Leão XIV, na sua encíclica sobre a inteligência artificial (IA), vai além de uma análise dos perigos e das oportunidades desta nova tecnologia; traça um grande panorama desta ‘era da IA’ e da contribuição da sabedoria cristã para o nosso tempo

Na primeira metade do século XX, o teólogo alemão Romano Guardini traçou as diretrizes da crítica que Leão XIV e Francisco fizeram ao “paradigma tecnocrático”, eixo fundamental de Magnifica humanitas (MH) e da Laudato si’. Guardini observou que o avanço tecnológico é acompanhado de um poder que não carrega uma responsabilidade ética proporcional. O perigo central não reside na tecnologia, mas no triunfo de uma racionalidade puramente instrumental e unilateral, que tende a converter toda a realidade – incluindo o ser humano e a natureza – em meros objetos de cálculo, manipulação e eficiência. Esse modelo fragmenta a experiência humana e cria uma crescente alienação, na qual o ser humano, ao tentar dominar o mundo por meio da técnica, acaba por se tornar um estranho diante de suas próprias criações, perdendo sua capacidade de discernimento sobre o que é ou não permissível fazer.
Como resultado, surge a figura de um ser humano absorvido por um sistema de anonimato e abstração, no qual os valores transcendentais são eclipsados pelo imperativo da viabilidade técnica e de um sucesso material que só aparentemente corresponde aos desejos mais profundos do nosso coração. Guardini alertava que essa “doença da unilateralidade” isola o indivíduo das formas naturais de vida e priva a existência de um sentido de proporção e propósito. A superação desse paradigma exige, portanto, a recuperação de uma consciência que saiba integrar o desenvolvimento técnico no âmbito de um horizonte mais amplo, em que a ética, a espiritualidade e a dignidade inalienável da pessoa retomem o seu papel de guia soberano sobre o fazer humano.
Leão XIV, seguindo Francisco, denomina a este contexto “paradigma tecnocrático”, acrescentando que os recursos da técnica não são administrados por quem as faz, mas sim pelos que detêm o poder econômico e político. A irresponsabilidade diante do poder tecnocientífico não é simples falha moral ou ambição desmedida. É o resultado de uma autoconsciência fragmentada, de alguém que, se vendo no espelho, não consegue mais distinguir os traços da própria humanidade.

Sabiamente, Leão XIV desloca a peculiaridade do humano da racionalidade, tal como pensada pela nossa mentalidade. Não somos humanos porque pensamos logicamente – isto a máquina começou a fazer (e até melhor do que nós). Somos humanos porque experimentamos a alegria e a dor, o amor e a responsabilidade, o trabalho com suas fadigas e suas realizações (MH 99). Somos humanos, interpreto eu, porque temos um coração, não porque temos um cérebro, ou melhor, porque temos um coração que dialoga com nosso cérebro.
Em oposição ao paradigma tecnocrático, o Papa apresenta o que, usando a linguagem da Doutrina Social da Igreja, poderia ser chamado de “paradigma personalista”. Este ser humano, que é cérebro e coração, é uma pessoa, um ser integral, que não pode ser fatiado em aspectos independentes, que não pode realizar-se senão em sua unidade constitutiva. Essa unidade, porém, não é percebida automaticamente, tanto é que pode ser obscurecida pelas ideologias, pela desinformação, pela propaganda. É na experiência de sermos amados que nos descobrimos como pessoas integrais – por isso o amor de Deus é a grande fonte do paradigma personalista, tal como apresentado por Leão XIV na encíclica.
Em um mundo cada vez mais ameaçado por um poder que não vê limites éticos, que a tudo quer dominar, a Igreja repete que uma “civilização do amor” pode ser construída. Não é uma ilusão utópica, mas sim uma realidade que, em meio às contradições e fragilidades de nossa humanidade, vai sendo construída – e depende de cada um de nós para crescer em nossos âmbitos de vida e no mundo todo. Magnifica humanitas desce muitas vezes a detalhes específicos do bom e do mau uso da inteligência artificial, mas não quer ser um manual de instruções: é um convite a que nos descubramos amados e para que percebamos que o amor que experimentamos continua a ser capaz de construir uma sociedade melhor mesmo na era da inteligência artificial.
OS DESAFIOS DA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
AMEAÇA À DIGNIDADE E ESSÊNCIA HUMANA
✓ Desumanização: Risco de reduzir o ser humano a dados e números, enfraquecendo as relações reais e gerando uma “regressão antropológica” que prioriza o lucro em vez da pessoa.
✓ Perda de sentido: O excesso de tecnologia pode conduzir ao individualismo, ao isolamento social e à perda de propósito existencial.
IMPACTOS SOCIOECONÔMICOS E LABORAIS
✓ Desemprego e exclusão: A automação desenfreada pode aumentar a desigualdade estrutural, relegando parcelas da população à inatividade forçada e à privação de trabalho digno.
VULNERABILIDADE ÉTICA E DEMOCRÁTICA
✓ Vieses, vigilância e manipulação: A tecnologia não é neutra; o uso indevido de dados e algoritmos enviesados ameaça a privacidade, a democracia, a liberdade e dissemina desinformação.
✓ Manipulação e riscos para a infância: O acesso não supervisionado à tecnologia compromete o desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e jovens.
SEGURANÇA GLOBAL
✓ A tecnologia a serviço da guerra: A proliferação de sistemas de armas com autonomia operacional torna a violência mais difícil de controlar e reduz a responsabilidade humana nas decisões letais.
COMO ENFRENTAR OS DESAFIOS DA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O CENTRO DA AÇÃO É A PESSOA HUMANA
✓ Prioridade humana e dignidade: Toda inovação deve servir estritamente à vida, assegurando que o progresso técnico seja sempre acompanhado da justiça social e coloque o bem integral da pessoa no centro.
✓ Resgate da espiritualidade: Cultivar valores humanos e espirituais fundamentais que transcendem a capacidade das máquinas e conferem sabedoria ao uso da tecnologia.
ESTRUTURAS DE GOVERNANÇA E ÉTICA
✓ Governança global e regulação: Necessidade de estruturas legais robustas, tanto nacionais quanto internacionais, que garantam segurança, ética, justiça e proteção aos direitos humanos frente aos modelos de IA.
✓ Responsabilidade nas áreas sensíveis: Manter a responsabilidade humana no comando das decisões críticas, especialmente em contextos militares e laborais.
FORMAÇÃO E DIÁLOGO
✓ Educação crítica e ética: Capacitar indivíduos, por meio das instituições de ensino, para compreender os limites e impactos profundos dos sistemas automatizados, promovendo o discernimento.
✓ Diálogo e colaboração: Promover um esforço coletivo entre a ciência, a fé, a filosofia, o direito e a política, para encontrar caminhos que protejam o bem comum e a coesão social.


