Fake news e o Inimigo que está dentro de nós

Pensamos que a luta contra as ideologias e as fake news é uma batalha contra um inimigo externo, mas ela começa dentro de nós, como capacidade de discernimento, de olhar o mundo com os olhos de Cristo. Uma capacidade de ver com amor, sem com isso esquecer a verdade; de propor a verdade, sem enraivecer-se com quem pensa diferente; de realizar-se e se alegrar, dentro do mundo, com as coisas do mundo, mas a partir do encontro com Deus.

DALI, Salvador. Tentações de Santo Antão. Reprodução

Nosso cérebro “procura” estímulos prazerosos na realidade circundante e nos recompensa com doses maiores de dopamina, um hormônio associado à sensação de prazer. As redes sociais e as mídias atuais são em grande parte planejadas para satisfazer a essa busca de estímulos e de excitação. O poder de dar um “like” ou “dislike” em uma postagem, o aumento do número de seguidores, a profusão de bichinhos fofos, dancinhas e piadinhas, até mesmo as informações chocantes nos estimulam e nos excitam. Também podem causar apreensão e ansiedade, mas o efeito final é sempre viciante, nos levado a ficar cada vez mais dependentes e condicionados pelas redes sociais, cada vez menos acríticos com relação às informações e estímulos que recebemos.

Esse não é um comportamento exclusivo das redes sociais e mídias atuais. Os fabricantes de salgadinhos e refrigerantes há muito incluem substâncias viciantes em seus produtos. Intuitivamente, cozinheiros procuravam fazer a mesma coisa em seus cardápios, bem como políticos demagogos e populistas o fazem em seus discursos. A grande mudança, ao longo do tempo, é que um processo que era intuitivo passou a ser cada vez mais planejado cientificamente, o que atingia um pequeno grupo específico agora atinge a população mundial.

Também os influenciadores agem assim, nas disputas ideológicas e “guerras culturais”. Eles também sabem, muitas vezes de forma intuitiva e não programada, que devem gerar indignação para com o comportamento e as ideais do adversário, trazer para seus seguidores o prazer de se considerarem mais sábios que os demais, capazes de apontar seus erros, se sentindo justificados e iluminados. Para isso, influenciadores e líderes políticos recorrem, frequentemente, à construção de “espantalhos ideológicos”, visões esquemáticas, reduzidas e até adulteradas de seus adversários. Tais espantalhos são fáceis de criticar e bater, dando aos seguidores do influenciador a impressão de que o adversário é realmente ignóbil, que eles são realmente mais inteligentes e dignos do que aqueles que pensam diferente.

“O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior […] É de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassinatos, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro e são elas que tornam impuro o homem” (Mc 7, 15-23). Não percebemos que frequentemente são nossas paixões interiores que nos expõem a influências e dominações ideológicas, que fazem de nós presas fáceis das armadilhas das redes sociais e das fake news.

Os Padres do Deserto, monges e eremitas dos primeiros séculos do cristianismo, falavam sobre os logismoi (λογισμοί) – pensamentos impuros, pulsões, que nos afastam de Deus. São correlacionados aos pecados capitais do Catolicismo Romano atual, mas os Padres do Deserto, como Evágrio Pôntico (345-399), insistiam que a luta contra os logismoi era uma batalha interior, pois o demônio se aninha, em primeiro lugar, dentro de nós.

guest
2 Comentários
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários
Wilson Teixeira
Wilson Teixeira
9 meses atrás

Caro prof Borba, tenho dito e repetido essa sua mesma leitura aos meus próximos. Agradeço por escrever àqueles a quem o senhor alcança, um número infinitamente maior que o meu círculo, oferecendo a possibilidade de reflexão sobre o porque das nossas reações às mentiras, hoje alçadas ao status de “fake news” diluindo o impacto de seu significado; (a substituição de expressões claras em nosso idioma para verdadeiros eufemismos usando o artifício do uso de vocábulo estrangeiro pode ser assunto para outra ocasião, creio).
Doe-me na alma ver especialmente sacerdotes católicos tragados pelas “fake news”; me pergunto: que tipo de vida privada eles tem? que lugar ocupam os Evangelhos em suas experiências diárias?
Isso não é propriamente pensar diferente, tipo ser “de direita” ou ser “de esquerda”, ou, “por conta de minhas raízes culturais pratico isso ou aquilo dessa ou daquela maneira”, me parece que é não ter desenvolvido a capacidade do discernimento tão necessária para condução dos respectivos rebanhos. Forte abraço

Prof. Dr. PhD (orientado por um padre que falece)
Prof. Dr. PhD (orientado por um padre que falece)
1 mês atrás

Tenho 83 anos… mais de 50 livros escritos centenas de artigos de jornais redigidos, publicados ou não. O pensar é próprio do ser humano e o mantém vivo, eu posso ser o exemplo. Escrevo memorias de outros, mas agora escrevo as minhas. Já chego a 1.500 telas e ainda estou nos meus 30 (trinta) anos… Haja leitura e escritos neste tempo. Haja mudanças de rota… Haja mudanças de norte… Mas uma coisa manteve-se. A imagem da mulher humana e mãe de Deus… ou apenas de JESUS… Nesta balança fico?