrecadava – sem contar os juros da dívida – de modo a sobrar caixa suficiente para pagar parte desses juros e impedir que a dívida crescesse. Essa meta, de manutenção do superávit primário, foi formalizada em 2000 pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que impôs metas de resultado, limites a gastos com pessoal e regras de transparência às três esferas de governo.
O boom de commodities dos anos 2000, puxado pela demanda chinesa, trouxe alívio: superávits primários viraram rotina e a dívida líquida caiu, per-mitindo ao governo Lula (2003-2010) combinar disciplina fiscal com expansão social e crédito via BNDES. Tal combinação ruiu com o fim do superciclo de commodities, a partir de 2011. Em 2014-2015, desonerações amplas sem corte de gastos produziram o primeiro déficit primário desde 1997; a revelação das “pedaladas fiscais” corroeu a credibilidade do governo e o PIB caiu mais de 3% ao ano em 2015 e 2016.
A resposta veio em 2016, com a Emenda Constitucional do Teto de Gastos, que congelou o crescimento real da despesa por 20 anos – a regra mais rígida já adotada no País. Mas a pandemia obrigou o governo a furá-lo já em 2020, e a dívida bruta chegou a quase 90% do PIB em dezembro daquele ano. Em 2023, o novo Arcabouço Fiscal neutralizou, na prática, o teto, ainda formalmente na Constituição, passando a atrelar o gasto à arrecadação. Mesmo assim, a dívida bruta do governo geral subiu de 76,3% do PIB em 2024 para 81,9% em junho de 2026, o maior nível desde 2021.
Desindustrialização e os desafios atuais. O resultado de todo esse ciclo aparece hoje como desindustrialização precoce. Depois de um pico entre 1985-1986, a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro vem caindo, empurrada por juros al-tos e por um efeito colateral do próprio boom de commodities: a entrada maciça de dólares da venda de minérios e produtos agropastoris valoriza o real, encarecendo os manufaturados brasileiros lá fora e barateando os importados aqui dentro.
O País vem se especializando cada vez mais em exportar commodities, de menor valor agregado, em um eco quase literal do modelo agroexportador que a industrialização dos anos 1930 tentou superar. Somam-se a isso o “Custo Brasil” – sistema tributário complexo, infraestrutura logística precária, burocracia regulatória – e uma produtividade que continua baixa por deficiências crônicas de educação básica e qualificação técnica.
Um Estado que, décadas atrás, se endividou para construir indústria, hoje se endivida para pagar sua própria conta, enquanto a indústria que ele ajudou a erguer perde espaço para o mesmo tipo de exportação primária que o País tentou deixar para trás há quase 100 anos.


